Ano V - julho  2003 - nº 59

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 59
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
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PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)O funje e o pirão, por Angela Delouche.

setaquad.gif (95 bytes)Angu de fubá, por Carlos Borges Schmidt.

setaquad.gif (95 bytes)O bom churrasco

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


O FUNJE E O PIRÃO

Angela Delouche


Assunto delicioso para uma pesquisa folclórica é, não resta dúvida o culinário. Luís da Câmara Cascudo sempre excelente no seu modo minucioso de registrar vocábulos de uso popular de referentes pratos brasileiros de origem africana. Cita, por exemplo, no encantador livro que é Made in África, o pirão e o funje. Diz Cascudo: "O português levou o pirão brasileiro para Angola e o angolano trouxe o funje para o Brasil. Não encontro diferença essencial entre ambos". Os brasileiros fazem pirão até de ovo, para comer puro na falta de carne. Em Angola o pirão é de peixe que nós usamos também em larga escala nas praias nordestinas sobretudo o pirão mexido no fogo lento. Já o pirão escaldado é mais usual com caldo do cozido (pedaços de carne de boi e verduras). Etimologicamente pirão é o termo nhengatu fixado no século XVI. Fúnji é palavra africana. Oscar Ribas, citado por Câmara Cascudo dá a receita do funji: "massa cozida de farinha denominada fubá, geralmente de milho, massambola, mandioca ou batata-doce". Fiquemos por aqui em citações. Isso é o fúnji em Angola. O que conhecemos e usamos muitíssimo em municípios da zona da Mata em Pernambuco é diferente. Esse fúnji a que me refiro é prato específico de massa de mandioca. Massa molhada fresca, e não a farinha torrada nas casas de farinha, da mandioca espremida na hora. O fúnji usual é preparado com a mesma massa com que são feitos os bolos de São João e leva leite de coco e alho como tempero. O fúnji é prato para acompanhar bacalhau assado e era prato popular no tempo em que bacalhau era comida de pobre. O fúnji é de fácil preparo. Basta que se tenha massa de mandioca bem lavada e bem espremida. Em fogo lento mistura-se a massa de mandioca com o leite de coco, sal e um dente espremido de alho. Mexe-se até dar o ponto, coisa que cozinheira sabe fazer. Deve ser feito (aliás como o pirão cozido) na hora de ir para a mesa. Quem comeu o fúnji com bacalhau assado jamais o esquecerá. Esse presente angolano nessas características pernambucanas é prato que deve ser preservado. Que o professor Nelson Chaves o estude em seu aspecto nutricional e teremos bases para divulgar a receita e o seu valor alimentar. No caso do bacalhau haver subido astronomicamente de preço, inacessível ao consumo popular, podíamos substituí-lo pela cambinda.

Renato de Almeida, em seu Manual de coleta folclórica nos dá detalhadas instruções para colher usos e costumes de cozinha regional. Um livro de caráter folclórico no capítulo alimentação seria de grande valor não só do ponto de vista folclórico como do nutricional. Uma boa política alimentar deve basear-se em usos e costumes alimentares regionais. O nosso país vasto como é, há de ter uma grande variedade de pratos de usos seculares, pratos feitos com farinhas não desvitalizadas pela industrialização que urgem ser estudados, preservados e difundidos.

Os pirões e fúnjis angolanos não dispensam o óleo de palma ou de dendê. Luís da Câmara Cascudo nos diz que o fúnji instalou-se no Nordeste, mas que nunca o viu da Bahia para o centro sul do Brasil. Mas não nos dá a receita do fúnji usado no Rio Grande do Norte ou outros lugares.

O termo angolano fúnji é abrasileirado em funje, e tomado, genericamente, (como pirão também) em comilança, passadio, comes e bebes. Assim pode dizer-se "vou provar do seu pirão ou do seu funje".

(Delouche, Angela. "O funje e o pirão". Jornal do Comércio, Recife, 20 de novembro de 1966)

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