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INFORMAÇÃO DE ANTROPOLOGIA DO JANGADEIRO

Vivendo nas praias, o jangadeiro, como o pescador em geral, condicionou a existência ao ambiente. Areia não dava legumes, as hortaliças indispensáveis, os "verdes" que perfumam a comida, tão falados nas comédias de Gil Vicente. Detrás da casa a mão da mulher ergueu em caixotes, com terra negra e fecunda, sua horta reduzida ao essencial. O predileto coentro, enfeitador da farófia, do pirão escaldado, pintando de verde o cozido, é o primeiro e as vezes o único. Raras vezes uma cebolinha. Seguem-se as plantas medicamentosas, alecrim, mastruço, hortelã-de-cheiro, erva-cidreira. Jamais admite a possibilidade de uma salada de alfaces, couves cozidas, maxixe, quiabo, etc. Nem mesmo aparecem nos pratos do cardápio comum. O trivial é o peixe cozido com pirão, decorado pelo raro coentro. A propaganda do pimentão, do tomate onipotente, esbarraram com uma obstinação serena de recusa.

O mesmo com as frutas. Outrora dizia-se "por fruta" como sinônimo de raridade, de aparecimento fortuito. Bebe vinho por fruta... vou à cidade por fruta. Ainda dizem o mesmo no sertão. Nuno Marques Pereira, no Compêndio Narrativo do Peregrino da América registra o uso em 1728. As frutas preferidas são as locais contemporâneas de 1500. Nunca deram reclame e são refratárias aos paladares de requinte. Araçá, ubaia, guagiru, camboim, mangabas, oitis, enfim frutas do mato que as mulheres vão apanhar nos tabuleiros arenosos enquanto o marido pesca. A rainha das frutas, rei na espécie, é o caju. "Apanhar caju" de dezembro a março é ocupação feminina e menineira. E mesmo fundo de rala economia privada e supletiva porque tirante a parte doméstica, vendem a restante. Caju rasgado do dente, mastigado com vagar, engolido o bagaço, serve, na mania da tradição, como remédio purificador do sangue além de gulodice indiscutível. A castanha, assada, é um deleite supremo para todos. Para os meninos há a farinha de castanha, batida a pilão, com açúcar moreno, valendo delícias. Sobremesa velha é o taco de rapadura, roído lentamente, para durar, e melhor sabor emprestar à caneca de flandres com água da cacimba. O menu antigo quase dispensava a carne servida uma vez por semana. Desconfiança da carne do porco, mesmo o cevado em casa. Criavam-no, roncante e solto, aproveitando as bagunças da praia, para vender. Carne de porco é reimosa. O elogio do doutor Gregório Maranõn não lhes chegou ainda.

Para beber, cachaça, com sinomínia que daria outro estudo ao José Calasans. Cachaça para o calor e frio, com limão para resfriado, com goma para rouquidão, com casca de laranja para dor de goelas. Raro vinho, saudoso da marca Rocha Leão e dos salvados das barcas estrangeiras que abicavam às riscas, urcas e parraxos, ficando lá para sempre, espalhando a cargo por todo o litoral.

O cajueiro é árvore clássica e querida. A sombra fresca e úmida agrada a todos. Quase sempre erguiam o casebre perto de um cajueiro que ia servir de nursery para a meninada engatinhante, asilo aos porcos e, pela noite defecatória cômodo. O cajueiro lhes dava a resina, outro remédio para a terapêutica laringológica, e servia, quando copado e alto, de divisa, assinalando porto. Era o primeiro exercício de agilidade para os curumins, talqualmente sucedeu a Humberto de Campos com o seu cajueiro em Parnaíba.

Doces, doces praieiros, não os conheço realmente. O preço do açúcar, mesmo quando era possível, afastava-os do uso abusivo. Doce de caju, inteiro ou rasgado, é doce de cidade. Doce de praia são os seculares, vindos de Portugal ou transformados no Brasil pela presença da farta especiaria, doce seco, pé-de-moleque, farinha de milho (com rapadura). A goiaba, que não dá nas praias, tem seus devotos comedores que a chamam, fiéis à prosódia tupi, guaiaba.

Com sete anos e menos todos nadam excelentemente e ajudam no encalhe da jangada paterna, de graça, ou da alheia, recebendo peixinhos de gorjeta. Pescam caranguejos e morés pelas locas dos rochedos e todos possuem, possuíam um barco feito de coqueiros, navegando, seguro pela mão do proprietário, n'água serena dos remansos. Com dez anos pisam os rolos das jangada, aprendendo a sofrer.

