Ano V - julho  2003 - nº 59

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 59
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)O encontro do negrão com o monstro do Rio Negro, por Manuel Caboclo e Silva.

setaquad.gif (95 bytes)O noivo pronto, do cancioneiro guasca, registrado por Simões Lopes Neto.

setaquad.gif (95 bytes)O calango da linha do barandão, por Ernesto Vilela.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


O ENCONTRO DO NEGRÃO COM O MONSTRO DO RIO NEGRO

Manuel Caboclo e Silva


Quem gosta de ouvir história
De cabra bom no facão
Se prepare pra ouvir
Briga, luta e confusão
O monstro do Rio Negro
Agarrado com o negrão

Este caso aconteceu
No outro século passado
Quando se vendia gente
Nas calçadas do mercado
Como hoje o boiadeiro
Vende boiada de gado

Em um navio negreiro
Este negrão foi comprado
Com o nome de Sulino
O documento passado
Como era peça ruim
Só vivia acorrentado

Era muito depravado
E cheio de confusão
Mentiroso e desordeiro
Perigoso e valentão
Para tomar mulher alheia
Tinha a gota no facão

Quando ele tinha uma fuga
Uma mulher conduzia
Levando ela nos braços
Dentro da mata escondia
Mas quando dava um cochilo
A dita mulher fugia

Um certo dia Sulino
De uma senzala fugiu
Arrebentou a corrente
Quebrou o tronco e saiu
Roubou umbom armamento
Ligeiro se escapuliu

Fugiu por um esquisito
De serra e despenhadeiro
Escalou uma montanha
Desceu pelo tabuleiro
Foi sair lá na fazenda
Do coronel João Carneiro

E este tal coronel
Era um rico fazendeiro
Político que tinha fama
Pela força do dinheiro
Tinha uma escravatura
E um grupo de cangaceiro

A esposa era Lindalva
Filha do governador
Irmã de um deputado
Afilhada de um doutor
De uma família nobre
Gente de muito valor

Chegando o mês de novembro
Formaram a reunião
O coronel convidou
O povo da região
Pra todos irem votar
No dia da eleição

A sua esposa Lindalva
Estava adoentada
Pediu-lhe para ficar
Em casa com a criada
Repousando na fazenda
Como era acostumada

Sozinhas ficaram as duas
Lindalva com a criada
Conversando na varanda
Nenhuma pensava em nada
Quando avistaram um negro
Lá na volta da estrada

O negro bateu na porta
Com as costas do facão
E mostrou para a mulher
O saco de munição
Foi dizendo: — Boa tarde
Dona, cadê o patrão?

A mulher ficou pasmada
Todo corpo lhe tremeu
Mudou a feição do rosto
De repente esmoreceu
Ali mesmo desmaiou
Nada mais compreendeu

Os lindos cabelos soltos
Por sobre o rosto caiu
O negro muito atrevido
Logo aí se dirigiu
Pegando ela nos braços
Com muito jeito saiu

Foi indo pela estrada
Logo desapareceu
Na furna de uma serra
A mulher ele escondeu
E disse para a mulher:
— O seu marido sou eu

Disse mais: — Tenho fome
E a sede me devora
Mulher, você fique aqui
Enquanto eu vou lá fora
Vou buscar água na fonte
E volto na mesma hora

Saiu pensando consigo:
— Agora estou firmado
Com armas e munição
Mulher bonita ao meu lado
Sem ser pesado a ninguém
O que é bom tá guardado

Lindalva ficou sozinha
E muito além escutava
O cantar da Mãe da Lua
Que pela serra escoava
Nisto um monstruoso tigre
Dela se aproximava

Aquela fera esquisita
Foi logo avistando ela
Rosnando e franzindo a testa
Avançou em cima dela
Rasgou-lhe a roupa e depois
Sangrou-a no pé da goela

