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Julho 2002
Ano IV - nº 47

MEDICINA, SUPERSTIÇÕES E CRENDICES

Relacionei algumas doenças e remédios usados na coletividade. Para estancar hemorragia, colocar sal ou açúcar diretamente no corte. