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MASTROS DE JUNHO

Há uma relação marcante entre a época da colheita e as festas regionais. No solstício do inverno, realiza-se a maior de todas as festas caipiras, a de São João, que parece ser a festa da plenitude, embora bem próximas estejam as preocupações que a vacante lhes poderá trazer, porque ela é um período de apreensão – que faremos no ano vindouro?

As três festas do mês de junho são, por excelência, festas caseiras, mormente a São João, que também nos dá impressão de revivescência do culto ao fogo, uma forma pirolátrica. É uma celebração que congrega a família em torno da fogueira.

As festas juninas tem início a 13 de junho, dia de Santo Antônio, atinge seu címax no dia 24, dedicado a São João Batista e encerra-se quase friamente, no dia 29, data de São Pedro... que merece alguma atenção porque, afinal de contas, "ele tem as chaves do céu"...

Quando da proximidade da colheita muitas esperanças estão presentes na alma do roceiro. As festas dessa época, portanto não deixam de envolver número bem grande de ritos protetivos. Tais festas também não trazem grandes despesas, não havendo necessidade de locomoção, porque se realizam na casa do patriarca da família, dela participando somente a parentalha.

No vale do Paraíba do Sul (São Paulo) é comum, de junho a dezembro, ao passar pela frente de uma casa, constatarmos a presença de três arvorezinhas plantadas. As espécies geralmente escolhidas são: peloteira, quaresmeira, guamerim (miconia pusilliflora tr.)

Ao anoitecer de 12 de junho, o promotor da festa solta alguns foguetes, sinais de chamada para se congregarem os parentes e compadres. O compadrio, às vezes, é um parentesco mais forte do que o do sangue... Todos reunidos fazem, respeitosamente, uma reza. Enquanto estão rezando, uma pessoa que fizera uma promessa, cava um buraco, de dois palmos de profundidade, na frente da casa. Pronta a cova, finalizada a reza, vão levantar a arvorezinha: enquanto isso, ouve-se uma Salve Rainha, cantada por todos os presentes. Vão "repetindo" a reza até que esteja findo o levantamento da arvorezinha e o buraco fechado.

Quando estão tampando o buracos, colocam ovos de galinha, grãos de milho, feijão. Dessa forma asseguram boa colheita e as galhinhas reproduzirão; não há pestes.

Na arvorezinha amarram fitas, prendem flores, espetam laranjas nos galhos e enlaçam cipós de flor-de-São-João (pyrostegia venusta miers). As prímicias da roça de milho são colocadas, descascam um pouco da palha com a qual as amarram no galho, ficando a espiga a mostrar o milagre da terra: cem grãos em troco de um que foi plantado! Debulham mais tarde essas espigas e misturam as sementes às demais, que irão plantar em setembro.

No dia consagrado ao santo, a sua arvorezinha amanhecerá plantada. No dia 13, a que foi oferecida a Santo Antônio; no dia 24, ao lado da primeira está a de São João, que goza o privilégio de ficar sempre entre as outras duas, pois no dia 29 aparece a de São Pedro.

Quando, porventura, não podem fazer a festa, levantam apenas as arvorezinhas nos três dias santificados. Nas casas sempre há os devotos desses três santos que, embora de origem judaica e portuguesa, são os mais brasileiros do hagiológio católico romano, os mais queridos e adorados de nossa gente simples, ingênua e boa do interior. Seria injustiça omitir neste rol celeste de São Benedito, o advogado de todos os pretos do Brasil, ou melhor, de todos os que pertecem às classes destituídas de bens.

Atualmente, as festas que eram realizadas nos três dias, passaram a ser realizadas apenas no dia de São João. Embora nos outros façam a reza, levantem as arvorezinhas, é somente na noite de 23 para 24 que realizam a primeira das festas do ciclo da vacante, pois é nesse dia que no calendário do rurícola tem início esse período, que vai da colheita até ao começo do plantio, isto é, ao dia de Nossa Senhora de Brotas, 8 de setembro.

Noite de São João!

Ao anoitecer de 23, soltam alguns rojões. No centro do terreiro está a lenha empilhada em quadrados sobrepostos para a fogueira. Quando o fogo é ateado, não demora muito, as labaredas arredondam o quadrado, e ela acaba tomando a forma circular e os paus incandescentes parecem raios, enfim, uma representação do sol. A fogueira é um símbolo do sol, fogo que fecunda a terra. Escondem-se aí, quem sabe, os ritos de fecundação da natureza? É o festeiro quem ateia o fogo na lenha não falquejada. O festeiro, que em geral é o "paterfamilias", solta três rojões quase ao mesmo tempo. É um sinal convencional anunciando o início da reza. Toda a parentada reunida, filhos, netos, sobrinhos, compadres e afilhados, aproximam-se do festeiro, que "puxa" o terço e todos cantam. Enquanto uns rezam, outros escavam o lugar para levantar o mastro (o que tem a bandeira do santo), um buraco de três palmos de profundidade. Tanto às àrvorezinhas como ao mastro, chamam indistintamente, de mastro.

