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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
MEDICINA FOLCLÓRICA NO PIAUÍ |
O problema da saúde pública no Piauí apresenta aspectos comuns de âmbito nacional. A
diversos fatores ainda não superados, junta-se o peso de heranças supersticiosas e
fetichistas e as demais contigências que determinaram a difusão de uma medicina
folclórica existente até hoje.
Nossos remédios populares provêm, como de regra geral, de fontes vegetais, animais,
minerais e místicas. As três primeiras são empregadas domesticamente, às vezes sob a
orientação de raizeiros. São usos enraizados que passam de geração em geração. Os
provenientes de fonte mística são aqueles manipulados e empregados por curandeiros e
rezadores. Consistem numa terapêutica mágica e por demais sugestionante. Uns e outros
requerem, quase sempre, verdadeiros cerimoniais ou normas que devem ser observados, desde
a colheita e preparação do material até à maneira como devem ser usados.
Os medicamentos provenientes do reino vegetal consistem no emprego de chás, infusões,
pomadas, pós, óleos, emplastros, torrado (rapé) e garrafadas, feitos de raízes,
folhas, flores, frutos e vagens, sementes e cascas de árvores e demais plantas.
Exemplifiquemos:
Para curar asma, nosso povo usa o chá da andiroba, da folha do mamoeiro-macho, óleo de
pequi, rapé de semente de paulista, canela-de-cunhã e imburana-de-cheiro.
Para gripe, nada como um lambedor da semente do pau-ferro ou da folha de malva-do-reino,
do eucalipto, chá de marmeleiro, óleo de pequi ou de bacuri com mel de abelha.
Para febre com catarrão amalianado e tosse, toma-se uma bage de coronha e quebra-se na
mão. Pisa-se uma metade e bota-se um pouco de água morna até corar. Depois, coa-se num
pano bem limpo e toma-se uma colher das grandes três vezes ao dia.
Para doença de mulher ou desmantelo de senhora, chá de entrecasca de aroeira (para
normalizar as regras), de imbiriba ou de batata-da-ciência, chá da janaguba, da folha da
carrapateira ou da raiz de jericó.
Para depurar o sangue, muito bom é o chá da raiz de carnaubeira, garrafada de fedegoso,
chá de goma de batata de purga ou do miolo do mandacaru. O vinho de caju é também, um
excelente depurador de sangue.
Nos casos de verminose, deve-se mastigar semente de jerimum ou de mamão, de manhã, em
jejum. Uma mistria (mistura) de óleo de mamona, semente de gergelim e um pouco de
barro.
Além dos remédios, às vezes tão estranhos, deve-se seguir uma série de normas, a fim
de o remédio surtir efeito.
Entre os medicamentos provenientes do reino animal, podemos destacar:
Chá de pinto (pila-se o pinto vivo no pilão), de cavalo-marinho torrado ou de fígado de
urubu servem para asmas.
As dores de mulher são curadas com chá de casco de peba, de cágado ou de camurupim
torrados.
Couro de jacaré torrado e banha são indicados para reumatismo, bem como o couro do
guaxinim. Este último se usa "embolsado", isto é, tira-se um pedacinho do
couro, enrola-se num pano e leva-se sempre no bolso da camisa.
O "ramo" nas tripas (intoxicação e dores, etc.) é curado com mistria
de casco de jacaré, pimenta malagueta e pena de ema.
Lambedor de formiga, sangue de raposa ou sangue de boi, banha de cascavel e carne insossa
de raposa servem para curar tuberculose.
Para sarampo dos "brabos", toma-se caldo de lagartixa.
E para aliviar cólicas intestinais não tem nada melhor que chá de barata.
O emprego dos excretos (fezes e urina) é ainda difundido entre o povo do interior. Esta
aberração terapêutica foi recebida dos antepassados, sobretudo dos portugueses e
negros. A urina é muito usada na cura das frieiras e coceiras. Para prisão de ventre
toma-se o chá do cabelo e da palha da espiga de milho com esterco de galinha. O rapé
feito do chocalho da cascavel e de fezes de papagaio é um santo remédio para asma e para
as hemorragias nada como esterco de cavalo ou jegue.
Outros elementos como cabelos, ossos, penas, raspa de chifre e de unha oferecem
matéria-prima para uma infinidade de medicamentos. É claro que a maioria deles é
revestida de caráter cabalístico, supersticioso. A ingestão de remédios repulsivos
exige sacrifícios do doente, e é justamente pela sugestão que o doente às vezes fica
curado. Na concepção do povo muitas doenças são causadas pelo espírito maligno, pelo
mau-olhado, por coisa "botada" ou feitiço. Então, para estes tipos de doença,
só muita reza forte, encenações rituais, etc.
Apesar de todo o progresso já chegado até ao mais recôndito sertão, verifica-se que a
medicina popular continua tendo larga aceitação coletiva. Há sempre um curandeiro
fazendo "milagre", e nos mercados e feiras os raizeiros cumprem uma missão
importante. É a procura constante de melhorias de saúde e a luta continua contra os
infortúnios da vida.
(Oliveira, Noé Mendes. Folclore
Brasileiro: Piauí. Funarte, 1977) |
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