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TRÊS HISTÓRIAS DE SÃO PEDRO

• O preço do sonho

uando Nosso Senhor andava no mundo chegou por uma noite na casa de um sertanejo pobre mas bom. O homem agasalhou os "pelingrinos" muito bem. Mas só tinha para cear um pedaço de queijo. Nosso Senhor combinou que o queijo seria de quem tivesse o sonho mais bonito.

Lá para as tantas, São Pedro levantou-se e comeu-o. Pela manhã Nosso Senhor disse ter sonhado com o Céu, os anjos cantando e os santos rezando. São João tinha sonhado com o Inferno e disse como era aquele canto cheio de fogo e miséria.

– E você, Pedro?

- Eu, - disse o apóstolo – a bem da verdade não sonhei. Vi o Mestre no Céu e João no Inferno e pensei que não precisavam de mais nada deste mundo. Fui-me ao queijo e passei-o no dente!

(CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil)

• São Pedro e o diabo

ão Pedro morava perto da casa do diabo. Quando chegou o tempo da colheita de batatas doces na chácara de São Pedro, este chamou o diabo e perguntou-lhe:

- Quer você ajudar-me a colher as batatas? Eu lhe darei metade da produção.

O diabo achou que era bom negócio e respondeu logo:

- Está certo. Vamos até lá.

Ao chegarem ao terreno onde estavam plantadas as batatas doces, São Pedro perguntou ao diabo:

- Agora, você escolha: quer ficar com a metade de cima ou com a metade de baixo da terra?

O diabo respondeu:

- Ora essa! Quero ficar com a metade de cima da terra!

São Pedro mostrou-se de acordo:

- Está bem; pode colher sua parte que, logo, virei colher a minha!

E lá foi. Depois que o diabo cortou todas as ramas de batata doce e as levou para sua casa, São Pedro voltou ao terreno e arrancou as batatas, levando-as consigo. Satisfeito, deu um grande almoço e até convidou o diabo para comer à sua mesa. O diabo, que não pode comer as ramas colhidas, ficou com muita inveja do santo, prometendo a si mesmo que se vingaria.

Passados alguns dias, São Pedro encontrou-se novamente com o diabo e perguntou-lhe se queria ajudá-lo a colher repolhos de sua horta. O diabo aceitou imediatamente, mas foi logo dizendo que dessa vez seria ele a ficar com a parte de baixo da terra. O santo concordou, ajuntando que, diante disso, iria colher sua parte e deixaria a do diabo no terreno.

São Pedro foi e colheu todas as bonitas cabeças de repolho, deixando para o diabo somente as raízes que sobraram.

O diabo, logrado outra vez, sentiu redobrada vontade de vingar-se do santo e aceitava todos os convites que este lhe fazia para colher os produtos de sua chácara, mas nunca acertava na escolha: quando a planta dava em cima da terra, ele preferia a parte de baixo; quando dava em baixo, ele preferia a parte de cima. Foi assim que fizeram as colheitas de aipim, de alface, de amendoim, de tomates e de uma porção de coisas.

Até hoje o diabo está pelejando para ver se engana São Pedro, mas não consegue.

Dizem que com o diabo ninguém pode, mas dessa vez ele foi logrado por São Pedro.

(Informante: Angélica Loes, professora rural municipal, de Santa Teresa, Espírito Santo)

• Como São Pedro aprendeu a pescar

m dia estava São Pedro na praia com outros pescadores e lastimava-se da falta de peixes, quando deles se aproximou um desconhecido, que era Jesus, e disse:

- Vocês não pescam coisa alguma porque redam errado, espantando o peixe. Não é da terra para o mar que se deita a rede, e sim do mar para a terra.

Ouvindo tais palavras, Pedro e os companheiros fizeram como o desconhecido lhes havia ensinado: redaram do mar para a praia e fizeram abundante pescaria.

Depois de recolherem a rede, Pedro perguntou aos outros pescadores:

- Que devemos dar a esse homem que nos ensinou a pescar?

Jesus falou-lhes:

- Dos peixes que vocês pescaram eu peço a décima parte, o dízimo.

Foi assim que se aprendeu a pescar com rede de arrasto, e a dividir o pescado entre os pescadores. Só mais tarde é que o dízimo foi substituído pelo quinto, isto é, a quinta parte da pescaria para cada pescador, como se faz na praia de Manguinhos.

Tendo Jesus pedido o dízimo, Pedro começou a separar o produto do lanço, mas só lhe destinava os peixinhos miúdos; os maiores eram para ele e os companheiros. Na manhosa partilha, separada a porção que cabia ao Senhor, este fez juntar lenha seca e ateou fogo, queimando a miuçalha que lhe coubera. Tudo se transformou em fumaça e subiu para o céu.

No fim, Jesus, olhando Pedro, repetiu o brocado:

- Nobre lavrador, vil pescador!

Por isso muita gente acredita ainda que todo pescador é matreiro.

(Colhida por Guilherme Santos Neves. Informante: Antônio Lúcio, pescador da praia de Manguinhos, Espírito Santo)

(APOCALYPSE, Mary. Histórias e lendas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro)

 

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