Renan afirmava que la vraie marque d’une vocation est l’impossibilité d’y forfaire, c’eat-à-dire de réussir à autre chose que ce pour quoi l’on a été crée. O mar imprime sua posse n'alma do pescador, para sempre. É o grupo humano que menos imigra para outra profissão. Mais de oitenta por cento dos sertanejos e agresteiros que serviam no exército ficam nas cidades, desajustados permanentemente para o trabalho da terra e amanho do gado. Talvez setenta por cento dos ex-reservistas da Marinha, rapazes que eram pescadores e filhos de pescadores, terminado "o tempo", regressam aos botes e às jangada. Voltam às praias, contando as maravilhas vistas mas sem que lhes constitua elemento de apelo irresistível.

Não sei se a modalidade do vaqueiro é uma predisposição para seu afastamento da terra, quando moço. Depois de velho, sabemos todos, é um bretão que tem o petit pays na sensibilidade e deixa melhores rendimentos, conquistados na emigração das secas, sabendo que "está chovendo no sertão". Mas os moços não tiveram tempo de receber da terra a contaminação fixadora e sedentária.

Para os pescadores parece que o culto instintivo é a deusa Demiduca, aquela que ensinava o retorno ao lar.

A percentagem dos moços praieiros que se fixam nas cidade é mantida em funções ligadas ao mar e suas lutas. Ficam carregadores dos portos, trabalhando nas docas, funcionários das Obras do Porto, da praticagem, junto ao rio que é um filhote mantido pelo mar.

Esta vocação terá ainda, nos fundamentos possivelmente biológicos do instinto, uma clara síntese no velho dom Álvaro de Figueroa y Torres, conde de Romanones: - La verdadera vocación de uno es obra de todos seus antepasados. Se recibe por herencia y se tiene o no por nacimento. Es innata. Las circunstancias no la crean. Se limitan a promover su despertar. Como la semilla contiene el árbol aunque no siempre germine.

Todos os pescadores são filhos de pescadores. Naturalmente todos os filhos de pescadores não seguiram a profissão paterna. São muitos e ficam noutras tarefa mas, sempre que possível, lembrando o serviço do mar ou perto dele, numa sedução enamorada e permanente.

Casam cedo ou arranjam mulher muito novos. Quem casa, quer casa, bem longe da casa em que casa, dizem. Fazem seu rancho. Casa de pescador, rancho de palha, era, até pouco axioma. Vão melhorando. Os mais velhos possuíam o orgulho do casinhoto de taipa. Na maioria dos casos morriam velhos e pobres, em casa alugada, passando fome, ciosos de nome e jamais mendigando. A solidariedade é que lhes valia como sindicato eficaz. Recebiam o peixe, a cuia de farinha, um "agrado" pela "festa", o Natal sagrado.

A mulher não ajuda na faina do mar, puxando cabos, carregando peixes para os mercados, como nas praias de Espanha e Portugal. Ficam em casa.

Na latada fica o homem
A mulher na camarinha;
No chiqueiro fica o porco
e pela rua a galinha...

Por muito favor, algumas comparecem à hora do encalhe para receber o peixe da ceia da mão do marido. E depressa para casa, cozinhar o escaldado. Na rua fica a galinha...

A criação promíscua, a nudez dos pequenos, menos as meninas que usam a tanguinha, cobrindo o sexo embora de busto despido até seis anos ou mais (até formar o peito, como dizem eles), a facilidade das conversas sem cuidado para os ouvidos infantis, as relações comuns, fazem avançar depressa os conhecimentos do mundo sexual. Por isso "caçam logo mulher" porque a prostituição é menor nas praias que noutros povoados do interior. Rapazes de 18 anos já estão com casa e companheira, vivendo do mar, bebendo cachaça, dizendo prosa na bodega que é o clube da conversação nas horas de folga. As meninas ficam mulher muito cedo. Alguma casam ou "se amigam" aos trezes anos. Aos quinzes, andam grávidas e levando um filhinho escanchado ao quadril. Muitas, antes dos trinta anos, são avós. Avó direita, se o filho ou a filha casaram no altar. "Avó torta", se o conúbio é na igreja do mato.