De dentro da casa, finda a reza, saem para levantar a arvorezinha. Ouve-se o Salve Rainha, enquanto são lançados no buraco ovos, milho e feijão. Levantada a arvorezinha, aproximam-se do mastro. Levantam-no, deixando-o em posição horizontal e, quantos couberem, põem-se sob ele para carregá-lo. As meninas carregam a bandeira do santo na frente de pequena procissão organizadas em rápidos instantes.

O mastro é carregado processionalmente, dando uma pequena volta pelos arredores da casa do festeiro, e quando a roça é próxima, procuram chegar até lá. Vão rezando, cantando, enquanto carregam o mastro e bandeira do santo batista. Será o mastro um símbolo da dendrolatria ariana, que sobrevive no culto católico apostólico romano, além do culto à árvore de Natal e daquela simbolizada pela cruz do dia 3 de maio? Estes de origem ariana; aquele, latina. Por que o enfeitam com flores e fitas, será que simboliza a passagem da vegetação que morre para a que vive? O certo é que todos querem carregá-lo e só mesmo depois de todos os participantes terem tido a oportunidade de conduzi-lo ao menos um pouco, ele é finalmente levantado.

O mastro não passa de um pau de mais ou menos cinco a seis metros de comprimento, com um diâmetro entre 10 a 15 centímetros. É todo pintado de branco, com desenhos de flores ou apenas anéis, coloridos de modo que possa balouçar ao sopro do vento. Há bandeiras simples, de um santo só e há também outras que tem três faces, aparecendo cada uma das faces: São Pedro, São João e Santo Antônio. Nas casas de caboclos roceiros, porém são mais comuns as bandeiras de um santo só, que é o da devoção do morador. Embora existam muitos Antônios e Pedros, porém, o santo mais encontrado é São João. É costume, quando uma pessoa tem um daqueles nomes, ser devoto do homônimo celeste.

O promotor da festa, chefe de família, o mais considerado do bairro rural, lança fogo na lenha adrede colocada para a fogueira, logo que o mastro é levantado. Há um hiato no meio de tanto canto religioso. Param quase que instantaneamente no momento em que o mastro é todo levantado. É um instante de expectativa e perplexidade quando o mastro atinge a posição em que deve ficar, porque todos estão ansiosos para ver para que lado a bandeira do santo virará. Se virar na direção da casa do festeiro é sorte e felicidade para ele; no caso contrário, desgraça e morte na família. A bandeira tem, também, a função de benzer, e quando vira na direção de quem está embaixo, significa que ela o está abençoando. Por isso os piraquaras rezam e dizem orações de gratidão, cheios de esperanças de um ano vindouro feliz.

Este conjunto de elementos observados nesta ocasião, as previsões, as ansiedades, as sortes, dão a impressão de que é nessa época que transcorre a passagem do ano para o rurícola e não por ocasião das festas do Menino Deus e Reis. Parece que o nosso calendário urbano, que se inicia a primeiro de janeiro, está em desacordo com o do rurícola, que mais parece regido pelo ciclo agrícola, e começa no dia de São João. Embora venha logo a plenitude que advém da colheita, a comezaina, o endinheiramento que terão com a venda do produto da terra, dinheiro que lhes dará a possibilidade de participarem das romarias e peregrinações de agosto, ou das festas do Divino, é porém nessa época que lhes vem muitas preocupações. É na vacante que eles mudam de rotina de vida; vão roçar os pastos, plantar eucaliptos, fazer outros trabalhos, até que possam aceirar terrenos e dar início ao amanho da terra, para o novo plantio e as crenças são satisfeitas com o poder de São João. A nova etapa é por ele favorecida, a crença do rurícola precisa como que de muletas que amparem a sua fé – as promessas.

Depois de presenciar o levantamento do mastro, entram para a casa, vão rezar a São João. Finda a reza, saem para divertir-se, pois a fogueira está crepitante e convidativa e o caipira, que sempre anda vestido com parcas peças de roupa, com um "brinzinho", aceita mais que depressa o convite do calor, achega-se para "aquentar o fogo". Batatas-doces, mandiocas, pinhas de pinhão e muitos nós de taquara, para dar salvas, são lançados à fogueira. Quando um nó explode, os que estão ao redor da fogueira dão alegres vivas ao santo.

