Se a promessa
de Cristo, contida nesta frase: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de
justiça" servir também para os animais, quem vai fazer maiores reivindicações, em
futura existência, é o gato. Sim, porque essa história de dizer que o pobre bicho
maltratou Nosso Senhor na cruz, não está comprovada em nenhum documento.
Ao que parece, tudo é invencione de quem gosta dos cães. E longe de nós a idéia de
censurar o amor por esses recordistas da afeição na terra! Longe de nós. Mas também
não é justo que, só para salientar a virtude de um, se lancem aleivosias contra o
outro. É bem verdade que o gato não tem a mesma capacidade de dedicação do cachorro.
Mas não é por isso que se devem criar lendas, abusões, superstições sobre o coitado
do bichano.
Vamos dar um mergulho no passado e rebuscar um pouco do que se tem inventado sobre o gato.
O nosso folclore está cheio de coisas deprimentes para ele. Ver um gato preto dá azar.
Como se o preto não fosse a ausência total da cor, e portanto, nada, nirvana, isto é,
felicidade suprema. Para uma moça, pisar o rabo de um gato quer dizer que não vai casar.
E assim por diante. Sempre que se fala em gato, vem logo em seguida alguma referência
nociva para alguém. Essa associação da ruindade com o gato culminou numa superstição,
muito difundida em alguns estados do país, onde existe um bicho-papão, denominado
"alma de gato". Que é o alma de gato? Mal comparando, parece o dinheiro. Todos
falam nele, mas ninguém sabe onde está. Se alguém não acredita nesta afirmação, pode
fazer a experiência: fale no assunto, e logo haverá meia dúzia de pessoas que se
queixam da carestia da vida, da dificuldade em ganhar a vida...
Pois o alma de gato é como o dinheiro, um fantasma em que todos pensam, que ninguém
encontra. Ninguém o vê, nem sabe de que maneira pode defini-lo. É uma assombração
assustadora, dominadora, onipresente... Ora, um perigo que não se sabe ao certo o que é,
naturalmente fica muito mais perigoso. Pelo menos, o medo cresce em proporção do
desconhecido. E é por isto que o alma de gato é tão apavorante, fazendo com que as
crianças obedeçam, por temor ao felino fantasma... Esta superstição data de épocas
muito antigas no Brasil.
E onde estará a razão dos defeitos que
toda gente gosta de apontar no gato? Talvez sua egolatria se tenha desenvolvido
excessivamente, naqueles remotos tempos faraônicos, em que tais miadoras criaturas
mereciam honrarias de deusas. |

Mas, se não quisermos procurar tão longe a origem da sofisticação antipática do
gato, talvez a encontremos aqui mesmo no Brasil, na lembrança dos tempos em que um par de
gatos valia uma libra de ouro...
Foi ainda nos tempos coloniais, em que os paulistas se metiam pelos sertões, alvoroçados
pelas lendas criadas a respeito do ouro. Metiam-se pelos sertões, eram devorados pelas
feras, mortos pelas flechas dos índios, naufragavam nos rios, sucumbiam ao veneno das
cobras ou aos dentes das onças... E, se conseguiam atingir um lugar em que esperavam
encontrar ouro, e ali faziam acampamento para plantar o que iria constituir sua
alimentação de muitos meses, como aconteceu em Cuiabá, o perigo que os cercava era
outro. Vamos citar Capistrano de Abreu: "O milho, antes de brotado, era comido pelos
ratos. As ratazanas eram tantas, que um casal de gatos foi vendido por uma libra de
ouro..."
"Não há nada como um dia depois do outro" dirão os bigodudos de quatro
patas. "Todos falam mal de nós. Mas, quando aparecem os ratos, o melhor meio de
combater a praga ainda somos nós."
E é verdade. É preciso fazer justiça, e dar um certo destaque ao papel desempenhado
pelos bichanos, no auxílio aos nossos desbravadores da terra. É justo que haja mais
complacência para com essas pequenas criaturas de Deus. Não têm culpa se se parecem com
um tigre, pela astúcia, pela indiferença para com o semelhante, pelo egoísmo. Sim, o
principal crime do gato é ser egoísta. Grande crime, o pior, sem dúvida, que possa
cometer alguém sobre a terra. E, se alguém tem a coragem de atirar a primeira pedra, é
porque nós, os humanos, sabemos ocultar o nosso egoísmo com mais habilidade do que
nossos irmãos, os gatos, escondem suas unhas...
("Nossos irmãos, os gatos no folclore e na
realidade". Folha da Manhã, 25 de junho de 1952) |