Jangada Brasil – julho 2003 – nº 59 – Palhoça – Fraseado de botequim

FRASEADO DE BOTEQUIM

Alceu Maynard Araújo


Antigamente as fórmulas para não vender fiado existentes nas casas comerciais e muito mais nos botecos, eram desenhadas, pintadas nas paredes, letras feitas à mão. A arte foi substituída pela fórmulas impressas. Há tipografias que utilizam os mais variados modelos, entretanto o mais comum é um cartão branco com a impressão tipográfica em letras garrafais de uma frase feita.

Trabalhos artísticos de outrora e papeletas impressas de hoje, ficam atrás do balcão em lugar visível para o freguês que não sendo analfabeto não peça fiado. Fraseado de botequim, adotado também em boas casas comerciais das capitais.

“Freguês educado não cospe no chão, não pede fiado e não diz palavrão.”

“Fiado?
Só em dia feriado
Que o boteco tá fechado.”

“Não passe sem parar,
não pare sem entrar
não entre sem comprar
não compre sem pagar.
Para servi-lo aqui estou,
trabalho e não sou folgado
de amigo, parente e doutor
foi cortado o nosso fiado”

“Não passe sem parar
não pare sem entrar
não entre sem gastar
não saia sem pagar.”

“Ele de vender fiado ficou assim.”

“O fiado me dá pena
e a pena me dá cuidado
me vejo livre da pena
não lhe vendendo fiado.”

“Fiado só amanhã.” “Fiado? – Passe amanhã.”

“Fiado só se faz a um bom amigo
e o bom amigo nunca pede fiado.”

“Eu tenho vergonha de lhe dizer não, por isso não peça fiado.”

“Caldo de galinha é canja,
conversa não é valentia
tudo com dinheiro se arranja
nesta casa NÃO se fia.”

“Se vem por bem, entre
esta casa é sua,
mas se me pedir fiado
não entre, fique na rua.”

“Quem vende fiado se afunda
acaba pobre e desgraçado,
falando sozinho o coitadoC’as calça rasgadas na …”

Embora se modernize a apresentação do material das fórmulas de vender fiado — frases feitas — continuam os vates populares a colaborar nesse fraseado de botequim, havendo nela muitas referências a fatos mais ou menos recentes:

“Sou vítima da 204,
pra não ter negócio atrapalhado
e ficar andando de quatro
não renuncio, não vendo fiado.”

Nas fórmulas há sempre um elemento negativo: não peça, não vendemos, etc. Muitas vezes são as negativas das quais demos alguns exemplos; apenas uma positiva que Luís da Câmara Cascudo nos transmitiu oralmente e que Jaime Guimarães Wanderlei lhe contou em Natal, estado do Rio Grande do Norte:

“Para não haver transtorno
aqui neste barracão,
SÓ VENDO FIADO a corno
filha da puta e ladrão.”

(ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Edições Melhoramentos. v.3, p.185-186)

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