| Edison Carneiro
O ensaio do professor Renato Mendonça sobre A influência africana no português do
Brasil é, no assunto, o que de melhor possuímos. Os capítulos dedicados à
fonética e morfologia do quimbundo e as transformações do português no Brasil sob a
influência negra são alguma coisa de sério, possível apenas nos homens em quem o
espírito científico é como uma segunda natureza. Outros capítulos, como os dedicados
à linguística africana e ao tráfico negreiro, atestam a probidade científica do autor.
Pena que o professor Renato Mendonça, que dá o quimbundo como língua dos povos bantus
no Brasil, nada diga sobre o nagô (ou yorubá), língua geral entre os povos sudaneses.
Mas o professor Renato Mendonça às vezes se arrisca a aformações ousadas. Diz ele, por
exemplo, que já não se fala mais africano nas macumbas. E se o professor Renato
Mendonça viesse à Bahia? Aqui o nagô se usa mesmo na conversação comum...
Há no capítulo dedicado à influência africana no português, uma alusão ao "s
prospectico, nascido da ligação na frase" e a afirmação de que, dos negros,
nada ou quase nada ficou no modo de falar do brasileiro, que mereça
especial atenção. Sobre o primeiro, tenho a notar que, pelo menos na Bahia, há um
plural de que, sempre que o substantivo que o acompanha nas frases exclamativas
indica plural, embora este se conserve invariável, como na exclamação seguinte:
Ques galinha!
Também, não será negro o costume de fazer desaparecer o artigo em certas frases? Por
exemplo, nesta:
Polícia apareceu, negro se pregou...
Em nagô, e suponho que nas línguas a ele aparentadas, no singular os substantivos não
levam artigo. No português de Portugal também há disso, mas não se trata do artigo
definido (E aqui "negro", que evidente está no plural, ou pelo menos banca o
substantivo coletivo, também não leva artigo...). Em todo caso, cabe aos técnicos
resolver a questão...
Adiante, o professor Renato Mendonça modifica as lendas africanas sobre o nascimento dos
orixás, fazendo Xangô brotar do seio de Olorum... descuido?
Já no vocabulário, o professor Renato Mendonça garante que, "em yorubá, o s
corresponde a um fonema chiante equivalente ao nosso ch". Não é totalmente
exato. Em nagô, há dois s, um dos quais corresponde ao nosso s (mais
exatamente, ao nosso s duplo) e o outro ao nosso ch.
Todas as vezes que o professor Renato Mendona procura refutar as afirmações de Nina
Rodrigues, a gente acaba sempre por dar razão ao velho professor de Medicina Legal...
Taí no caso do totemismo entre os povos maometanos no Brasil.
* * *
Vejamos agora o vocabulário de termos africanos que vem
acompanhandoo texto.
Entre as palavras das quais o professor Renato Mendonça nos dá uma explicação
limitada, insuficiente, destaco as seguintes:
Aluá, na Bahia, faz-se com a casca do abacaxi, deixada dentro de uma
garrafa ou outro vaso qualquer, com água, para fermentar.
Ayê, em nagô vida, era usada, antigamente, na expressão ilu
ayê, terra de vida, com a qual os escravos designavam a África. Para os africanos,
havia a expressão ará ilu ayê, gente da terra da vida.
Babalaô, sacerdote de Ifá, é o adivinhador entre os negros, espécie de
vidente, de ledor do futuro, e se serve de búzios, ôbi, orobô, pimenta da
Costa (ataré) e rosário (opelê-ifá).
Batuque, na Bahia, é um pequeno recipiente de rapé (cornimboque) e
ainda, na gíria, o membro viril.
Cacumbu, na Bahia, é também o resto da faca nova, ou inteira,
às vezes. Chamam-se ainda cacumbus os homens pequenos.
Calunga (ver Mário de Andrade, "A calunga dos maracatus", Boletim
de Ariel, dezembro de 1935, trecho de seu trabalho agora publicado nos Estudos
afro-brasileiro, edição Ariel, 1935, e Artur Ramos, O negro brasileiro,
p.84-85) pode ser tanta coisa, além de boneco...
