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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
... Na formação de cada república juntavam-se ordinariamente os filhos de uma mesma
província observou Zaluar em 1860 "Conservando-se desse modo, no meio
da prosmicuidade de suas relações gerais, o espírito de provincianismo que sempre
distingue os diversos ramos da população nacional". Era sobretudo entre os
estudantes da província de Minas Gerais que se destacavam na Academia, segundo o
autor de Peregrinação, pela dedicação ao estudo que se notava com mais
vigor esse espírito de fraternidade regional. Grupos de três a cinco estudantes
raramente seis escreveu o cronista Spencer Vampré que formavam uma república,
alugando casa e contribuindo todos para a manutenção comum. A mesada do estudante
variava em meados do século passado entre quarenta e oitenta mil réis, sendo muito raras
as inferiores a trinta. Nos primeiros tempos da Academia essas mesadas tinham sido ainda
mais modestas, sendo invejados e apontados como opulentos os poucos estudantes que
recebiam por mês os seus cinquenta mil réis. Entretanto em 1860 parecia haver já mais
conforto nessas pensões de acadêmicos do que nos primeiros anos do Curso Jurídico. É
de Zaluar a observação de que na época já tinham caído em desuso nas repúblicas
paulistanas a cadeira sem fundo, a mesa de pés quebrados e a velha garrafa servindo de
castiçal. Mas devia ainda haver nelas muita desarrumação e pouco espaço. Só
estudantes abastados, como Paulino José Soares de Sousa, podiam se dar ao luxo de morar
sozinhos em uma casa: Paulino morou em prédio de vários cômodos na rua das Flores
(Silveira Martins) e conta-se que seus livros estavam sempre bem arrumados. Nas
repúblicas comuns todos os compartimentos da casa menos a varanda ou sala de
jantar e a cozinha se transformavam em aposentos de dormir e de estudar, ficando
sempre os menos confortáveis para os calouros. Mas havia também os estudantes nômades,
que comiam e dormiam na república em que se encontrassem no momento. A mobília comum de
uma república de acadêmicos se resumia em uma mesa de jantar, camas, mesas para estudo e
cadeiras. Às vezes uma estante, alguma cadeira preguiçosa ou de balanço.
Quase sempre tomava conta de cada uma dessas casas uma cozinheira. Teodomiro Alves
Pereira, em sua Vida acadêmica, em 1861, escrevia: "O estado da república é
a guerra. À noite diz um que não quer chá, mas chocolate; outro prefere o café; e um
terceiro só gosta de mate. Pois bem: o do chocolate toma o chá, o do café o mate, o do
mate o café... e a luta se trava, terminando por tremenda descompostura em outra
alimária indispensável à república a princesa da cozinha, a
cozinheira". Mas havia também um ou mais criados, em geral escravos de pais de
estudantes, que acompanhavam os seus senhores durante o tempo dos estudos. Era de praxe
quando o acadêmico recebia sua carta de bacharel conceder a alforria ao negro. Um desses
escravos de república de estudante o preto Leôncio acompanhou sempre
Leôncio de Carvalho, foi cozinheiro de república e se tornou mais tarde beberrão e tipo
popular da cidade, fazendo discursos bestialógicos no Largo de São Francisco. É curioso
como contou Almeida Nogueira que os escravos de estudantes formavam uma
espécie de subclasse acadêmica à sombra dos seus senhores. "Eram, como eles,
calouros ou veteranos", e os de ano superior mandavam os outros "medir a
distância que os separava".
A lavagem de roupa dos acadêmicos representava uma das indústrias domésticas principais
com que contavam certas famílias de São Paulo por volta de 1860. Empenhavam-se essas
famílias em obter a freguesia acadêmica, muitas vezes recompensando a constância de
alguns fregueses com doce ou com flores. Deviam ser também os cursistas da Academia os
maiores consumidores dos cigarros, que eram muitas vezes feitos em casa, formando cestas e
jarros, para serem vendidos. Há um poema de Raimundo da Mota Azevedo Correia, tio de
Raimundo Correia e estudante no períoro de 1861 a 1865, com estes versos:
"Chego à porta" disse eu
Bato palmas ela vem,
E disfarço perguntando
Bons cigarros aqui tem?...
Que lembrança... bem cabida!
Pois aqui na Paulicéia
Toda moça faz cigarros
E com toda a perfeição
Deles sabem fazer elas
Lindas cestas, lindos jarros".
Referindo-se à época em torno de 1852 Június observava: "Em nosso tempo (de
estudante em São Paulo) se não tinhamos provisão dos célebres cigarros de Campinas ou
se de repente nos faltava o fumo, não nos seria fácil alimentar o vício". Daí
talvez o uso e o abuso do charuto, tão freqüente em boca de estudante em meados do
século, pelo menos nas novelas de Bernardo Guimarães e de Teodomiro Alves Pereira. Mas
já em torno de 1860 havia casas que tinham sempre cigarros para vender. Na rua de São
Gonçalo havia cigarros muitos bons, dizia a um colega filante um personagem da Meia
hora de cinismo, de França Júnior...
(Bueno, Ernani Bruno. História
e tradições da cidade de São Paulo. p. 818-824) |
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