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O JANGADEIRO

Quando, a caminho do Rio de Janeiro, por mar, nos aproximávamos do porto principal de Pernambuco, o Recife, começamos a ver uma estranha embarcação que cavalga com destemor o dorso das ondas verdes – esses verdes mares bravios, do poeta -, desse mar povoado de temíveis tubarões.

São as jangadas do nordeste, são os jangadeiros valentes, dominadores das vagas
alterosas, que desafiam os perigos e o deserto assombrador das águas intranqüilas.

"Verdadeiros dragões do mar, pescadores que afrontam o mar do nordeste, e vão tão longe que os grandes transatlânticos, não raro, os encontram, baloiçantes em sua rota".

Lindalvo Bezerra dos Santos, entre a infinidade de escritores e poetas consagrados que se têm ocupado dessa figura legendária, escreveu sobre o jangadeiro uma bela página que se encontra no livro Tipos e aspectos do Brasil, e de que destaco este trecho:

"Vive esta gente unicamente do produto da pesca: seus hábitos e costumes estão mais ligados ao mar do que ao continente. A aventura diária demora, em regra, do amanhecer à tardinha, quando na praia mesma vendem o peixe que trouxeram. Outras vezes a duração é maior; prolonga-se por dias; os homens chegam esgotados, mas o samburá vem provido. A família não é pequena e se reúne à partida e à chegada do chefe. O jangadeiro forma um escasso agrupamento litorâneo, típico das praias do norte, desde à Bahia até o Ceará.

Habitam sóbrias e rústicas choupanas ou casinholas de taipa perdidas nos coqueirais. O teto é geralmente de palmas de coqueiro. Outras há totalmente feitas de palha. Também se encontram algumas com paredes de palha e cobertura de telhas
".

E, destarte, nos descreve a jangada:

"A jangada assemelha-se em alguns pontos à totora, canoa encontradiça no lago Titicaca, nos altiplanos bolivianos. Constroem-na – a jangada – com cinco troncos de piúva (ipê) ou de jangadeira apeíba (Tibourbou, AUBL.), conhecida também por pau-de-janga. Este conjunto, chamado lastro, cujas dimensões mais comuns são sete metros de comprimento por dois de largura, quando formado por cinco elementos representa a construção clássica, havendo, no entanto, também com seis. Estas cinco peças são ligadas entre si por outras, da mesma madeira e bem delgadas, que atravessam o lastro de lado a lado, variando o seu número. Mais para a proa é fincado o mastro que, após atravessar o banco de vela, repousa na carlinga, uma tábua com furos para colocar-se o mesmo à feição. Cosida numa corda, e por ela presa ao mastro, fica a vela, feita com várias faixas de algodãozinho, de forma triangular isósceles, cuja base se prende àquele. Para abrir a vela e mantê-la nesta posição há um pau de nome retranca ou tranca, conforme a região, e que se apóia no mastro mediante uma forquilha. Entre os numerosos apetrechos duma jangada, destacam-se: o samburá, cesto de boca apertada e feito de cipó ou taquara, destinado a guardar o peixe; o banco de governo, simples tábua sustentada por quatro paus; a quimanga, vasilha na qual levam o alimento (farinha, banana, rapadura, peixe assado) havendo uma para o sal; para a água usam um barrilote; o remo de governo em forma de grande pá, utilizado como leme e dois outros pequenos para propulsão; a bolina, prancha de madeira fincada no centro da jangada, próximo ao mastro, e que mergulha no mar, à guisa de quilha; o tauaçu, interessantíssima âncora, constante duma pedra furada e pequenos paus a ela amarrados servindo de dentes.

O preparo da vela diz-se limar: o pano é submetido a um tratamento de sangue de peixe, ou limo de pau, e água salgada, seguido da exposição ao sereno, o que lhe confere maior durabilidade. No ângulo superior da vela vai a inscrição da colônia a que pertence o jangadeiro e o nome da embarcação.

Em geral, a tripulação compõe-se de três homens, vestidos com roupas simples, mas apropriadas para resistir à água salgada: tecido de algodãozinho tornado mais resistente por um tratamento com mangue e casca de murici; na cabeça, um chapéu de palha e por cima deste, às vezes, um oleado."

Nomes de algumas jangadas:

Ligeira, Vaidosa, Carinhosa e Veloz…

Ao referir-se ao complexo da vela, diz o autor citado: "parece ser contribuição do europeu e, assim, o jangadeiro teria herdado de seus avós um e outro elemento: do seu antepassado português ganharia o conhecimento da vela e o destemor pelo mar; da sua avó índia traria a jangada".


Juvenal Galeno, figura de relevo nas letras cearenses e que tanto e com tão grande entusiasmo se dedicou ao folclore da região, dá-nos nas Lendas e figuras populares uma descrição rudimentar da jangada, que ao eminente etnógrafo brasileiros Joaquim Ribeiro parece ser a mais antiga.

Gustavo Barroso, de quem é preciso conhecer a obra admirável, principalmente as páginas soberbas de Terra de sol e de Ao som da viola, para bem se sentir o nordeste e a alma da sua gente, aqui em plena concordância com o conceito de Victor Hugo – "A alma da terra passa para o homem" – e outros folcloristas mais têm-se ocupado com largueza de pormenores e riqueza de colorido dessa região, onde há tanto que estudar e aprender.

Quanto à jangada, de que Joaquim Ribeiro, nas Fontes do folclore brasileiro, se ocupa com o seu proverbial saber, já Pero Vaz de Caminha se lhe refere quando informa o rei de Portugal, na sua linguagem pitoresca e rigorosa de observador: e alguns deles meteram em "almadias" duas ou três que hy tinham as quaaes nom sam feitas como as que eu já vy, somente "sam tres traves atadas juntas", e aly se metiam…, etc".


(BETTENCOURT, Gastão de. Flagrantes do folclore no Brasil)

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