Ano V - julho  2003 - nº 59

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 59
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Os bombeiros no Recife antigo, por Mário Sette.

setaquad.gif (95 bytes)Carrinhos, por Lídia Federici

setaquad.gif (95 bytes)As "indústrias" do interior, por Deise Sabbag

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

AS "INDÚSTRIAS" DO INTERIOR

Deise Sabbag


Focalizando-se aspectos interessantes do folclore brasileiro é preciso destacar o artesanato, que é a manufatura, ou seja, a arte de reproduzir com as mãos, sem a intervenção da máquina. Enquanto a eletricidade e a máquina não invadem o sertão brasileiro, o artesanato vai operando verdadeiros milagres. E o trabalho manual cria verdadeiras revelações: o artífice, nos vários setores da inteligência.

Uma indústria muito interessante e vendável é a cerâmica: moringas, talhas, potes, vasos, bilhas, panelas e alguidares. Porém há uma que está assumindo aspecto de artes plásticas roceiras. Trata-se da fabricação manual de bonecos, revelando tradições da arte figurativa e decorativa popular.

Estes bonecos eram vendidos, antigamente, nas feiras do Norte e Nordeste a preços baixos. Hoje, entretanto, passaram a figurar nas vitrinas de arte e a merecer considerações como valores plásticos densos de sugestões estéticas. O pernambucano Vitalino Pereira dos Santos se notabilizou nessa modalidade artística. Famoso no Brasil e no estrangeiro, com bonecos e grupos de figuras incorporadas, fez obras de várias temáticas; carros de bois, famílias retirantes, cangaceiros, noivas, animais, soldados, tipos do sertão etc.

E MAIS "INDÚSTRIAS"

A rendeira do norte fabrica rendas que são vendidas até no estrangeiro. A renda é um orgulho do trabalho manual e do artesanato nacional. Para a fabricação de rendas, ocupam apenas os seguintes utensílios: almofadas, bilros e alfinetes para a marcação de pontos. As rendeiras trabalham, em geral, assentadas ao chão e há algumas que ficam ricas fazendo este tipo de trabalho.

Segundo o folclorista Hernani de Carvalho, a indústria manual de esteira também é muito vendável. Ela é feita de folha ensiforme de um vegetal que se desenvolve nos brejos, chamado taboa. O sertanejo pária não conhece a cama para dormir. Dorme mesmo na esteira estendida no chão ou sobre a tarimba, que são quatro paus fincados no chão e atravessados por varas; em cima dessa base coloca-se a esteira e o pobre ali dorme.


FABRICAÇÃO DE RAPADURA

Outra indústria do artesanato brasileiro é a fabricação da rapadura e do melado. A rapadura é o açúcar do pobre, feito do caldo-de-cana nos "engenhos" das pequenas propriedades rurais. Os "engenhos" funcionam em uma cobertura de telhas-de-canal e sem paredes laterais. No seu interior instala-se a moenda destinada a moer as canas. Uma junta de bois movimenta a moenda morosamente em círculo. O caldo-de-cana ou garapa é encaminhado aos tachos que se acham em cima da fornalha. Toca-se o fogo; a garapa ferve e transforma-se em uma massa morena que é retirada dos tachos e colocadas em formas. Espera-se então, que esfrie e endureça para retirá-las das fôrmas


JANGADAS E CANOAS

Lembra ainda Hernani de Carvalho que, nos lugares do litoral do norte, há verdadeiros "estaleiros" onde existe a manufatura das jangadas e canoas. As jangadas são pequenas embarcações audaciosas, construídas com 5 troncos de piúva ou jangadeiros, como flutuante. Esse conjunto, ligado por cincos pedaços transversais da mesma madeira é denominado lastro, mede geralmente 7 metros de comprimento por 2 de largura. Perto da proa fica o mastro, no qual se suspende uma vela de algodão, um banco para assentar, um pote para água doce, instrumentos de pescaria, farnel, leme, a tripulação corajosa e audaciosa...


E TEM MAIS

No interior é também comum a indústria do amendoim, que é vendido em pacotinhos. À noite saem garotos anunciando o produto:

Olha o amendoim torrado!
Torradinho... inho... inho!
Com amendoim torrado
Não haverá mais velho... lho... lho...

Outra indústria doméstica muito interessante é a fabricação de gaiolas para passarinhos. A matéria prima é um vegetal denominado vara-de-ubá, muito leve e macia para o arcabouço das gaiolas. As varetas são de taquara e bambu.

Uma atividade rural — diz Hernani de Carvalho — é a do sapateiro ou bate-sola, que só conserta sapatos: remenda, coloca meia-sola etc. É um artífice moderno, que vive de seu ofício pouco rendoso.

— No interior do Brasil — prossegue ele — verifica-se a falta de colocação para o elemento feminino. As moças e senhoras reagem instituindo trabalhos domésticos vendáveis: o crochê, o tricô, os bordados à mão.

(Correio popular, São Paulo, 16 de janeiro de 1971)

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