Já hoje o médico é mais fácil ou menos difícil embora os remédios sejam, mais das vezes, impossíveis, pelo preço sideral. Recorrem à farmacopéia tradicional ou a algum macumbeiro ou doutro de raiz, vendedor de garrafas que servem para tudo, especialmente para abreviar saúde e vida.

O mar, a solidão, o silêncio, conservam-lhes esmalte e tom de gravidade natural nos modos. Ninguém é mais majestoso, imponente, senhor de si, que um velho jangadeiro, pobre, doente, triste. O tratamento comum é de "mestre", recebido com naturalidade de uma devida oferenda de anos de exercício duro nos pesqueiros longínquos. Guardam, forte e sensível, o sentimento pessoal de orgulho tranqüilo da profissão audaz, arriscada e valente, brincando com a morte. Todos amam recordar façanhas, falando discreta mas fluentemente dos sucessos passados. Aceitam, quando robustos, as competições sem prêmio financeiro apenas pela demonstração do arrojo e da resistência. Corridas de jangadas, aposta de nado, buscas de pesqueiros novos, são lembranças amáveis e repetidas.

Creio que, para formação ou exercício do caráter, haverá pouco de sexualidade e muito mais da natural aspiração do poderio moral sobre o grupo amigo, poderio ou posição destacada para ser consultado, ouvido, citado. Vai aí melhor a observação de Adler do que a de Freud.

São pouco subservientes, submissos, servis. Amam desesperadamente a distinção da pessoa de maior expressão social. Ficam sempre na expectativa de lembrar ao homem rico, influente, poderoso, célebre, que o visita ou em cuja companhia está, a possibilidade de ser, por sua vez, devedor de um obséquio, ficar na dependência afetuosa dele, pescador pobre.

Alguns mantiveram o orgulho de pescar sozinhos, como Felipe Rogério de Santana, o rei dos pescadores do Rio do Fogo e que jamais, fosse qual fosse o tempo, encalhou sua jangada noutro porto que não fosse o de sua praia. Filadelfo Tomás Marinho, mestre Filó, comandou três barcos de pesca que foram, em 1922 de Natal ao Rio de Janeiro. Catulo da Paixão Cearense dedicou um longo poema a Mestre Filó, cognominando-o Almirante. Conversar com mestre Filó era ouvir a história de sessenta anos de mar e luta. Mestre Silvestre, outro herói, sabia o segredo das "pedras marcadas". Pescava o peixe que queria, segundo a encomenda. Ninguém descobriu o mistério de suas viagens no "fundo de fora", indo buscar garoupas, bicudas e arabaianas como a um curral doméstico. Morreu no mar. Fora o maior pescador do seu tempo, Mestre Silvestre afamado.

Neste mundo de pescadores os nomes vivem ainda como homenagens votivas. Não esquecem os mestres famosos, Silvestre, Felipe Rogério, João Pau d’Arco, do Rio do Fogo, João Proxate, de Genipabu, Gonçalo de Morais Leite, de Jacumã, Francisco Pinheiro, de Carnaúba, Francisco Cândido, do Zumbi, Silvestre, Honório, Manuel Claudino, do Canto do Mangue, em Natal; Mestre Filó, também de Natal, Francisco Bianor, Manuel Talía, João Cangolinho, Miguel Cardoso, Alexandre Pepa, de Ponta Negra. E os de Pirangi, Pipa, Baía Formosa?... São os "antigos", aqueles que abriram caminho no mar.

A dignidade antiga trazia-lhes formalismos curiosos. Pediam a meu pai os "Reis", o "São João", as "Festas", com naturalidade, mas se magoavam recebendo retribuição em moeda quando ofereciam um presente, peixe grande e gordo ou rendas, rendas da praia, trabalho das esposas e filhas. "De noutra feita, comprade", advertiam.

Uma vez, em Ponta Negra, ouvia eu um grupo de pescadores. Pagara bebidas e distribuíra charutos. Numa das "rodadas", um jangadeiro velho, sisudo, estendeu-me um dos seus charutinhos escuros e amassados, incisivos – "Fume agora um dos meus"... Era a compensação que satisfaria seu orgulho diminuído pelas repetidas ofertas do citadino.

O tempo modifica muito retrato fiel. Atualmente, o pescador alfabetiza-se e muitas de suas virtudes não desaparecem mas a cidade, a época, o uso, determinaram-lhes adaptação sob pena de morte. Mas um exame mais próximo e lento dará a existência, sob a camada silenciosa de sua sisudez, da existência em potencial desses valores que se ocultaram pela falta do clima moral propício à floração.

