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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
Assunto delicioso para uma pesquisa folclórica é, não resta dúvida o culinário. Luís
da Câmara Cascudo sempre excelente no seu modo minucioso de registrar vocábulos de uso
popular de referentes pratos brasileiros de origem africana. Cita, por exemplo, no
encantador livro que é Made in África, o pirão e o funje. Diz Cascudo: "O
português levou o pirão brasileiro para Angola e o angolano trouxe o funje para o
Brasil. Não encontro diferença essencial entre ambos". Os brasileiros fazem pirão
até de ovo, para comer puro na falta de carne. Em Angola o pirão é de peixe que nós
usamos também em larga escala nas praias nordestinas sobretudo o pirão mexido no fogo
lento. Já o pirão escaldado é mais usual com caldo do cozido (pedaços de carne de boi
e verduras). Etimologicamente pirão é o termo nhengatu fixado no século XVI. Fúnji
é palavra africana. Oscar Ribas, citado por Câmara Cascudo dá a receita do funji:
"massa cozida de farinha denominada fubá, geralmente de milho, massambola, mandioca
ou batata-doce". Fiquemos por aqui em citações. Isso é o fúnji em Angola. O que
conhecemos e usamos muitíssimo em municípios da zona da Mata em Pernambuco é diferente.
Esse fúnji a que me refiro é prato específico de massa de mandioca. Massa molhada
fresca, e não a farinha torrada nas casas de farinha, da mandioca espremida na hora. O
fúnji usual é preparado com a mesma massa com que são feitos os bolos de São João e
leva leite de coco e alho como tempero. O fúnji é prato para acompanhar bacalhau assado
e era prato popular no tempo em que bacalhau era comida de pobre. O fúnji é de fácil
preparo. Basta que se tenha massa de mandioca bem lavada e bem espremida. Em fogo lento
mistura-se a massa de mandioca com o leite de coco, sal e um dente espremido de alho.
Mexe-se até dar o ponto, coisa que cozinheira sabe fazer. Deve ser feito (aliás como o
pirão cozido) na hora de ir para a mesa. Quem comeu o fúnji com bacalhau assado jamais o
esquecerá. Esse presente angolano nessas características pernambucanas é prato que deve
ser preservado. Que o professor Nelson Chaves o estude em seu aspecto nutricional e
teremos bases para divulgar a receita e o seu valor alimentar. No caso do bacalhau haver
subido astronomicamente de preço, inacessível ao consumo popular, podíamos
substituí-lo pela cambinda.
Renato de Almeida, em seu Manual de coleta folclórica nos dá detalhadas
instruções para colher usos e costumes de cozinha regional. Um livro de caráter
folclórico no capítulo alimentação seria de grande valor não só do ponto de vista
folclórico como do nutricional. Uma boa política alimentar deve basear-se em usos e
costumes alimentares regionais. O nosso país vasto como é, há de ter uma grande
variedade de pratos de usos seculares, pratos feitos com farinhas não desvitalizadas pela
industrialização que urgem ser estudados, preservados e difundidos.
Os pirões e fúnjis angolanos não dispensam o óleo de palma ou de dendê. Luís da
Câmara Cascudo nos diz que o fúnji instalou-se no Nordeste, mas que nunca o viu da Bahia
para o centro sul do Brasil. Mas não nos dá a receita do fúnji usado no Rio Grande do
Norte ou outros lugares.
O termo angolano fúnji é abrasileirado em funje, e tomado, genericamente, (como pirão
também) em comilança, passadio, comes e bebes. Assim pode dizer-se "vou provar do
seu pirão ou do seu funje".(Delouche, Angela. "O funje e o pirão". Jornal
do Comércio, Recife, 20 de novembro de 1966) |
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