À meia-noite seguem em procissão até ao rio ou riacho próximo, para lavar o santo. E depois dessa hora realizam-se os "sortilégios" e sortes. Vão rezando e cantando:

Deus ti sarvi Juão
Batista sagradu,
o teu nascimentu
nos tem alegradu.

e muitos solteiros comovidamente cantam:

- Deus ti sarvi Juão
Batista sagradu,
nu ano qui vem
quero está casadu.

O banho que é dado no santo (imagem de São João Batista) no rio é para favorecer tudo que tem relação com a água. Assegura mesmo o controle das chuvas, pois, há necessidade delas para a germinação das sementes que em breve serão lançadas à terra. À beira do rio olham na torrente e, se por acaso, vêem o rosto refletido na superfície das águas, é porque viverão aquele ano. Quando, porém, nada consegue enxergar, senão uma rede de defunto [1], voltam tristes e a festa perde muito, porque a alegria lhes foge; acreditam piamente que aquele companheiro não verá o outro São João. E quantos voltam "jururus"!

Se no decorrer do ano adoecem, deixam de se tratar, porque "estava escrito que ele morreria". Quando tudo corre bem e viram seu rosto refletido na água do ribeirão, voltam joviais e alegres. As brasas são espalhadas no chão, e os devotos, os que tem fé, passam descalços sobre elas. Acreditam que o fogo, depois de meia-noite, já no dia de São João, não queima os pés de quem pisar no brasido. Basta ter fé no santo para atravessar sobre as brasas, sem que haja uma queimadura. E quantos vimos atravessar! O fogo é milagroso. Quem pular a fogueira é abençoado o ano todo. Os que sofrem de reumatismo ou encaragamento das pernas procuram pisar nas brasas da fogueira de São João, para sarar. O resíduo do culto do fogo aí o encontramos quando o rurícola apanha três tições e os guarda, para colocá-los nos cantos da sua roçada, a fim de protegê-la da praga, roedores, inveja e mau-olhado. E é com um tição dessa fogueira que mais tarde o piraquara dá início à queimada do ano agrícola que se avizinha.

As moças, muito mais do que os rapazes, entregam-se a tirar sortes. Sortes sempre relacionadas com o casamento, que deixam transparecer os ritos da fecundação. Plantam três dentes de alho, à meia-noite em ponto, correspondendo cada um ao nome de um seu suposto pretendente, e antes de o sol nascer, vão verificar; o que tiver brotado é com quem vai se casar. (Há também algumas moças que plantam os dentes, três dias antes, para a verificação ser feita à meia-noite do dia de São João. Elas sempre têm três pretendentes. Se os três dentes estiverem murchos, não se casará com nenhum dos que escolheu... Até no alho classificam seus pretendentes: o mais rico será o alho plantado sem descascar; o de meias posses, descascado até o meio, em "mangas de camisa, e o pretendente "pé-rapado", pobrezinho, é representado pelo dente de alho pelado de toda casca...

Outras sortes que as moças gostam de fazer são as do ovo e da agulha. Os rapazes e também, raramente, as moças, fazem-nas com o alecrim.

A do ovo é a seguinte: pouco antes da meia-noite, quebram um ovo num prato novo que está colocado sobre uma toalha nova, usando também o palito de fósforo de uma caixa nova. À meia noite em ponto, acendem o lume do fósforo e a seguir olham. Se tiverem que se casar aparecerá o noivo e se tiverem que morrer, aparecerá uma rede, que significa "defunto". Muitas moças saem tristes, porque em vez de um rosto masculino, vêem uma rede...

A sorte tirada com a agulha é a seguinte: Colocam um prato cheio d’água sobre a mesa, e uma moça apanha uma agulha e a esfrega, por diversas vezes, entre as mãos, balbuciando umas palavras inaudíveis. Depois solta-a sobre a água. Se a agulha afundar, não se casará, mas se flutuar casar-se-á naquele ano.

No meio da caieira de lenha, planta-se um pé de alecrim. Depois colocam fogo e a lenha vai se desmantelando em brasas: se o alecrim conservou-se verde, quem o pôs ali se casará, se murchar, não se casará. Essa é a sorte predileta dos rapazes.

