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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
A MÃO, O HOMEM E O FOLCLORE |
| Maurício Teófilo B. Ottoni |
Note-se bem: são singularmente expressivas as mãos!
Desde as unhas, os dedos até a palma. Esta, então, bate o recorde. Há, mesmo, quem veja
na "palma das mãos", o destino dos indivíduos. Se ele é um "lider",
até a "nação lhe tem nas linhas das mãos"... As mãos não só agem, mas
também falam. Ouçam, por exemplo: As mãos de Euridice.
No seu todo, a mão invade e domina as artes, as ciências, o direito, a religião e
"dá de mãos ao folclore".
Ora, direis, ouvir as mãos... Talvez seja exagero dizer que o homem é o "seu
par-de-mãos", como que parodiando "o homem é o seu estilo".
Mas, "conservando a mão no assunto", vejamos, no Direito, o papel que a mão
representa. Não iremos, por certo, até o resumido e genial Código das 12 Tábuas.
Baste-nos, para cabermos, com mão e tudo, nas colunas do jornal, a tradição romana. No
Direito Romano, os atos básicos da vida civil traziam nomes "manuais". Assim
por exemplo, a mancipatio era modo de adquirir a propriedade de coisas, inclusive
um escravo. O cerimonial da aquisição jurídico-romana assim se representa: presente
alienante e adquirente, cinco cidadãos, mais um porta-balança (libripens),
passava o adquirente a "usar suas mãos", tornando de um lingote de cobre,
percurtia os pratos da balança, depois de pronunciar as palavras sacramentais: "Hunc
ego hominem ex jure Quiritium meus esse ajo isque mihi emptus esto hoc acre aeneaque libra".
Logo, aos pois, entregava o lingote de cobre ao vendedor. (Giyard, Man. Dir. Rom.,
p.280-287).
Assim o comprador "punha mãos" ao que pagara.
Diz Ihering que o gesto de mão, percutindo com a lâmina de cobre, era para comprovar a
"sinceridade" do metal do pagamento. Outros institutos jurídicos do Direito
Romano denunciam a presença das mãos; manus (poder marital); a manus injectio,
que submetia o devedor ao poder do credor, quer em decorrência de damnatio
(condenação), quer pelo simples nexum contratual e de ato direto do credor,
embora testemunhado: a manus injectio pura, referente a juros de usura, e assim por
diante tais e tanta participações das "mãos" na vida jurídica dos romanos.
Lá havia, outrossim, as mãos que subtraíam... como hoje é sempre!
Se a manus injectio era a aquisição de poder jurídico, também o ato de pedes,
ponere (posse) girava a detenção jurídica e a posse de coisas imóveis. Pedes
ponere é "pôr os pés", "pisar" a terra apossada. Mão e pé no
Direito. Entre nós, "dar as mãos" é sinal de amizade, e de compromisso
sério, solene.
Nos bons e austeros tempos dantanho até "o fio-de-barba" era o selo dos
contratos, de obrigações jurídicas e morais. Honrar o "fio-de-barba" era
sinal de caráter ilibado, pontual e exato na satisfação do vínculo moral assumido.
Voltando às mãos. O matrimônio católico não prescinde da justaposição das mãos,
sobre as quais repousa a benção sacramental. As mãos, em toda a liturgia religiosa,
representam função expressional de grande valor. As "ordens sacras", ou seja,
a investidura no sacerdócio e mesmo "sagração" de bispos se opera pela
"imposição das mãos", na cabeça do neo-sacerdote ou do instituído bispo. As
mãos, veículos de graça e poder divino.
No uso popular, "dar mão" significa ajuda eventual no trabalho ou dificuldade
momentânea.
"Mão de obra" é, nas construções civis, ou empreitadas a parte
correspondente ao serviço humano.
No trânsito das cidades modernas "mãos" indicam a direção do movimento.
Conduzir o veículo em sentido errado, é praticar "contramão".
"Pedir a mão" vale dizer solicitar, em casamento, uma moça.
"Dar-de-mãos" é abandonar, desprezar, desfazer-se de algum compromisso.
"Mão de roda" é cooperação eficiente.
"Da-mão-para-o-pé" tem vários sentidos, desde totalidade de ação, à
simples rapidez da resolução de um caso.
"Estender as mãos" é propor acordo, paz, compreensão mútua.
Os caipiras indicam com a palavra "mão": certa quantidade: "mão de
arroz", "mão de farinha", "mão de semente"; medida de
extensão: "um palmo de terra", ou "caminhar com duas mãos de virada, até
ali". Esse "ali" é acompanhado de arreganho do beiço inferior.
Vaschide escreveu um curioso livro: Psychologie de la main. Neste livro, o ilustre
cientista diz-nos da importância das mãos na vida humana, principalmente a mão direita.
O estudo das mãos, no sentido funcional, é fecundíssimo. Muitos termos técnicos são
suscitados nesse estudo: "mandestrismo", "mancinismo",
"ambidestrismo", "dimídio", "sinistrismo". Houve, mesmo, um
psicólogo que afirmou que a inteligência humana começou com o uso das mãos. Estas,
tecnologicamente, geram o "faetismo", ou "maneirismo" de execução
perfeita do trabalho manual, por "inteligência das mãos".
Midulla defende calorosamente o uso indistinto das mãos como previdência contra
incapacidades parciais e acidentais, e como equilíbrio anatomo-fisiológico, em
decorrência de postulado de educação física integral.