Crêem na palavra e nos contratos verbais. "Trato é trato", desabafam, furiosos, quando enganados na venda por preço abaixo do combinado. São, decorrentemente, pouco hábeis para negociar, escambar, permutar, conquistar mercado. Horror à dívida. "Um homem devendo é meio homem"... As mulheres não confiam aos maridos a missão de vender, "oferecer", esclarecem, na cidades as rendas. Não sabem insistir nem defender o produto. Na primeira recusa abandonam a porta. "Quer comprar renda da praia?" "Não". Vão embora. As mulheres sabem teimar e oferecer. "Moça", dizem as velhas donas de casa, "não quer ver umas obras de renda? Muito bonitinhas, para qualquer coisa e baratas, como dadas...

Os escritores do mar já disseram que o marinheiro pode permutar mas não sabe dar o valor real ao que pretende vender. Dá valor de mais ou de menos, numa estimativa sentimental, dentro de uma afeição eminentemente individual.

As rendas da praia são características indústria manual das mulheres e filhas dos pescadores. Continuam nas praias do Brasil as tradições rendeiras das pescadoras de Portugal, sob modelos velhos vindos de França e de Flandres, desde o século XVI. Estão decadentes quanto à delicadeza e raridade dos desenhos. Industrializaram-se, e as velhas rendeiras não mais tem o tempo, tempo psicológico, para bater bilros meses e meses, para uma só peça de rendas, Rosa do Mar, Bico de Seda, Covilhã (Cuviã, pronunciavam), ciumentamente escondidas nos papelões, jamais exibidos para não serem copiados e divulgados. Certas rendeiras possuíam segredos, privilégios, monopólios que a morte fez perder para sempre.

Hoje, há comerciantes que recolhem as rendas de todas as praias, ou sua maioria e revendem. As rendas foram feitas apressadamente, sem interesse e acima de tudo, sem aquele espírito paciente e amoroso, encantado da própria criação, mistério animador do artesanato.

Devo falar da superstição jangadeira. São menos supersticiosos que os homens da cidade. Menos que o morador de Nova Iorque ou do Rio de Janeiro. Parece paradoxo, mas é verdade singela.

As jangadas têm nome de santos ou referências ao metier, Estrela do Mar, Toninha, Bom Tempo, Boa Viagem. Os botes, canoas, barcas e barcaças é que são batizados. Não há na jangada estrelas de cinco ou seis pontas, cruzes, mascotes, como nos transatlânticos e iates de luxo. Nem figas ou registos de santos padroeiros. Não usam prego porque estraga a madeira e mesmo jangada que tem prego, vira na certa. Não pescam na primeira segunda-feira de agosto, Sexta-feira da Paixão, dia de São Pedro, pescador e patrono dos pescadores, dia da festa de Bom Jesus dos Navegantes e Finados, dia de Santa Luzia, a santa das doces claridades visuais. Os olhos são jóias sem preço para o pescador e à Santa Luzia deve-se a honra do dia sagrado. Não há quase mais nada. Nem exigência de entrar com o pé direito nem a crença de santos que dêem pescado abundante em qualquer tempo do mar, inverno ou estio.

Há, this is another story, as coisas dos mar, vistas no mar e que, por coincidência, estão em muito livro velho e de língua estrangeira que o jangadeiro nunca ouviu falar.

Mestre Filó foi pescar numa noite do dia de Finados entre a pedra da Criminosa e a pedra do Cirigado e viu uma procissão de afogados. Não é mentira porque Frederico Mistral também contou o mesmo no Mireio. No Paricé, noite, ouviu a sereia cantar. Rezou as "forças do credo" e a sereia calou-se. Mestre Claudino, pescando de noite, viu o mar iluminar-se todo, luz azulada e maravilhosa e uma música subir do fundo do abismo. Depois de tudo se aquietou na escuridão tropical.

Muitos viram o Navio Fantasma. Sempre navio de velas, iluminado de noite e embandeirado de dia. Com músicas e sem se divisar viva alma. Antônio Patrício viu-o duas vezes no cabo de São Roque. Mestre Filó e Francisco Camarão, em Ponta Negra, cada qual na sua jangada, lutaram mais de uma hora contra um navio que parecia querer parti-los de meio a meio. E desapareceu como fumaça. Manuel Reinaldo, de Muriú, pescava em Pititinga quando um navio de vela, imenso, veio vindo e passou por cima de sua embarcação. Sentiu apenas um "bafo quente". Assombração. Antônio Alves procurou emparelhar-se com uma jangada, ele com vento a favor e bruscamente a embarcação sumiu.