Em a noite de São João realizam a grande vigília, não "pregam as pestanas", não dormem. Amanhecem ao lado da fogueira, comendo batata-doce assada e pinhão cozido, bebericando o roxo [2] ou pinga, comendo bolinhos com café, café com farinha de milho ou mandioca – uma espécie de jacuba, doce de laranja, de abóbora ou de cidra, furundum, talhada, arroz-doce, paçoca de amendoim, pipoca... Na casa vai animada a função; dançam várias danças do fandango: o Dão Celidão, Ubatubana, Tirana, Caranguejo, Rodagem, Marrafa e, no terreiro, o jongo entretém os demais... e os "pontos do jongo" vão se alternando e a anguaia é insistentemente balançada e os tambus, candogueiros, guzungas, sangaviras batem o ritmo monótono e convidativo. Amanhece, e o dia 24 de junho dá-nos a impressão de ser o primeiro dia do ano do calendário do rurícola paulista.

Hoje raramente soltam balões por causa do prejuízo das queimadas. Então os saudosistas se referem ao tempo dantes, quando "seu fulano" fazia balões em formato de almofada, cruz, bola, pião, elefante, girafa, homem, charuto, barrica, estrela, etc. Bom assunto é o recordar, ajuda a manter acordados aqueles que participam da vigília da noite de mudança do ano cósmico.

Das festas restam os mastros. (Já dissemos e repetimos, as arvorezinhas, bom como o madeiro que traz na ponta a bandeira do santo, são chamados indistintamente de "mastros"). Eles não entram no ano novo (do calendário civil), são retirados pouco antes do Natal. (Só os mastros com a bandeira de Santa Cruz, é que permanecem de maio a maio. Mas é outra festa). Não presta deixar passar o ano, por isso arrancam-se as arvorezinhas e desce-se o mastro antes do dia do Menino Deus. Não atravessarão o novo solstício. O mastro será pintado de novo e ficará seis meses encostado ao longo de uma cerca ou mangueirão até a festa do ano vindouro. Quanto às arvorezinhas, serão queimadas no terreiro da casa ou no fogão, guardando-se o tição. Quando queimam no fogão, tomam o devido cuidado para não aproveitarem o fogo com fim utilitário, por ex., cozinhar. "O tição é como se tivesse recebido a bênção do padre" e é guardado religiosamente. Dos três mastros, o toco de tição preferido é o da arvorezinha de São João. E para tal já marcaram a madeira para retirarem esse, que tem maiores poderes do que os outros dois, que são desprezados. Deixam mesmo virar cinza e carvão, depois lançam-nos ao rio.

O tição é um toco carbonizado. Ele tem grande valor; serve para ser queimado nos dias escuros, quando ameaçam tempestades e trovoadas. Na falta de uma vela ou palma benta, queima-se o tição; isso evitará que a tempestade desabe e estrague as plantações, ou que a trovoada faça gorar os ovos. Um pedaço de tição também é guardado para proteger as galinhas contra a peste. "O tição vale por uma oração", afirma Vicente Gomes dos Santos, morador do bairro da Cachoeirinha, em São Luís do Paraitinga, e a sexagenária dona Maria José Arruda (Comadre Zeca) confirmou. O tição é guardado no oratório, ao lado da palma benta, recebida na igreja, no Domingo de Ramos. Tição e palma benta desempenham a mesma função. Para fazer cessar a chuva, disse-nos o senhor Vicente, "é muito fácil; basta colocar o tição no fogo, abrir um pouco a porta e olhando para a chuva, rezar a oração de Santa Bárbara. A chuva vai embora e a tempestade amaina".

Se porventura o tição não desempenhar durante o ano as funções controladoras da natureza, porque as palmas e velas bentas foram mais usadas, este foi poupado, ao chegar no São João imediato, irá para a fogueira, pois no ano entrante não terá as mesmas prerrogativas daquele ano que foi plantado no ano em curso. O seu poder mágico nunca vai além de um São João a outro. É este mais um elemento no qual nos baseamos para asseverar que o ano do rurícola parece iniciar-se no dia de São João, e não a 1º de janeiro.

A árvore cultuada, ora conduzida como mastro, enfeitada com flores, frutos e fita, e quando tem a felicidade de se tornar uma arvorezinha-mastro de São João Batista, os restos dela têm, pois, poderes mágicos, sendo elemento que serve para controlar as forças da natureza.

Notas:

1. Hoje é raro ver-se uma rede de defunto no estado de São Paulo. Só nos mais remotos rincões é que é usada para levar o defunto para o sepultamento no "sagrado" cemitério. O Serviço Sanitário não permite a entrada de redes de defunto na cidade. Porém, nessa noite de sortilégio procuram ver a rede e não um caixão de defunto.

2. Roxo: mistura de café com cachaça.

(ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional)

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