Fikuoka e Kornal, em numerosas observações, constataram que o uso das mãos acusa
acentuado "mancinismo" nas crianças do sexo masculino. Não há que duvidar da
correlação imediata dos fenômenos psíquicos com a mobilidade e expressionismo das
mãos.
O cumprimento com as mãos entre os caipiras é raro e sem vivacidade. Quando se dá,
resume-se no contato das mãos sem o shake-hands, o aperto decidido e enérgico,
típico dos homens da Europa do norte e norte-americanos.
Entre nossos índios, Karl Friedrich von Martius observou um singular uso das mãos;
consistia em mergulhar as mãos no cabelo ou somente as colocando sobre a cabeça, para
reforçar suas afirmações, pois é de crer que os índios não conhecessem qualquer tipo
de juramento (O direito entre os indígenas do Brasil). Martius rerere-se à
semelhança desse gesto ao das mulheres que, outrora, na Alemanha juravam "no peito e
na trança", para confirmar solenemente a recepção do presente de núpcias.
O mesmo cientista refere-se ao bater coletivo de mãos com os dedos abertos, quando os
índios manifestavam satisfação e alegria coletiva.
O aperto de mão era desconhecido dos indígenas.
O "cheirar das mãos", principalmente à altura dos punhos (munheca), indicava,
entre os botocudos, hospitalidade e saudação amigável.
Teófilo Ottoni quando iniciou sua bandeira pelas selvas do Mucuri, em companhia do seu
irmão Augusto, constatou de que modo os chefes indígenas da região estabeleciam o
primeiro contato de aliança, tal como foi feito com ele. Ambos, sós, na orla da mata,
foram cercados por uma roda de índios ferozes, no centro da qual ficaram os intemeratos
descendentes de Fernão Dias Pais e de Manuel Ottoni em companhia do morubixaba. Este,
depois de fitá-los nos olhos, longamente, colocou as mãos ambas sobre os ombros dos dois
hóspedes e chamaram para Teófilo: "Pogirum! Pogirum!" Que
significa "Mãos Brancas! Mãos Brancas!"...
Usavam eles luvas brancas por causa dos mosquitos. De então, em diante, tiveram de sempre
usar, como sinal de paz e comando, luvas brancas. Estava selada, pelas mãos, um pacto de
aliança que se tornou definitiva.
Nos Evangelhos, há freqüentes alusões às mãos.
Eram elas portadoras de "graças" e poderes sobrenaturais.
Vejamos o seguinte trecho do Livro Sagrado
Nele há reiterada menção do uso santo e caritativo das mãos. É belíssima esta
página de onde surge a figura inigualável de Cristo:
"A hemorroissa e a filha de Jairo" Domingo 23º, depois de Pentecostes
(Mateus IX, 18-26).
"Naquele tempo, falava Jesus ao povo, quando se aproximou dele um príncipe da
sinagoga e o adorou, dizendo: "Senhor, agora mesmo faleceu minha filha; mas vem,
impõe a tuas mãos sobre ela e viverá..."
Caminhando Jesus para a casa de Jairo, eis que uma pobre hemorroissa, não se julgando
digna de falar-lhe pessoalmente, intrometeu-se na multidão que o acompanhava, tocou-lhe a
fimbria do manto e ficou curada. É certo que nessas ocasiões muitos outros doentes, o
tocavam igualmente e, contudo, não se curavam. E por que? Porque não basta aproximar-se
dele ou recebê-lo sacramentalmente para alcançar o que se deseja, mas fazê-lo como
aquela mulher humilde e confiantemente. Ao ressuscitar a filha de Jairo, diz o
texto que o Senhor lhe estendeu a mão. Esta ação é simbólica: os que da morte do
pecado voltam à vida da graça, durante certo tempo sentem dificuldade em caminhar
sozinhos; é mister estender-lhes a mão, isto é, sustentá-los pela caridade e
indulgência até que se lhes consolide a conversão".
Têm sido as mãos signos de paz, oração e caridade. Mas, às vezes, significam
autoridade e violência: as mãos "totalitárias", que durante vários anos,
impeliram e incitaram ao ódio as multidões nazifascistas, em contraposição aos dois
dedos em "V" da mão de Churchill.
As mãos erguem "adeuses" e indicam convites de aproximação. Afinal, cruzam-se
na derradeira postura, até que o "rigor mortis"... as faça hieraticamente
imóveis e definitivamente inúteis e frias.
É de ver que as mãos são o homem. O homem e as suas mãos compõem um destino. Dizia
Diderot (Letire sur les sourds muets); "De tous les sens, loeil est
lo plus superficiel; I"oreille, le plus ergueilloux; Tedorat, le plus voluptucux; le
geut, le plus superstitioux et le plus inconstant; le toucher, le plus profond".
Nessa sentença, cabe a profundidade, a análise minuciosa e substancial, detida e
profunda, ao tato, pois às mãos. Chega-se, por conseguinte, a essa conclusão: no homem,
a mão é a filosofia, e a técnica, é a ciência, é a arte na sua objetividade e
realização. É o trabalho e com ela se conta a moeda, a riqueza.
Veja-se como, em última análise, é nas mãos, que fica o destino dos homens. O mesmo
Diderot (Claude et Neron, II, 6) resume: "Quest-ce quun hommo
léger? Cest un olseau que vous tenez que par lalle; au premier instant, il
vous echappera et no vous laissera dans la main quune plume".
(Ottoni, Maurício Teófilo B. "A mão, o homem
e o folclore". O Estado de São Paulo, São Paulo, 15 de
dezembro de 1957) |
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