Ir para a página principal


Festança
Cancioneiro
Imaginário
Oficina
Palhoça
Colher de Pau
Panacéia
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente


Folhinha

Arquivos

Outras Edições

Busca

Retornar para Colher de Pau

CULINÁRIA JOANINA EM ALAGOAS

Ilustração de Marcos Jardim

Há um fenômeno de periodismo muito nitidamente caracterizado em vários aspectos folclóricos do Brasil, mormente no nordeste.

Da mesma forma que as estações – folguedos, danças, manjares, percorrem, anualmente, o seu ciclo com surpreendente regularidade.

As crianças brincam os vários jogos de castanha entre dezembro e fevereiro, isto é, na época em que os cajueiros frutificam e empinam, ou melhor, soltam arraias, índios e corujões quando sopra a monção de agosto. O pião aparece, juntamente com a carrapeta pelo Santo Antônio e faz a sua temporada até fins de julho. Em março repontam as academias; tingem-se as calçadas de riscos simétricos de carvão enquanto a garotada, aos pulinhos e num pé só, em poucos instantes realiza um alegre curso acadêmico.

Havia ainda, antigamente, o pitoresco jogo do eixo-badeixo que se brincava entre a castanha e a arraia e que já caiu em desuso.

Isso quanto aos folguedos infantis.

Certas danças sofriam, igualmente, a ação do periodismo que vimos assinalando. As quadrilhas por exemplo, eram e ainda hoje são dançadas, preferencialmente, pelo São João, ao passo que os cocos só o eram durante as comemorações natalinas, pelo menos em Maceió.

A nossa cozinha não podia escapar, como não escapa, à influência desse periodismo. Temos acepipes e iguarias peculiares a cada época do ano, surgindo e desaparecendo espontaneamente cada qual em seu tempo, com uma regularidade de relógio.

Ora vejamos.

As iguarias do Natal nada têm de particular; são até, na sua maioria, exóticas – os figos secos, as passas, as nozes, amêndoas e avelãs, as castanhas… mas são natalinas. Ninguém que se preze se dá ao desplante de comê-las pelo carnaval, pelo São João ou pela Semana Santa.

O carnaval também tinha aqui, antigamente, o seu prato típico – eram os filhós que o povo chamava de filhoses. O filhó é um pequeno bolo semelhante aos chamados sonhos que se come embebido em mel. Não havia então carnaval sem filhoses nem filhoses fora do carnaval, que ninguém era capaz de oferecê-los aos seus convidados em dia de bodas ou aniversário.

Pela Semana Santa a nossa cozinha se abaiana um tanto. Os suculentos quitutes de peixes e mariscos se douram de dendê e se espevitam com uma dose maior de pimenta. É a época dos vatapás e dos carurus e – nota singular – do bredo. Essa insípida amarantácea é em vão que a buscamos nos mercados durante todo o ano. Some-se completamente. É como se nunca tivesse existido. Raia porém, o Domingo de Ramos e eis que, misteriosamente os mercados, as feiras, os vendedores ambulantes transbordam de molhos verdes de bredo tenro e viçoso até o Sábado da Aleluia quando novamente mergulha, por outro ano, no mais insondável esquecimento.

O São João, como as demais festas populares não podia deixar portanto, de ter a sua culinária própria. E tem-na, superiormente no milho.

É ele o grande cereal joanino.

Na noite festiva consomem-se toneladas de milho cozido, em espigas já maduras, ou verdes espigas assadas na folia das fogueiras.

Mas o milho se alça em importância e prestígio raros quando entra na manipulação da canjica e da pamonha.

A canjica nordestina acode em Minas Gerais e São Paulo pelo feio nome de curau e não passa em suma, de uma forma abastardada da verdadeira canjica nortista, porque o curau não é mais do que uma espécie de papa de milho preparada com leite de vaca e açúcar. Acepipe bem reles, como se vê. O que por lá se apelida de canjica é o nosso gostoso munguzá que a troça dos rapazes alcunha de chá de burro.

A canjica, a legítima, a nossa, é papa fina, manjar de deuses, requerendo cuidados especiais e requintada arte na manipulação. O ponto, a espessura e a consistência da massa, a dosagem do leite de coco, do sal e do açúcar são requisitos essenciais que demandam arte e largo tirocínio.

Para se obter uma excelente canjica ralam-se umas tantas espigas de milho bem verdinho e cuidadosamente escolhido. A massa obtida depois da raladura é passada várias vezes numa peneira finíssima, derramando-se, durante essa operação, sobre a massa, um pouco de leite de coco misturado em água. Tempera-se então a canjica com açúcar, uma pitadinha de sal, algumas sementes de erva-doce e uma colherinha de água-de-flor-de-laranjeira, conforme o gosto e leva-se ao fogo, mexendo sempre para não encaroçar, até ferver que é quando se adiciona uma concha de leite puro e grosso de coco, deixando-se mais um pouco no fogo até encorpar. Isso feito, despeja-se a canjica em pratos de travessa ou formas especiais, bordadas em relevo. Logo que esfria e toma consistência, polvilha-se sobre ela uma poeirinha de canela. Está pronta a canjica e deve ficar tremelicante como gelatina.

A pamonha é quase a mesma canjica passada porém em peneira mais grossa e sem os condimentos dela. Faz-se até sem açúcar, conforme o paladar. O que principalmente a caracteriza é o acondicionamento que é típico.

Ajeitam-se umas palhas de milho verde em forma de recipiente cilíndrico, apertando-se com um fio de palha uma das extremidades para que o conteúdo não vaze. É a boneca da pamonha. Enche-se ela depois com a massa e fecha-se a outra extremidade. Está feita a pamonha.

Não é, como se vê, muito variada entre nós a culinária joanina. Não temos bebidas tradicionais como o licor de jenipapo, na Bahia. Mas a canjica por si só, tal como é feita aqui basta para satisfazer o mais requintado gosto e encher de encantos a noite tradicional e festiva.

É um poema – em milho.

A trova mais saborosa do São João.

Maceió, 4 de junho de 1957


(TRIGUEIROS, Edilberto. In Boletim Alagoano de Folclore. Maceió, junho de 1957)

Topo

Jangada Brasil © 2000