Tão pouco se sabia do berimbau, fora da cidade do Salvador, que, no meu livro Religiões
negras, 1936, achei conveniente dar uma descrição dele, em que o relacionava ao humbo
e ao rucumbo de Angola, com a fotografia de um grupo de instrumentistas em ação
numa roda de capoeira. Anotei, na ocasião, os sinônimos gunga e berimbau-de-barriga.
Não preciso reproduzir agoraas palavras de há trinta anos. Quem, neste país, a esta
altura do século, ainda não viu um berimbau?O vocábulo era conhecido, mas
prestava-se a confusões, pois designa, em geral, um instrumento aerofone, presente em
todos os continentes, trazido para o Brasil pelos portugueses. Mário de Andrade se ocupou
largamente dele. Os dicionários o registravam, e registram, nesta acepção. Por exemplo,
o Pequeno dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, reimpressão de 1968, ensina:
"Pequeno instrumento sonoro de ferro, que se toca segurando-o nos dentes e acionando
a lingueta com o dedo indicador." Trata-se do berimbau-de-boca, variedade portuguesa,
o mesmo com que, segundo Fernão Cardim, o irmão Barnabé alegrou o Natal dos jesuítas
em fins do século XVI. Esse berimbau vivia, e vive, numa quadra jocosa:
Sua mãe é uma coruja
Que mora no oco do pau
Seu pai é um nego véio
Tocador de berimbau
e numa réplica popular da Bahia Está pensando que berimbau é gaita? É
difícil dizer exatamente como, quando e por que o apelativo de um instrumento aerofone
acabou designando também um instrumento cordofone, tão diverso na sua estrutura e na sua
função.
Chamando-o berimbau-de-barriga, os capoeiras o diferençavam e distinguiam do outro, de
boca, e o descreviam melhor. Entretanto, a alternativa preferida parecia ser gunga,
forma assumida no Brasil pela palavra angolana hungu, em que o h aspirado,
como no exemplo clássico Dahomé / Dagomé, se transformou em g. É como gunga que
ao berimbau se referem, como já acontecia na ocasião, muitas chulas de capoeira.
Eram escassas, antes de 1936, as menções ao berimbau.
1. Em A Bahia de outrora, 1916, Manuel Querino o descreveu como
"instrumento composto de um arco de madeira flexível, preso às extremidades por uma
corda de arame fino", a que estaria ligada "uma cabacinha" ou uma moeda de
cobre; o tocador o segurava com a mão esquerda e tinha, na direita, "pequena cesta
contendo calhaus", chamada gongo, e um cipó fino, com que "feria a corda,
produzindo o som". É possível que gongo, em vez de aplicar-se à cesta que agora
chamamos caxxi e outrora era mucaxixi, fosse na verdade uma alternativa de berimbau.
2. Leonardo Mota (Cantadores, 1921) viu, no morro do Moinho, Fortaleza, um negro
octogenário, natural de Itapipoca, fazendo música com o seu berimbau-de-barriga.
3. Luís da Câmara Cascudo, no ano seguinte, contou, num jornalzinho natalense, haver
encontrado na feira do Alecrim "um negro gordo, papudo, velho", tocando um
berimbau-de-barriga, descreveu o instrumento e intuiu a sua procedência africana.
4. Não parece que Nina Rodrigues o tenha visto na Bahia, pelo que se depreende deste
trecho de Os africanos no Brasil, publicação póstuma de 1932:
"No Maranhão ouvi em criança dar este nome [marimba] ao rucumbo,
instrumentos dos negros angola, consistindo num arco de madeira flexível curvado por um
fio grosso que fazem vibrar com os dedos ou com uma vareta. Na parte inferior do arco
prendem uma cuia ou cuité que funciona como aparelho de ressonância e, aplicada contra o
ventre nu, permite graduar a intensidade das vibrações."
5. Também Artur Ramos fizera mençãoao berimbau (O folclore negro do Brasil,
1935), mas de modo extremamente confuso. Como Nina Rodrigues, ainda não tivera
oportunidade de vê-lo. Terminando a parte referente a instrumentos, escreveu (p.156):
"Restou-me falar no urucungo, também chamado gobo, bucumbumba e
berimbau-de-barriga, que é o mesmo rucumbo (...) Hoje está quase desaparecido no
Brasil..."