Todos insistem em recordar as músicas ouvidas no mar alto, instrumentos de corda, muito tempo, obrigando-os a deixar de pescar para não perder a melodia rara e linda.

A memória é espantosa para os episódios e nunca para as datas. Contaram-me que uma jangada, há tempos, deparara um bote de naufrágos de um navio que se espedaçara no atol da Rocas. O jangadeiro matara-lhe a sede com seu barril de aguada e os guiara para Macau.

O fato é real e Osmar de Almeida de Azeredo Rodrigues registrou. A barca inglesa Countess of Zetland realmente naufragara nas Rocas em 27 de agosto de 1855 e a 4 de setembro, a única barca sobrevivente, encontrara a jangada salvadora nas alturas de Macau. O "há tempos" durara 100 anos.

Nas narrativas subentende-se que o ouvinte conheça navios e companhias. "Quando o Grão Pará encalhou em Genipabu..." foi a 9 de março de 1910, atinei rebuscando jornais. Houve fato ainda lembrado. Um antigo jangadeiro, então mergulhador, mergulhador sem escafandro, João Prático, João Lourenço Ferreira, tirou de dentro do porão do navio submergido 14.000 dos 20.000 dormentes que iam para a estrada de ferro Madeira-Mamoré. Quando acabou, o sangue descia das narinas, mas ficou falado.

Preferem armas brancas ao revólver. Murro a capoeira, à queda de corpo. Não são briguentos. A vida cruel enrija-lhe o espírito. O pescador dá a menor porcentagem de suicidas.

O solidarismo da luta do mar fá-lo considerar como amigo todos aqueles encontrados em cima das ondas, longe de terra. Quando a ilha de Fernando de Noronha era presídio os sentenciados conseguiam fugir, construindo jangadas com a madeira dos mulungus existentes na ilha. Era drama terrível a escapada e ainda maior a travessia para as praias de Macau ou Touros. Jangada sem tripulantes. Jangada apenas com cadávares de mortos de fome. Jangadas com um único sobrevivente, louco. Eram os encontros dos jangadeiros. Nunca denunciavam. Davam o alimento, a roupa e ensinavam o caminho para o interior, salvando aqueles que chegavam vivos. Só não ajudavam com liberalidade aos ladrões porque todo pescador é inimigo frontal da gatunagem. "Peça mas não tire..." O sentimento de propriedade no pescador é vivo e fundo. Não impede sua bondade generosa. "Dou o que é meu..."

Nenhum deseja morrer no mar embora a canção bonita do Dorival Caymmi diga que é doce morrer por lá.

A explicação é religiosa e se prende ao culto do corpo. Morto no mar, não se encontrando o cadáver, crê o jangadeiro na vida eterna e pavorosa da alma errante, sem as honras da sepultura, lugar de oração e sufrágio. Gregos, romanos, egípcios, toda antigüidade clássica, possuía o mesmo sentimento. Assim os bretões tem em suas igrejas e capela um cenotáfio, a pedra votiva com a inscrição: "desaparecido no mar." Ali recebem as homenagens indispensáveis ao repouso santo.

Simples, pobres, teimosos, não julgam humilde e sem louvor a profissão áspera e máscula. Não olham apavorados para transatlânticos nem os crêem superiores porque possuem máquinas. Na jangada, o braço humano valoriza a tarefa, realizada com a tenacidade diária e entusiástica.

Uma anedota contada com prazer nas praias de todo o nordeste, foi também divulgada na claridade de sempre pela graça de Rachel de Queiroz.

"Vinha um navio inglês em mar alto, quando de bordo se avistou um jangada. Pensaram naturalmente que eram náufragos, agarrados à aquela balsa rude.

Pararam, atiraram uma linha, gritaram coisas em inglês.

Os jangadeiros apanharam a corda sem entender.

– Que será que eles querem, compadre?

Até que o mestre da jangada pensou e sorriu, interpretou:

- Acho que eles estão querendo é reboque..."

Não devemos olhar sem admiração carinhosa os nossos jangadeiros, vivendo o milênio na contemporaneidade do esforço, transportando para a plano do heróico cotidiano a profissão e linda.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Jangadeiros)

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