Sulino vinha voltando
Ligeiro na furna entrou
Os retrassos de Lindalva
Foi só o que encontrou
Nunca chorou por ninguém
Desta vez ele chorou

Olhando, vendo o cadáver
Pelo chão esfarrapado
O resto do seu vestido
Todo em tiras transformado
O lugar onde ela estava
Em sangue todo banhado

O negro ficou danado
E pulou na mesma hora
Gritando: — Onça da peste
Tu vai me pagar agora!
Bateu a mão no facão
Saltou pro lado de fora

Rangia um dente no outro
E de raiva se mordia
Passava o facão na pedra
Que a labareda cobria
Virava pedra no ombro
Que a terra estremecia

Era o cair da tarde
O negro de prontidão
Gritava: — Apareça onça
Pra eu cortar no facão
Desta vez não vai ficar
Uma onça no sertão

Era só chegando onça
Avançando pro negrão
Mas ele estava no ponto
E manobrava o facão
Matou vinte e quatro onças
Nesta mesma ocasião

Deixou a carnificina
Danou-se no tabuleiro
Saiu cortando montanhas
Caverna e despenhadeiro
Pisando sem deixar rastro
Pra não deixar o roteiro

Deixamos agora o negro
Fugindo do mundo afora
Vamos voltar pra fazenda
Para sabermos agora
O que fez o coronel
Quando soube da história

Passadas as eleições
Voltou à sua morada
Perguntou: — Cadê Lindalva?
Lhe respondeu a criada:
— Um negro a carregou
Seguiu pela aquela estrada

Disse ele: Isto não
Só pode ser uma cilada
Em voz alta gritou:
— Negra infame desgraçada
Ou tu me fala a verdade
Ou eu te mato queimada

A escrava ajoelhada
Desta forma assim falou:
— Eu estava na cozinha
Na sala um negro entrou
Dona Lindalva ali mesmo
Sobre o sofá desmaiou

O negro muito atrevido
No seu rosto foi beijando
Colocou ela nos braços
E foi logo carregando
Ainda vi quando ele
Pela mata foi entrando

Nestas vozes o coronel
Quase que enlouqueceu
Disse: — Vamos pegar ele
Quem mata o negro sou eu
Quero saber que as cinzas
De água abaixo desceu

E naquela mesma hora
Formou o acampamento
Reuniu a cabroeira
Preparou o armamento
Seguiram uns a cavalo
Outros montados à jumento

Veio um capitão de campo
Que os negros rastejava
Com seis meses conhecia
Por onde o negro passava
Somente pela catinga
Sabia onde o negro estava

Seguiram bem armados
Toda aquela cabroeira
Uns iam pela estrada
Outros pela cordilheira
Entrando de casa em casa
Que tinha pela ribeira

Com seis meses de jornada
E negro foram avistando
Lá na fazenda Sergipe
Aonde estava morando
Nem sequer se indomodou
Quandoa tropa foi chegando

O capitão disse: — Avança
Peguem o negro ladrão
O coronel disse: — Deixem
Eu quero pegá-lo à mão
O negro disse: — Se aquietem
Eu não sou de confusão

Começou o pega-pega
Nesta mesma ocasião
A cabroeira no tiro
E o negro no facão
Tinha cabra ainda em pé
E o fato estava no chão

O negro na cabeçada
Como cobra dava bote
E o capitão de campo
Foi no segundo pinote
Aonde o facão passava
Deixava morto um magote

Botaram cerco e mais cerco
Fecharam de lado a lado
Deixaram o negro no meio
Lutando desesperado
Cada coice era uma queda
Cada queda era um finado

Sulino na pontaria
Num tiroteio cerrado
Abriu o fogo e correu
Fedendo a chifre queimado
Atravessou a fronteira
Foi ficar no outro estado

Numa cidade em Sergipe
Ele chegou assanhado
Meteu o peito nas bancas
Foi caco pra todo lado
Deu meia dúzia de tiros
Insultando o delegado

