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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
Deste calango eu conhecia variante, em Caçapava, através do calanguista João Félix
e do sanfoneiro José Romão. Mas, relativamente à palavra de que se extrai o atrovo,
isto é, a rima em ão, meu entendimento teve de ser reformulado ao discutir o caso
com o Vilela. É que sob o nome de barandão se conheceu certo instrumento destinado a
apanhar papagaios no tempo em que estas aves constituíam uma praga nos campos de
palntação. Era uma espécie de boleadeira gaúcha. Constava de fios com pedras presas
às pontas. Lançado o instrumento no meio de um bando, os fios se enroscavam nas pernas,
e vários papagaios se capturavam de um lanço. No entanto, o cantador dos versos abaixo
transcritos, rejeitando a conotação que eu queria estabelecer, disse-me saber desde
menino que tal calango foi inventado em homenagem ao êmulo de José do Telhado, ou seja:
o bandido português de nome João Brandão. Ora, as façanhas desse famigerado salteador
lusitano registradas em livretos populares tiveram, realmente, larga divulgação no
Brasil, do modo como tem acontecido com os facínoras nacionais Cabeleira, Zé do Vale,
Antonio Silvino e tantos outros sinistros heróis da literatura de cordel. É, pois, de
todo procedente a informação do experimentado calangueiro joseense. A mesma palavra
B(a)randão denota a presença da figura anaptixe, caracterizada pela
intercalação vocálica entre duas consoantes. Está claramente visto que no universo
caipira se ignora a expressão erudita; mas a figura é freqüentemente usada porque tem
como função facilitar a pronúncia de um sem-número de vocábulos. Destarte,
"Barandão" vem a ser "Brandão" sobrenome do legendário
português que, expoente da inquieta vida facinorosa, não podia ser um molóide mas,
antes, possuir as ligeirezas do próprio calango. Isto posto, leiam-se os versos.
"Mais tô falando na linha do barandão
Muié sem cabelo é home
Home sem cabelo é João
Ninguém viu o que eu vi hoje
Lá na rua da Estação
Vi um corvo de boné
Vistido de macacão
Tava sentado no volante
Dirigindo um caminhão
O sapo que era mais forte
Puxava o breque de mão,
Puxava o breque de mão.
Sou ligeiro igual curisco
Tenho força igual leão
Já durmi na mata virge
No meio da iscuridão
Não tenho medo de nada
Deus é minha proteção
Ajudo só quem merece
Resolvo qualquer questão
Cantadô, cantá comigo
Morre sem vela na mão,
Ôi... morre sem vela na mão.
Agora que tô falando
Na linha do barandão
Eu já subi lá do céu
Conversá com São João
Peguei os anjos de tapa
São Pedro de pescoção
Quando cheguei lá no céu
Me causô dimiração
Lá vi sinhor São Pedro
Tava de chave na mão
Careca de barba branca
Revolvo no cinturão
Com seu capote comprido
Encostado no portão
Pensei que era guarda-noturno
Aqui da nossa povoação,
Aqui da nossa povoação.
Que lambari não sobe serra
Nem travessa paredão.
Nunca vi morro sem grota
Nem grota sem buquerão
Não tenho medo de nada
Deus é minha proteção
Não tenho medo do raio
Nem do ronco do truvão
Para livrá do pirigo
Tenho boa devoção
Eu grito por Santa Barba
Ponho meu joêio no chão
Que o raio chuto co pé
Curisco pego ca mão.
Ôi...
Me chamo Ernesto Vilela
Cabra de bom coração
Que eu não dô consêio má
Eu só dô consêio bão
Na terra de gente cego
Cavalo preto é lazão
Cachorro cotó não passa
Na ponte sem guarda-mão
Moça que namora padre
Não alcança sarvação
Vira mula-sem-cabeça
Sexta-feira da Paxão
Terrero que tem galinha
Barata não tem razão
eu dexei de bebê pinga
Prá livrá da confusão
O dia que eu bebo pinga
Eu faço trapaiação
Faço igreja virá venda
Faço altá virá balcão,
O padre virá caxêro,
Santo virá garrafão.
Fui nascido na cidade
Fui criado no sertão
Cabra que pegá comigo
Morre sem vela na mão,
Ôi... morre sem vela na mão.
(Silva, Francisco Pereira da. O desafio calangueado: monografia folclórica.
São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978) |
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