Ano V - julho  2003 - nº 59

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 59
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Benzimentos, por Regina Lacerda.

setaquad.gif (95 bytes)Medicina folclórica no Piauí, por Noé Mendes Oliveira.

setaquad.gif (95 bytes) Das tradições da Amazônia: Sairé, por Osvaldo Orico.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


MEDICINA FOLCLÓRICA NO PIAUÍ

Noé Mendes Oliveira


O problema da saúde pública no Piauí apresenta aspectos comuns de âmbito nacional. A diversos fatores ainda não superados, junta-se o peso de heranças supersticiosas e fetichistas e as demais contigências que determinaram a difusão de uma medicina folclórica existente até hoje.

Nossos remédios populares provêm, como de regra geral, de fontes vegetais, animais, minerais e místicas. As três primeiras são empregadas domesticamente, às vezes sob a orientação de raizeiros. São usos enraizados que passam de geração em geração. Os provenientes de fonte mística são aqueles manipulados e empregados por curandeiros e rezadores. Consistem numa terapêutica mágica e por demais sugestionante. Uns e outros requerem, quase sempre, verdadeiros cerimoniais ou normas que devem ser observados, desde a colheita e preparação do material até à maneira como devem ser usados.

Os medicamentos provenientes do reino vegetal consistem no emprego de chás, infusões, pomadas, pós, óleos, emplastros, torrado (rapé) e garrafadas, feitos de raízes, folhas, flores, frutos e vagens, sementes e cascas de árvores e demais plantas. Exemplifiquemos:

Para curar asma, nosso povo usa o chá da andiroba, da folha do mamoeiro-macho, óleo de pequi, rapé de semente de paulista, canela-de-cunhã e imburana-de-cheiro.

Para gripe, nada como um lambedor da semente do pau-ferro ou da folha de malva-do-reino, do eucalipto, chá de marmeleiro, óleo de pequi ou de bacuri com mel de abelha.

Para febre com catarrão amalianado e tosse, toma-se uma bage de coronha e quebra-se na mão. Pisa-se uma metade e bota-se um pouco de água morna até corar. Depois, coa-se num pano bem limpo e toma-se uma colher das grandes três vezes ao dia.

Para doença de mulher ou desmantelo de senhora, chá de entrecasca de aroeira (para normalizar as regras), de imbiriba ou de batata-da-ciência, chá da janaguba, da folha da carrapateira ou da raiz de jericó.

Para depurar o sangue, muito bom é o chá da raiz de carnaubeira, garrafada de fedegoso, chá de goma de batata de purga ou do miolo do mandacaru. O vinho de caju é também, um excelente depurador de sangue.

Nos casos de verminose, deve-se mastigar semente de jerimum ou de mamão, de manhã, em jejum. Uma mistria (mistura) de óleo de mamona, semente de gergelim e um pouco de barro.

Além dos remédios, às vezes tão estranhos, deve-se seguir uma série de normas, a fim de o remédio surtir efeito.

Entre os medicamentos provenientes do reino animal, podemos destacar:

Chá de pinto (pila-se o pinto vivo no pilão), de cavalo-marinho torrado ou de fígado de urubu servem para asmas.

As dores de mulher são curadas com chá de casco de peba, de cágado ou de camurupim torrados.

Couro de jacaré torrado e banha são indicados para reumatismo, bem como o couro do guaxinim. Este último se usa "embolsado", isto é, tira-se um pedacinho do couro, enrola-se num pano e leva-se sempre no bolso da camisa.

O "ramo" nas tripas (intoxicação e dores, etc.) é curado com mistria de casco de jacaré, pimenta malagueta e pena de ema.

Lambedor de formiga, sangue de raposa ou sangue de boi, banha de cascavel e carne insossa de raposa servem para curar tuberculose.

Para sarampo dos "brabos", toma-se caldo de lagartixa.

E para aliviar cólicas intestinais não tem nada melhor que chá de barata.

O emprego dos excretos (fezes e urina) é ainda difundido entre o povo do interior. Esta aberração terapêutica foi recebida dos antepassados, sobretudo dos portugueses e negros. A urina é muito usada na cura das frieiras e coceiras. Para prisão de ventre toma-se o chá do cabelo e da palha da espiga de milho com esterco de galinha. O rapé feito do chocalho da cascavel e de fezes de papagaio é um santo remédio para asma e para as hemorragias nada como esterco de cavalo ou jegue.

Outros elementos como cabelos, ossos, penas, raspa de chifre e de unha oferecem matéria-prima para uma infinidade de medicamentos. É claro que a maioria deles é revestida de caráter cabalístico, supersticioso. A ingestão de remédios repulsivos exige sacrifícios do doente, e é justamente pela sugestão que o doente às vezes fica curado. Na concepção do povo muitas doenças são causadas pelo espírito maligno, pelo mau-olhado, por coisa "botada" ou feitiço. Então, para estes tipos de doença, só muita reza forte, encenações rituais, etc.

Apesar de todo o progresso já chegado até ao mais recôndito sertão, verifica-se que a medicina popular continua tendo larga aceitação coletiva. Há sempre um curandeiro fazendo "milagre", e nos mercados e feiras os raizeiros cumprem uma missão importante. É a procura constante de melhorias de saúde e a luta continua contra os infortúnios da vida.



(Oliveira, Noé Mendes. Folclore Brasileiro: Piauí. Funarte, 1977)

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