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"N’água de São João me lavei
Toda a mazela que tinha deixei!"

BANHOS DE CHEIRO

Variam de região para região os costumes destes banhos.

No norte, por exemplo – e aqui, agora, os pintores magistrais a que me reporto, são outros -, o banho de cheiro é cerimônia de alto interesse.

É preparado com ervas aromáticas, que a terra dadivosa oferece espontaneamente e em variedade verdadeiramente excepcional.

Torna-se interessante inscrever aqui o que sobre banho de cheiro, escreve Osvaldo Orico no seu excelente Vocabulário de crendices amazônicas (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1937, p. 34):

"Ainda hoje é uma das tradições mais apreciadas, tanto em Belém e Manaus, como no interior, o uso dos banhos de cheiro. Muitas pessoas o prolongam por todo o ano, sob a forma de garrafadas. É comum, mesmo no guarda-roupa da gente fina, encontrar-se uma garrafa de patchouli ou de outras propriedades da flora amazônica. A grande atração do banho de cheiro é, porém, na noite de São João, depois que as famílias encerraram a festividade dos foguetes, tiraram sortes e pularam as fogueiras, dando-se a mão em parentescos e compadrios. A flora amazônica é pródiga e gentilíssima em toda a espécie de ervas, cascas aromáticas com que se fazem as infusões do banho de cheiro, etc.".

Acrescenta ainda, Osvaldo Orico, que Ildefonso Tavares, "um velho cronista paraense, transmite-nos a receita desses banhos: os trevos, ervas e cipós são pisados e as raízes e paus ralados dentro de uma bacia ou cuia pitinga, com água e guardados até a hora do banho. Em seguida, deita-se água limpa pelo corpo e esfrega-se com o sumo dos ingredientes, concluindo por despejar à cabeça o líquido perfumoso e vestir a roupa sem enxugar o corpo. Os ingredientes, entretanto, têm as suas virtudes especiais".

Conclui Osvaldo Orico que "acreditam os naturais que esse banho consegue aumentar a ventura das pessoas felizes, restituir a felicidade aos que a perderam e lavar o caiporismo dos desgraçados. Por todos esses atributos generosos, que se fizeram tradição, o banho de cheiro na Amazônia tem as mesmas propriedades de uma visita ao convento dos Capuchinhos do Rio de Janeiro, na primeira sexta-feira do mês".

Também o notável contista Peregrino Júnior em um dos seus admiráveis descritivos das Histórias da Amazônia, nos fala nos banhos de cheiro e dos seus componentes:

"Os trevos, as ervas, as raízes espalham no ar um perfume excitante e envolvente. E são os próprios cronistas joaninos que enumeram os ingredientes necessários aos banhos de cheiro e ensinam a técnica de prepará-los. Eis aqui como fala o célebre Marabá, da Folha do Norte:

Ervas: pataqueira, são-joão, oriza, mucuracaá, caraxió, arruda, vindicá, carneirinho, malvarosa, pluma e panema.

Cipós: catinga, corembó, sucuriju e cipó-iuíra.

Raízes e batatas: mão d’onça, uratuciú, peri-perioca, patchouli, ariá de cheiro, mendara e marapuama.

Cascas: de cedro, buiuçu, umiri, preciosa e macaca-poranga.

Paus: santo, d’angola, de rosa, corembó.

Trevos: de boto, de roxo, cumaru, torcidinho, japana, mangerona, catinga de mulata, manjericão, amor crescido, redondo, pé de galinha, pega-rapaz, macaquinho, beliscão, abraçadinho, benjoim, apertadinho, etc."

Estranha, complicada receita… Nomes esquisitos, mas aromas capitosos, saudáveis, delicados, que se pegam ao corpo flexuoso das cunhãs e dão à sua pele morena, acetinado, e frescura, tornando-as cunhãs-porangas – moças bonitas com aquele poder irresistível de atração que transtorna a cabeça dos tapuios.


(BETTENCOURT, Gastão de. Os três santos de junho no folclore brasílico)


Quem milagres quer achar
Contra os males e o demônio
Busca logo Santo Antônio
Que aí os há de encontrar


O sono de São João

"Na noite dele, o santo está dormindo, ferrado num sono muito profundo e não vê as festas que os devotos lhe fazem. Sabem por que? Porque São João é o maior fogueteiro do mundo. Por isso ele deve ficar dormindo. Se acordar, ao ver tamanha festa, como grande fogueteiro, pegará fogo no mundo e destruirá tudo". E quem conta essa lenda, termina com o conselho: "Todo cuidado é pouco na noite de São João. Aproveitando o sono do santo os capeta e os coisa-ruim estão todos soltos, fazendo maldades e assombrando a gente".

(registrado por Rossini Tavares de Lima. In Folclore das festas cíclicas)


Para arrumar bom casamento

Embrulhe 16 folhas de laranjeiras com um pedaço de papel escrito com o seu nome e guarde tudo debaixo do colchão por 16 dias seguidos. Depois, separe oito folhas e deposite aos pés de Santo Antônio numa igreja. Com as oito folhas restantes faça uma espécie de chá, adicione mel e perfume de verbena, e tome um banho do pescoço para baixo.

