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SORTES DE SÃO JOÃO

É um costume antigo, tanto no interior do estado, quanto na capital, na noite das vésperas de São João, moças, rapazes, homens, mulheres, reunirem-se nos alpendres das casas diante das fogueiras entre o espocar dos fogos de artifício, procederem as sortes de São João.

Dá-se ao interessado ou interessada, a relação dos números disponíveis, aos quais correspondem as respectivas sortes. Uma vez este escolhido, procura-se o mesmo na relação junto ao qual está a sorte e a leitura é feita, em voz alta.

Aqui, uma série de sortes e respectivos números, para uso neste São João:


Quem será meu namorado(a)?

Senhoritas

2
Melhor de certo seria
Não divulgar teu segredo
Ele é mau, não tem valia
E é feio que mete medo

3
Teu amado é conhecido
Bonito, feio na pândega
E que está comprometido
No fogo havido na alfândega

4
Em tal matéria tens sorte
Que mói, que rala, que mata
Terás um namoro forte
Com um certo diplomata

5
Há de um dia namorar-te
Um simpático aspirante
Dileto filho de Marte
Fino, correto, elegante

6
Quem seus segredos não guarda
Tem por cupido descaso
O teu amor pela farda
Nos mostra um soldado raso

7
Menina, não desanime
Que a sorte não lhe faz mal
Por você já se comprime
De amores um general

8
Em breve estarás contente
Minha mimosa santinha
Namorando abertamente
Esbelto guarda-marinha

9
Qualquer de certo te agrada
Mas teu gênio interesseiro
Vai fazer-te namorada
Só de rapaz de dinheiro

10
Um velho, um velho sisudo
Barba branca, andar cansado
Feio, bambo, barrigudo
Terás por teu namorado

11
O teu desejo tem graça
E causa até sensação
Mas teu coração é praça
Tomada por alemão

12
Nem sempre a sorte mesquinha
Vem trazer felicidade
Ficarás muito velhinha
Amando, em segredo, um frade


Rapazes

2
Não te dê isto canseira
Meu cara de santarrão
Só velha namoradeira
Almeja-te o coração

3
O teu hábito berrante
Tão bisonho já te fez
Que te mira a todo instante
Gorda filha de um burguês

4
Tu és um bicho matreiro
Mas não iludes ninguém
E na filha de um vendeiro
Que vê teu futuro bem

5
O teu todo folgazão
Não agradando as meninas
Provoca sempre cisão
Entre as viúvas ladinas

6
Contemplando a desastrada
Figura tua, banzeira
Já ficou apaixonada
Certa velha quitandeira

7
Linda, modesta, franzina
Meiga, terna, recatada
Risonha, aqui diz a sina
Será tua namorada

8
Na tua vida o partido
Que achaste é infeliz
Pois o teu ar sacudido
Apaixonou certa atriz

9
Vou te falar a verdade
Vou ser muito verdadeiro
Tu vives pela amizade
Da filha de um fazendeiro

10
No amor não tens canseira
Freguês de todas as rodas
Estás amando uma caixeira
De certa casa de modas

11
De letras tu nada entendes
Mas quem tiver boas vistas
Vê logo que tu pretendes
Amar uma normalista

12
Amando com espalhafato
Ninguém no mundo ignora
Que tu és o candidato
De respeitável senhora



Casar-me-ei

Solteiras

2
Quem sabe lá! Pode ser
Tudo hoje está se vendo
Vezes a gente não quer
Mas tem de acabar querendo

3
Casarás e muito breve
Teu escolhido do peito
Aqui está, mas não se atreve
A declarar-se o sujeito

4
Não casas, não. Na cidade
Já se sabe que ele foi-se
Também, flor, na tua idade
O casar já não é doce

5
Queres saber com certeza
Se casas ou não te casas?
Perguntas quem nesta mesa
Está me ouvindo sobre brasas

6
Hás de casar brevemente
Isto é sabido e notório
Teu noivo está bem doente
Pode salvá-lo o casório

7
Vais casar, mas com franqueza
Não farás bom casamento
Se solteira tens tristeza
Casada terás tormento

8
Tu já passaste da idade
Casar, não te dê canseira
Pra passar necessidade
É melhor ficar solteira

9
Pode ser que a sorte um dia
Te mostre com casamento
Conserva a tua alegria
Espera o grande momento

10
Promete casamentagem
Teu noivo esperto e sagaz
Mas inventa uma viagem
Marca o casório e não faz

11
Muito breve casarás
Sem tricas nem empecilhos
Hás de ser feliz demais
E hás de ter muitos filhos

12
Hás de ficar solteirinha
Que pra casar não tens meios
Morrerás muito velhinha
Criando filhos alheios


(In Revista Joanina, junho de 1981)

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