É claro que estamos tratando de festas
populares, pois as religiosas são realizadas anualmente ao pescador-apóstolo, promovidas
pela igreja, mas o povo já não dedica ao chaveiro do céu aquelas honrarias
profano-religiosas de antanho. Tal festa na atualidade se tornou um eco abafado da joanina.
Está se tornando comum a conclusão dos festejos juninos com apenas espocar dos foguetes
que sobraram e que a umidade do clima tropical arruinará não permitindo que fiquem
guardados para o ano vindouro. É foguetório para São Pedro, homenagem ao chaveiro
do céu, santo junino do hagiológico católico romano que a tradição afirma ser o primeiro papa,
cujo dia festivo é a 29 de junho, e que é cultuado como protetor dos pescadores com
procissões marítimas em quase todo o litoral brasileiro e pelas viúvas do vale do São
Francisco.
Há, por parte do povo, uma certa irreverência e liberdade no tratamento com São Pedro.
Chover é obra de São Pedro. Quando os trovões começam a aturdir e as crianças,
amendrontadas choram, as mães as consolam: "é a barriga de São Pedro
roncando" ou "ele está mudando de lugar os móveis"... Para se
entrar no céu é necessário que o chaveiro chaviculário-santo abra as
portas. Embora simbolizado como velho, não o respeitam devidamente. De maneira impiedosa
e desrespeitosa é pábulo de milhares de anedotas, algumas inocentes, outras picantes.
Serve para comparar e justificar os erros humanos: "Até São Pedro errou, posso
errar também".
Na área da pesca, nas duas regiões da ubá ou da jangada, onde lhe dedicam procissões
marítimas, estas se assemelham à de Ubatuba, litoral norte paulista, realizada à noite,
consistindo numa pomposa procissão marítima. Num barco grande o capitânia
vai a imagem do protetor dos pescadores rodeadas por inúmeros tocheiros. Atrás segue uma
centena mais ou menos de canoas, de ubás, todas ostentando tochas apropriadas que se não
apagam com o vento, levando breu na composição. Dão uma volta pela baía, regressando
à igreja. A procissão noturna oferece um espetáculo de inigualável beleza. De longe,
as luzes das tochas do séquito de canoas, dão-nos a impressão de um enorme colar
luminoso sobre as águas do mar, ali defronte da lendária praia de Iperoig.
Na região da jangada, no Ceará, na praia de Iracema em Fortaleza, havia pomposa
procissão das jangadas levando a imagem ao Mucuripe, até o dia em que foi proibida pelo
bispo. E a igreja de São Pedro da praia romântica deixou de ser freqüentada pelos
jangadeiros.
Fato curioso ser a festa a São Pedro na região no alto e médio Rio São Francisco,
promovida pelas viúvas, consistindo na atualidade apenas no transporte, em canoa, de
imagem (santo em vulto [escultura] ou em registro [fotografia]) de uma casa
até uma capela ou outra casa onde há reza em conjunto. Uns poucos foguetes pipocam no ar
no início do terço e ao final da cerimônia, "reza puxada por uma tiradeira".
Tal culto prestado pelas viúvas origina-se certamente da lenda sobre a mãe ou, segundo
outra versão, a sogra, de São Pedro que era muito egoísta. Certo dia, ao limpar umas
folhas de tempero deixou cair uma folha tenra e verde de cebola que foi levada pelas
águas do rio onde a lavava; não podendo apanhá-la disse: "que fique para as
almas". Ao morrer, para entrar no céu foi-lhe muito difícil: nunca tinha dado
nada, foi sempre somítica, mesquinha. Acontece que para alcançar o paraíso só tinha
aquela folhinha de cebola para auxiliá-la. Agarrou-se a ela, mas eis que outras almas
penduraram-se na velha. Tanto esta esperneou que ficou aí pelos ares belibeteando.
Em alguns lugares do Brasil, ainda pelo dia de São Pedro, nas casas de seus xarás
economicamente mais aquinhoados do que os demais pescadores, é comum fincar um pau-de-sebo
confundido com os mastros de junho que são arvorezinhas ou mastros encimados pela
bandeira do santo. É escorregadio, revive em parte a tradição milenar européia,
ariana, da árvore completamente desnuda pelo inverno, em torno da qual dançavam tal qual
se faz hoje com o pau-de-fita ou dança-de-fitas. (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São
Paulo). É apenas o pau-de-sebo que desafia a meninada para vencê-lo e tirar vitoriosa a
nota de dinheiro de seu topo, após a disputa é posto abaixo, derrubado.
No baixo São Francisco seus homônimos acendem pequenas fogueiras nas portas de suas
casas no dia 29 de junho; amarrando-se uma fita no braço de um Pedro terreno ele se vê
na obrigação de dar um presente ou pagar um beberete que será tomado na primeira bodega
em homenagem ao celeste.
Em Cunha (São Paulo) registramos um acalanto onde figura entre outros santos, São Pedro:
Acordei de madrugada,
fui varrê a Conceição,
Incontrei Nossa Sinhora
com dois livrinho na mão.
Eu pedi um com ela,
ela me disse que não;
eu tornei a lhe pedi,
ela me deu um cordão.
Numa ponta tinha São Pedro,
na outra tinha São Juão,
no meio tinha um letrêro
da Virge da Conceição.(ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional) |


Antanho Outrora, nos tempos idos.
Aquinhoados Que recebeu o seu quinhão; Favorecido economicamente.
Hagiológico Referente aos santos.
Pábulo - Aquilo que serve de motivo para motejos ou a maledicência. |