Mas não jogue fora essas folhas. Elas devem ser colocadas nos pés de Santo Antônio no momento em que estiver sendo realizado um casamento. É importante que você faça com muita fé.

(SILVA, Leni de Amorim. Adivinhações e sortes. In Ciclo junino)

AMARRANDO PEDRO

Dia de São Pedro é 29 de junho e uma tradição de facécia e cordialidade consiste em amarrar uma fitinha de seda no braço de quem tenha o nome do Santo do Dia. Também é o onomástico de São Paulo mas o Apóstolo dos Gentios não é muito lembrado. O Chaveiro do Céu é que está na memória popular embora sofresse morte no mesmo dia que Paulo de Tarso. O Pedro amarrado terá de pagar prenda, dando um presente a quem o amarrou. A iniciativa cabe às jovens senhoras desembaraçadas e às candidatas ao título de esposas. Os amarrados serão Pedros solteiros e também casados pecuniosos e de presença social. Recordo o farmacêutico Pedro Medeiros em Santa Cruz, Rio Grande do Norte, 1920, com o muque coberto de fitinhas jubilosas. É um sinal de sujeição, talvez tão velho como as mais antigas civilizações. Está solto e convencionalmente submisso, pela insígnia visível. Milhares de desenhos glorificam as vitórias egípcias, assírias, babilônicas, persas. Os vencidos que se libertam tornando-se tributários, os príncipes dependentes, os reis vassalos, recebidos pelo soberano triunfador, todos ostentam, não correntes de ouro mas correias de couro, como braçadeiras, tendo extremidades pendentes na altura do deltóide. Não eram conduzidos presos pelos jarretes, cinturas ou pulsos, mas ligados acima do cotovelo até a zona muscular dos úmeros, os humilhados em filas pelo pescoço. Há vinte séculos antes da Era Cristã o atilho simbólico colocava-se exatamente no mesmo local da fitinha amável no braço do Pedro Contemporâneo, durante o aniversário de 29 de junho.

VOCABULÁRIO
Facécia – Chiste, graça, brincadeira.
Jarrete – Parte da perna situada atrás da articulação do joelho.
Onomástico – Relativo aos nomes próprios.
Pecuniosos – Ricos, endinheirados.

(CASCUDO, Luís da Câmara. História dos nossos gestos)

A IDADE DE SEU FUTURO AMOR


Se você quer saber se casará com uma pessoa moça ou velha, deve procurar, no escuro, na noite de São João uma pimenteira que tenha pimentas verdes e vermelhas. Dessa pimenteira você tira uma pimenta de tal modo que não possa saber a cor que ela tem. Embrulhe a pimenta num papel que deverá ser colocado debaixo do travesseiro.

No dia seguinte, ao abrir o papel, se a pimenta for verde se casará com um jovem. Caso contrário, a pessoa que lhe é destinada será velha.

DEZ SORTES DE SÃO JOÃO

• Se desejar saber seu futuro, derrame chumbo derretido numa vasilha d’água. A condensação produzirá formas, que serão associadas a imagens: navio significará viagem; igreja, casamento; caixão, morte; cofre, riqueza.


• Pegue uma vela acesa e pingue num copo d’água tantos pingos de cera líquida quantos anos tiver. A forma produzida pela cera dará o significado do seu futuro.


• Embrulhe um pouco de cinza da fogueira e ponha debaixo do travesseiro. Reze, a seguir, a Salve Rainha até "nos mostrai" e peça a Nosso Senhor e São João que lhe apresentem em sonhos o futuro marido. E isto acontecerá.


• Faça uma ponte com pauzinhos e ponha dentro de um prato com água. A seguir deixe o prato debaixo da cama e a pessoa que enxergar em sonho, atravessando uma ponte, será o seu futuro marido.


• Na véspera de São João, encha a boca com água e vá se esconder atrás da porta da rua. O primeiro nome que ouvir pronunciado será o do noivo ou noiva.

• Compre um galo vivo na feira. Faça com as amigas uma roda e deponha nos seus pés e nos pés de cada uma um pouco de milho. A seguir, solte o galo no meio da roda. Aquela em cujos pés o galo for bicar casará em primeiro lugar.


• Pule a fogueira juntamente com o seu namorado. Se chegarem juntos ao chão não demorarão a se casar. Mas, se um ficar para trás, o casamento jamais será realizado.


• Atire na fogueira um objeto de seu uso pessoal e logo corra ao altar de São João, faça uma prece e peça-lhe um noivo. No ano seguinte, na época da festa, estará casada.


• Na noite de São João, introduza uma faca nova no tronco de uma bananeira. No dia seguinte, aparecerá na lâmina a inicial do futuro noivo ou noiva.


• À meia-noite de 23, olhe no espelho de corpo inteiro e ao invés de enxergar a própria imagem verá a do futuro marido. Esta sorte deverá ser feita com muita fé, pois dizem que é perigosa.


(Registradas por Rossini Tavares de Lima em Folclore das festas cíclicas)

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