Há, no livro, uma longa citação de Luciano Gallet (Estudos de folclore, 1934)
em que se incluem o birimbau (sic), sem qualquer explicação, e com base em Afonso
Cláudio, o uricungo (sic), que também teria os nomes de gobo ou bucumbumba, mas
este instrumento seria um arco de madeira "retesado por dois ou três fios", com
"uma cuia oval" pendurada do centro. Na segunda edição de O negro
brasileiro, 1940, Artur Ramos, após citar Religiões negras, reconheceu,
novamente, que o berimbau "é o mesmo gobo ou bucumbunga (sic), é o
urucungo dos tempos da escravidão, os mesmos rucumbo e humbo..."
(p.243, nota). Na mesma página, porém, deixou ficar esta afirmativa da edição
anterior, desmentida pelo berimbau:
"Os instrumentos cordofones pertencem a ciclos culturais mais adiantados; por isso
os existentes primitivamente no Brasil não parecem ter origem negra, à exceção,
talvez, da viola de arame."
Não há como classifcar o berimbau senão como instrumento cordofone. E, se podemos
identificá-lo como o humbo e o rucumbo, não há razões válidas para
negar sua origem africana.
Falta dizer que a viola de arame (que talvez fosse mesmo, como veremos, o berimbau) foi
citada, igualmente sem qualquer explicação, por Luciano Gallet, como instrumento que os
negros já usavam no Brasil ou seja, como instrumento estranho às culturas
africanas.
Assim, Artur Ramos, não obstante o tenha citado em 1935, não tinha conhecimento
direto do berimbau, nem o teve pelo menos até 1940.
A área antiga do berimbau (que ainda não tinha este nome) compreendia a Bahia, o
Maranhão, Pernambuco e o Rio de Janeiro cobria exatamente os quatro grandes
centros nacionais de distribuição de escravos.
Koster o registrou em Pernambuco, 1816, segundo a tradução de Luís da Câmara
Cascudo, como
"um grande arco com uma corda tendo uma meia quenga de coco no meio, ou uma
pequena cabaça amarrada. Colocam-na contra o abdômen e tocam a corda com o dedo ou com
um pedacinho de pau."
O instrumento, com a cabeça "pendurada" da ponta superior do arco, ainda foi
coletado em algum lugar ao norte da Guanabara, em 1937 ou 1938 (Oneida Alvarenga, Música
popular brasileira, 1950, fig.1 urucungo), mas, na forma afinal predominante no
Brasil, mantém-se a cabaça amarrada ao arco.
Numa das suas Notas dominicais, datada do Recife, 1817, Tollenare dá, como
instrumento musical dos negros, "uma corda de tripa distendida sobre um arco e
colocada sobre um cavalete formado por uma cabaça". Não lhe anotou o nome, mas não
parece que se chamasse berimbau, pois o parágrafo termina do seguinte modo:
"... não observei se a sua música servia para fazer dançar, e o mesmo digo do
berimbau."
Este último era o de boca.
Maria Graham (1822) refere, entre os instrumentos que examinou numa fazenda fluminense,
do outro lado da baía de Guanabara (Diário de uma viagem ao Brasil, 1824):
"Um é simplesmente composto de um pau torto, uma pequena cabaça vazia e uma só
corda de fio de cobre. A boca da cabaça deve ser colocada na pele nua do peito, de modo
que as costelas do tocador formam a caixa de ressonância, e a corda é percurtida com um
pauzinho."
Designando-o como urucungo, Debret, Viagem pitoresca e histórica ao Brasil,
1834-1839, fixou-o numa das suas gravuras (prancha 41, negro trovador) com a seguinte
explicação:
"Este instrumento se compõe da metade de uma cabaça aderente a um arco formado
por uma varinha curva com um fio de latão sobre o qual se bate ligeiramente. Pode-se ao
mesmo tempo estudar o instinto musical do tocador que apoia a mão sobre a frente
descoberta da cabaça, a fim de obter pela vibração um som mais grave e harmonioso. Este
efeito, quando feliz, só pode ser comparado ao som de uma corda de tímpano, pois é
obtido batendo-se ligeiramente sobre a corda com uma pequena vareta que se segura entre o
indicador e o dedo médio da mão direita."
(Por descuido do tradutor, ligeiramente está por levemente.)
É impossível, por enquanto, estabelecer os motivos pelos quais a área do berimbau se
restringiu, finalmente, à Bahia.
Não há a menor dúvida trata-se de um instrumento originário de Angola. Em
outros pontos da África Ocidental, encontram-se instrumentos musicais com a mesma
estrutura básica do berimbau corda, cabaça, arco mas provém diretamente
do humbo e do rucumbo de Angola aquele que agora acompanha o jogo da
capoeira.