Entrou pelos armazéns
Fez a maior bagaceira
A polícia desertou
E o povo na carreira
O negro ficou sozinho
Vadiando na peixeira

Não teve com quem brigar
Seguiu pela rua afora
Tinha um cavalo selado
Ele aí na mesma hora
Montou-se em cima da sela
Deu adeus e foi embora

Bem perto de um povoado
Numa serra se escondeu
Deu soltura ao cavalo
Logo desapareceu
Numa casa de fazenda
Pediu café e bebeu

Sulino pensou um meio
Para não ser descoberto
Era fazer uma cruz
E botar lá no deserto
Passava o dia rezando
Ajoelhado ali por perto

Fez uma cruz e botou
Secreto que ninguém viu
Pra uma lavanderia
O negro se dirigiu
Lá roubou uma batina
Ligeiramente vestiu

Chorando no pé da cruz
O negro passava o dia
De mãos postas, ajoelhado
Desta forma assim vivia
Só não fazia rezar
Porque rezar não sabia

Com a história da cruz
O povo fez romaria
Todos iam visitar
Aonde o negro vivia
Alguém lhe dava esmola
Mas ele não recebia

Quem chegava ali só via
Ele fazendo oração
Por debaixo da batina
Tinha um grande matulão
Aonde estavam guardados
Um revólver e um facão

Assim passava os dias
No pé da cruz a orar
O dia na penitência
A noite para roubar
O tempo que lhe sobrava
O facão ia amolar

Distante umas trinta léguas
Outro negro ali vivia
Morando dentro da lama
Só pela noite saía
Roubava e matava gente
Dentro da lama escondia

Chamava-se Rio Negro
Pelo pai amaldiçoado
Porque matou a irmã
Estrangulou um cunhado
Fez a maior bagaceira
Incendiou o cercado

Toda sorte de desgraça
Fazia na vizinhança
Matava mãe de família
E carregava a criança
Todos tinham medo dele
Ninguém fazia vingança

Quando Rio Negro soube
Que lá no monte existia
Um negro no pé da cruz
Que uma batina vestia
Coberto de sensatez
Com a maior covardia

Ele disse: — Agora mesmo
Vai haver revolução
Preparou seu bacamarte
Arrumou a munição
Montou-se no seu cavalo
E seguiu na direção

Com dois dias de viagem
Lá no monte foi chegando
Deu um risco de cavalo
Foi logo se desmontando
E a sela do cavalo
Em Sulino foi botando

Quando o negrão sentiu
Nas costas a sela bater
Faíscou fogo dos olhos
Começou a se morder
Deu um esturro tão grande
Que fez a serra tremer

Os dois aí se agarraram
Haja soco, haja rasteira
Haja tiro, haja pancada
Era a maior bagaceira
Com quinze léguas se via
O cardume de poeira

Lutando aqueles dois negros
Quebraram logo o cruzeiro
Desceram de serra abaixo
Com o maior desespero
Rolando pedras enormes
No grande despenhadeiro

Lá no pináculo da serra
Raios de fogo desceram
Partindo os negros em pedaços
Desta vez eles morreram
Caíram dentro de um rio
De água abaixo desceram

No lugar que tinha a cruz
Hoje um letreiro ainda tem
Dizendo: "Quer ser feliz
Não faça mal a ninguém
Ame a Deus e honre os pais
Que a vida vai muito além"

Deus escrece até nas pedras
Mas a palavra não erra
Vejam que o raio desceu
Matou os negros na serra
Assim pagaram os crimes
Que fizeram aqui na terra


* * *

Manoel Caboclo e Silva
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O freguês é atendido
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Levando o mais preferido

 

(Santos, Olga de Jesus; Viana, Marilena. O negro na literatura de cordel. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1989. Literatura Popular em Verso, Estudos / Nova série, 7, p.120-131)

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