Candomblé, hoje, muitas vezes significa o próprio terreiro, onde se
realizam as práticas fetichistas dos negros.
|
Ebó é um
ex-voto, distinguindo-se, por isso mesmo, do despacho.
Mocotó, na Bahia, além de significar mãos e pés de animais como o boi, o
porco, etc., ou de gente mesmo, é ainda o nome de uma comedoria muito afamada da
culinária baiana.
Ilu, em nagô, significa terra.
Nagô não foi um nome dado pelos baianos aos negros de yorubá, mas pelos
franceses, na África.
Obá, não é príncipe, mas rei, em nagô, havendo ainda uma orixá, Obá,
mulher de Xangô, que não possui nenhum culto organizado no Brasil.
Oku, morrer, tem um homógrafo-homófono que entra no bom-dia dos nagôs (oku
assan).
Opelê (e não opelé, como está no vocabulário) é o rosário de
Ifá, usado pelos babalaôs.
Quenga, não só na Bahia, como no norte do Brasil, significa mulher
pública, rameira, dessas de baixa cotação.
Entre aquelas que, ao meu ver, precisam de uma revisão séria, anoto as seguintes:
Agogô, relógio, e não sino, tem uma significação ampla, todos os
instrumentos de metal que produzam som, podendo levar esse nome. O termo é, aliás,
corruptela de akokô.
Desbundar, desandar, dar embarulho, nada tem a ver com a significação que
lhe dá o autor.
Yawô é a pretendente a filha-de-santo, a noviça, e é termo nagô, onde
significa noiva e esposa ao mesmo tempo.
Mugunzá (munguzá, mucunzá) não se pode confundir com a
canjica, nem é somente mssa de milho cozido, mas também líquido, de milho branco cozido
em água, sal e coco. Ainda tem o nome popular de chá-de-burro.
Ogan, e não ougan, não é nem chefe, nem sacerdote graduado, mas
apenas sócio do candomblé.
Haverá alguém, no Brasil, que prefira a forma africana puíta à
brasileira cuíca?
Xexeré, e não xequerê, é o chocalho especial de Xangô, usado
para invocá-lo nos candomblés.
E mais, Zambi, com acutização, ou Zámbi?
Mais alguma coisa sobre o vocabulário.
Anamburucu (Nanamburucu, Nanan), divindade das águas, não é
exatamente a mãe-dágua, mas a mãe da mãe-dágua, a mais velha das
mães-dágua, por isso identificada com a senhora Santana.
Cambada, não é somente termo mineiro, mas baiano também.
Engambelar não tem somente por área geográfica Pernambuco, estendendo-se
também à Bahia, sob a forma engabelar, o que também acontece com gongolô
(Maranhão), que, sob a forma gongôlo, significa, na Bahia, barulho, confusão,
pandemônio.
Irocó não pode vir de "roco, árvore milagrosa", pelo simples
fato de não existir essa palavra em nagô. Há Irôko, a gameleira branca, hoje
adorada como deus, ou Lôko, como a chamam os jejes. A forma Rôko (o r
continua brando) existe na Bahia, corruptela de Irôko.
Sacuê (por aqui se diz sacué) tem ainda, na Bahia, os nomes de tou-fraco
(de origem onomatopaica), conquém, etc.
Xaponan (ou, melhor, Saponan, em jeje) já é corruptela de Xampanan,
havendo hoje, na Bahia, a forma Xapanan.
Outras palavras africanas muito em voga não vem no vocabulário. Por exemplo, ekedi,
feminino de ogan, bozó, feitiço (do termo tshi bosum, santo?), cucumby,
festa totemica dos negros bantus na Bahia, etc. etc.
* * *Apesar, porém, desses erros e dessas
deficiências, o ensaio do professor Renato Mendonça, merece os mais calorosos elogios.
Trata-se, sem dúvida nenhuma, de obra de indiscutível valor. Possivelmente, numa outra
edição, corrigidos os defeitos atuais, aumentando o texto com um capítulo sobre o
nagô, este A influência africana no português do Brasil se torne o livro número
um, o livro indispensável a qualquer pesquisa semelhante. E, para falar a verdade, mesmo
assim como está, falta-lhe muito pouco para isso. |