Sobre o humbo há duas referências do cronista português Ladislau Batalha. Em Angola,
Lisboa, 1889, escreveu ele:
"O humbo é o tipo dos instrumentos de corda. Consta geralmente da metade
de uma cabaça, oca e bem seca. Furam-na no centro em dois pontos próximos; à parte
fazem um arco como de flecha, com a competente corda. Amarram a extremidade do arco, com
uma cordinha do mato, à cabaça, por via dos dois orifícios; então, encostando o
instrumento à pele do peito, que serve neste caso de caixa sonora, fazem vibrar a corda
do arco, por meio de uma palhinha."
Em Costumes angolenses (Lisboa, 1890), há uma menção incidental:
"...um negralhão toca no seu humbo, espécie de guitarra de uma só corda
a que o corpo nu do artista serve de caixa sonora."
Os exploradores Capelo e Ivens (De Benguela às terras de Iaca, Lisboa, 1881)
fizeram o desenho do berimbau dos bangalas de Angola (I, p.294), enquantoo major Dias de
Carvalho (Etnografia e história tradicional dos povos da Lunda, Lisboa, 1890) o
desenhou sozinho e com outros instrumentos registrados na sua área de pesquisa (p.370,
379). O major, ao contrário de Capelo e Ivens, que não dizem uma palavra sobre o
instrumento, dedicou meia página ao rucumbo, que em nada difere do humbo de
Ladislau Batalha, descrevendo a corda como "um fio grosso que [os povos da Lunda] já
fazem do seu algodão", de que obtinham sons que "lembram os de uma viola".
Nina Rodrigues, no Maranhão ("um fio grosso"), e Tollenare, em Pernambuco
("uma corda de tripa"), tê-lo-ão visto, portanto, na sua forma orginal.
Segundo informação de Albano de Neves e Souza, de Angola, consultado por Luís da
Câmara Cascudo (Folclore do Brasil, 1967), o instrumento, considerado
"tipicamente pastoril", continua em uso, com uma área de incidência que
atravessa o continente até a costa oriental, recebendo, de acordo com a região, os nomes
de hungu e de mbolumbumba.
E, do Álbum etnográfico de José Redinha (Luanda, sd, p.85), consta, em
desenho, "um monocórdio, lucungo, com caixa de ressonância, constituída por
um copo de cabaça".
Observe-se que, antes de Manuel Querino, ninguém se referia à moeda de cobre usada
pelos capoeiras.
Humbo, rucumbo, hungu e lucungo, nas várias línguas que se
falam em Angola, são os étimos de dois sinônimos de berimbau em uso no Brasil
gunga, na Bahia, e urucungo, na região centro-sul.
Desde quando o berimbau está associado à capoeira?
Há notícia da capoeira desde a transferência da capital do país da Bahia para o Rio
de Janeiro (1763), mas, tratando-se de uma forma de luta pela liberdade, não seria de
esperar a presença de instrumento musicais. Estes só apareceriam mais tarde, quando os
negros passaram a exercitar-se para embates futuros. Pertence certamente a essa fase a
gravura Jogo de capoeira, de Rugendas, Viagem pitoresca através do Brasil,
1835, devendo-se notar, porém, que o único instrumento musical à vista é um tambor,
que um negro toca com as mãos, cavalgando-o.
Tudo faz crer que o berimbau, primitivamente, era um instrumento solista ou,
para ser mais exato, uma viola africana, talvez a viola de arame notada por Luciano
Gallet. Ladislau Batalha viu nele algo como uma "guitarra" monocórdia, enquanto
o major Dias de Carvalho, para quem os sons do berimbau lembravam os de uma viola,
escreveu, decisivamente:
"Os luandas chamam-lhe violán. Tocam-no quando passeiam e também quando
estão deitados nas cubatas."
Era, então, "muito cômodo e portátil". Debret o pôs nas mãos de um negro
cego, que esmolava cantando a sua desdita. Com "um fio grosso" ou "uma
corda de tripa", e por vezes dedilhado, que mais poderia ser?
Das fontes citadas, apenas Manuel Querino o dá como acompanhamento musical da capoeira
e não do treinamento, digamos, de profissionais, mas de amadores. Fazia o ritmo
para o brinquedo, antecessor da vadiação atual. É de supor que somente neste século, e
na Bahia, o berimbau se tenha incorporado ao jogo de Angola, de maneira insubstituível,
dominante e caracterizadora.
Foi a partir de então, provavelmente, que o instrumento se fez mais comprido, que o
arame substituiu de vez a corda de fio ou de tripa e que o berimbau se enriqueceu com o
caxixi e a moeda de cobre, dobrão, 40 réis ou dois vinténs do tempo do império, com
que o conhecemos agora.