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SÃO JOÃO DAS REPÚBLICAS DE ESTUDANTES

Isso foi no tempo em que a Bahia era o celeiro que alimentava os cérebros dos brasileiros, de norte a sul. Não se veja nessa afirmação exagero ou bairrismo. No começo do século XX, o Brasil com duas Faculdades de Medicina – a do Rio de Janeiro e a nossa; três de Direito – Recife, São Paulo e Bahia; duas ou três de Engenharia. E diga-se sem receio de contestação: a nossa Faculdade de Medicina era famosa, razão da preferência dos paulistas e de estudantes de outros Estados, do norte especialmente. Quanta gente que se tornou ilustre, mais tarde, estudou na velha Salvador, integrando-se na sua sociedade, aqui fazendo amizades sólidas e até se casando com as baianas?

Pelo fato de não terem família perto, os rapazes grupavam-se em repúblicas espalhadas pelas ruas mais modestas da cidade.

A hospitalidade baiana franqueava as portas aos estudantes, privados do aconchego do lar durante meses a fio. Isso não impedia que, embora recebendo convites para festas familiares, em determinadas épocas, a verve da mocidade se expandisse, como acontecia quando o calendário marcava o tempo mais propício do ano aos estômagos jovens... o mês de junho.

Às novenas de Santo Antônio, regadas a licor de jenipapo, seguia-se a noite de São João, oportunidade em que o número elevado de iguarias aguçava o apetite...

Fossem embora convidados, e isso acontecia sempre, os rapazes não se conformavam com a ausência de quitutes nas repúblicas, em geral desprovidas de comidas típicas. É sabido que a Bahia tem culinária própria.

Gente moça não se aperta, tem recursos que os mais velhos não suspeitam. Custava pouco emprega-los.

Nas repúblicas havia sempre poetas. Se de médico, louco e poeta todos nós temos um pouco...

Em 23 de junho de 1935, O Imparcial publicou o seguinte pedido da República Seja Feita a Nossa Vontade:

Venha a nós a vossa dádiva

São João festivo, ao despontar de junho,
Já de tão longe vem-se anunciando.
E a garotada, de foguete em punho,
Corre a cidade, os fogos inflamando.

E este ardor expansivo que se expressa
Na combustão das bombas e balões,
É dentro de nossa alma que começa
Vibram primeiro nossos corações.

Mas para que se alegre o coração
Deve igualmente o estômago vibrar...
Quem pode, acaso, ter animação
Tendo a pobre barriga a jejuar?

Queremos um São João bem divertido,
Todos ardendo em chamas de alegria;
Mas que ninguém se faça de esquecido
Com as tradições louváveis da Bahia.

Não somos exigentes: ao contrário
Até bem pouca coisa nos contenta:
Queremos cheia apenas um armário
Que tem de prateleiras: Só 90!

Bebidas nem por sonho dispensamos
Vinhos, licor, cerveja, até champanhe...
Tudo o que é bom jamais nos recusamos
Com o nosso paladar ninguém se engane!

Nós saberemos ser agradecidos
Devolvendo as garrafas - vazias!
E os pratos que trouxerem bons cozidos
Pois ninguém nos excede em cortesias.

Só não agradecemos de antemão,
A quem nos vai mandar algum guisado.
Porque somos da praça, e no sertão
É que o palerma paga adiantado!

Nós já estamos co’a boca cheia d’água
Lambendo os beiços, cheios de prazer,
Pois extingüiu-se toda nossa mágoa
Ante os presentes que imos receber.

A todos os amigos concitamos
Que nos mandem de tudo em profusão
Enquanto nós a todos desejamos
Um formidável Dia de São João!


Este pedido, pode dizer-se, é de ontem. Entretanto, asseveramos que pelos idos de 1905, 1907, talvez antes, as cartas de pedidos em prosa e verso eram tradição das repúblicas, e mais que dificilmente alguém deixava de corresponder à brincadeira dos rapazes.

Bandejas sortidas cruzavam pelas ruas cobertas por alvos guardanapos ou panos bordados, levando muita coisa saborosa, hoje ausente de muitas mesas...

Milho de 2 e 4 mil réis a mão; coco de 200 réis, ovos de mil e duzentos a dúzia... não vale a pena recordar.

Se ainda houvesse pedidos de repúblicas, os estudantes não lograriam aquela correspondência fidalga de outros tempos!

Como mudou o São João!

[1966]


(ALVES, Marieta. In São João na Bahia)

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