Ano V - julho  2003 - nº 59

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 59
FESTANÇA
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IMAGINÁRIO
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PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)República de estudantes, por Ernani Bruno Bueno.

setaquad.gif (95 bytes)Fraseado de botequim, por Alceu Maynard Araújo.

setaquad.gif (95 bytes)A mão, o homem e o folclore, por Maurício Teófilo B. Ottoni.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


REPÚBLICA DE ESTUDANTES

Ernani Bruno Bueno


... Na formação de cada república juntavam-se ordinariamente os filhos de uma mesma província — observou Zaluar em 1860 — "Conservando-se desse modo, no meio da prosmicuidade de suas relações gerais, o espírito de provincianismo que sempre distingue os diversos ramos da população nacional". Era sobretudo entre os estudantes da província de Minas Gerais — que se destacavam na Academia, segundo o autor de Peregrinação, pela dedicação ao estudo — que se notava com mais vigor esse espírito de fraternidade regional. Grupos de três a cinco estudantes — raramente seis — escreveu o cronista Spencer Vampré que formavam uma república, alugando casa e contribuindo todos para a manutenção comum. A mesada do estudante variava em meados do século passado entre quarenta e oitenta mil réis, sendo muito raras as inferiores a trinta. Nos primeiros tempos da Academia essas mesadas tinham sido ainda mais modestas, sendo invejados e apontados como opulentos os poucos estudantes que recebiam por mês os seus cinquenta mil réis. Entretanto em 1860 parecia haver já mais conforto nessas pensões de acadêmicos do que nos primeiros anos do Curso Jurídico. É de Zaluar a observação de que na época já tinham caído em desuso nas repúblicas paulistanas a cadeira sem fundo, a mesa de pés quebrados e a velha garrafa servindo de castiçal. Mas devia ainda haver nelas muita desarrumação e pouco espaço. Só estudantes abastados, como Paulino José Soares de Sousa, podiam se dar ao luxo de morar sozinhos em uma casa: Paulino morou em prédio de vários cômodos na rua das Flores (Silveira Martins) e conta-se que seus livros estavam sempre bem arrumados. Nas repúblicas comuns todos os compartimentos da casa — menos a varanda ou sala de jantar e a cozinha — se transformavam em aposentos de dormir e de estudar, ficando sempre os menos confortáveis para os calouros. Mas havia também os estudantes nômades, que comiam e dormiam na república em que se encontrassem no momento. A mobília comum de uma república de acadêmicos se resumia em uma mesa de jantar, camas, mesas para estudo e cadeiras. Às vezes uma estante, alguma cadeira preguiçosa ou de balanço.

Quase sempre tomava conta de cada uma dessas casas uma cozinheira. Teodomiro Alves Pereira, em sua Vida acadêmica, em 1861, escrevia: "O estado da república é a guerra. À noite diz um que não quer chá, mas chocolate; outro prefere o café; e um terceiro só gosta de mate. Pois bem: o do chocolate toma o chá, o do café o mate, o do mate o café... e a luta se trava, terminando por tremenda descompostura em outra alimária — indispensável à república — a princesa da cozinha, a cozinheira". Mas havia também um ou mais criados, em geral escravos de pais de estudantes, que acompanhavam os seus senhores durante o tempo dos estudos. Era de praxe quando o acadêmico recebia sua carta de bacharel conceder a alforria ao negro. Um desses escravos de república de estudante — o preto Leôncio — acompanhou sempre Leôncio de Carvalho, foi cozinheiro de república e se tornou mais tarde beberrão e tipo popular da cidade, fazendo discursos bestialógicos no Largo de São Francisco. É curioso — como contou Almeida Nogueira — que os escravos de estudantes formavam uma espécie de subclasse acadêmica à sombra dos seus senhores. "Eram, como eles, calouros ou veteranos", e os de ano superior mandavam os outros "medir a distância que os separava".

A lavagem de roupa dos acadêmicos representava uma das indústrias domésticas principais com que contavam certas famílias de São Paulo por volta de 1860. Empenhavam-se essas famílias em obter a freguesia acadêmica, muitas vezes recompensando a constância de alguns fregueses com doce ou com flores. Deviam ser também os cursistas da Academia os maiores consumidores dos cigarros, que eram muitas vezes feitos em casa, formando cestas e jarros, para serem vendidos. Há um poema de Raimundo da Mota Azevedo Correia, tio de Raimundo Correia e estudante no períoro de 1861 a 1865, com estes versos:

"Chego à porta" — disse eu
Bato palmas — ela vem,
E disfarço perguntando
— Bons cigarros aqui tem?...

Que lembrança... bem cabida!
Pois aqui na Paulicéia
Toda moça faz cigarros
E com toda a perfeição
Deles sabem fazer elas
Lindas cestas, lindos jarros".

Referindo-se à época em torno de 1852 Június observava: "Em nosso tempo (de estudante em São Paulo) se não tinhamos provisão dos célebres cigarros de Campinas ou se de repente nos faltava o fumo, não nos seria fácil alimentar o vício". Daí talvez o uso e o abuso do charuto, tão freqüente em boca de estudante em meados do século, pelo menos nas novelas de Bernardo Guimarães e de Teodomiro Alves Pereira. Mas já em torno de 1860 havia casas que tinham sempre cigarros para vender. Na rua de São Gonçalo havia cigarros muitos bons, dizia a um colega filante um personagem da Meia hora de cinismo, de França Júnior...


(Bueno, Ernani Bruno. História e tradições da cidade de São Paulo. p. 818-824)

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