Ano V - julho  2003 - nº 59

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 59
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

setaquad.gif (95 bytes)Zumba-Mugia, por Ademar Vidal.

setaquad.gif (95 bytes)O boto, por Osvaldo Orico.

setaquad.gif (95 bytes)A lagartixa de ouro, por Luís da Câmara Cascudo.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

ZUMBA-MUGIA

Ademar Vidal

Ilustração de Marcos Jardim
(...)

A cidade conheceu um tipo popular denominado Zumba-Mugia, que, pelas esquisitices, forma estranha de viver, passou a figurar na imaginação infantil como um perigo social de grande força. Ele tinha forma de homem gordo e lépido por demais. Barbas crescidas, apresentando feições leoninas. E certamente maltrapilho nas vestes. Vivia de casa em casa pedindo alguma coisa para comer. Era mais ou menos intelectual e gostador de mulheres. Cantava modinhas ao luar com o violão nos braços. Porém, o instrumento seu mais querido era um tambor muito grande, tanto que a sua figura fantástica se apresenta nas imaginações com um formidável bombo ao seu lado.

Viviam as mulheres em polvorosa porque Zumba-Mugia não dispensava certos favores sentimentais. Era um dom Juan de mão cheia — e quem quisesse que se metesse para colher as conseqüências. Isto para o pensamento dos maiores.

No pensamento dos pequenos, entretanto, ele se apresentava com outros aspectos. O menino que andasse em desobediência estava mal para passar. Teria de realizar tudo quanto os criados quisessem, porque senão o bicho viria à noite — e ai de quem ele pegasse: era cruel nas vinganças, arrancava as orelhas e outras coisas úteis, indispensáveis à vida.

Durante o dia, Zumba passeava na realidade pela calçada — e todos viam o seu vulto material. Com a paisagem noturna é que ele se desencantava, virando espécie de lobisomem. Cobria-se de preto, tornava-se misterioso. E era veloz como o raio. Invés de cavalo, possuía um porco preto e enorme, corredor que só ele, bicho danado para esquipar. O interessante é que esquipava mesmo sem ser nas estradas limpas e sem buracos. Os campos preferidos para as suas correrias eram os telhados das casas. Chegava-se assim, nas madrugadas enxutas, a ouvir o galope firme de Zumba-Mugia dominando o seu porco a chicote, a esporas de aço e palavras de arrieiro. E ouvia-se também o choro sentido de meninos malcriados que ele fora buscar, conduzindo-os no seu enorme saco de cores escuras e amarela. Corria na direção da lagoa — que é como uma espécie de coração líquido da cidade.

Lá estavam os cururus gritando para abafar o lamento das crianças que chamavam pelas suas mães e pelos seus pais. O bombo, então, entrava a tocar, com violência, num coro com os sapos obedientes ao mando autoritário da aterradora visão.

Zumba sabia tocar bombo de verdade. Em meio do barulho dessa festa noturna, se aproveitava para sangrar as crianças, quando não lhes cortava as orelhas e outras coisas úteis, mais que úteis, indispensáveis à vida humana — fazia uma incisão perto do umbigo para extrair sangue, que o seu porco bebia com a voracidade dos insaciáveis que trabalham nus e ao sol infernal do Nordeste. Os meninos passados por essa perigosa operação nunca mais ficavam corados. Não havia Emulsão de Scott que fizesse desaparecer a palidez de suas faces.

E não era só. Por vezes Zumba-Mugia tinha de sustentar lutas tremendas com os seus inimigos que queriam apoderar-se dos meninos raptados. Então se entrincheirava no alto de um coqueiro — e tocava a sacudir cocos como se estivesse a sacudir pedras. Quando esgotava a munição, saltava para outro coqueiro e, assim, sucessivamente. O diabo era que se esquecia e, por vezes, deixando de pegar no coco, pegava num menino e — zás, sacudia-o no espaço. Pode-se avaliar o terrível efeito dessa história. Pode-se facilmente imaginar a sua importância através de "benéficos resultados" da garotada andando numa linha de fazer gosto.

Zumba-Mugia ainda vive na cidade, não obstante as invasões civilizadoras, a gradativa ausência de coqueiros nas ruas centrais, a lagoa iluminada e as criadas mulatas que não perdem mais tempo com menino...

 

(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.71-72)

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