Ano V - julho  2003 - nº 59

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 59
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)O encontro do negrão com o monstro do Rio Negro, por Manuel Caboclo e Silva.

setaquad.gif (95 bytes)O noivo pronto, do cancioneiro guasca, registrado por Simões Lopes Neto.

setaquad.gif (95 bytes)O calango da linha do barandão, por Ernesto Vilela.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


O NOIVO PRONTO


Boa tarde, seu vizinho!
Bati como três vezes na cancela
Como ninguém mandou entrar
Vai... e foi... eu abri e enrei por ela

Pelo jeito... passa bem?
E também a obrigação?
Se lhe pergunto estas cousas!
É só por estimação

Ora pois, aqui me tem
Assim um tanto avexado
Por ter o que lhe dizer
Sem saber dar o recado

Vindo aqui na sua casa
Não lhe venho visitar
Mas somente lhe dar parte
Que breve vou me casar

Estou de um tudo preparado
Nada me falta pra festa
Apenas uma camisa
Mais engomada que esta

Também lhe venho pedir
Seu lencinho de pescoço
Pra ver se naquele dia
Fico o mais bonito moço

Se não lhe faz desarranjo
Suas calças e colete
Pra não fazer má figura
Junto de meu ramalhete

Também lhe peço emprestado
Seu casaco e seu chapéu
Pois quem vai pra se casar
Vai pro caminho do céu

E pr’acompanhar a fatiota
Suas botas e as esporas
Minha mãe fica contente
Por causa das outras noras

Ora, depois de vestido
O pó da estrada me suja
E não quero que por isso
A minha noiva me fuja

Por isso também lhe peço
O seu cavalo tostado
Com este ginete em cima
Verá como ele é gabado

E peço que ele vá pronto
Com seus aperos de prata
O casar não custa nada
Quando o noivo se precata

E para encerrar a festa
Tendo a gente algo que morda
Também lhe peço emprestada
Uma terneira bem gorda

Só faltou dizer agora
Quem minha noiva vai ser
Se o meu vizinho consente
É o que me resta saber

Tenho cavalo e arreios
Traje, terneira e vontade
Agora lhe peço a mão
De Rosinha, essa beldade

Se consente em ser meu sogro
Pouco mais tenho a pedir
Cama e mesa e sociedade
No lucro feito e por vir

Nos tempos que vão correndo
Ninguém se deve amarrar
E eu esqueço tudo, tudo
Pra co’a Rosinha casar

E diga, no soflagrante
Se devo me retirar
Se a Rosinha não me pega
É capaz de se matar

E apenas por dever
De não provocar tristezas
Lhe peço esse ajutório
Apenas de miudezas

E como consente e cala
É que vou por bom caminho
Pra completar o serviço
Seja também o meu padrinho

(Lopes Neto, J. Simões. Cancioneiro guasca; antigas danças, poemetos, quadras, trovas, dizeres, poesias históricas, desafios. Porto Alegre, Editora Globo, 1954. Coleção Província, 6, p.160-162)

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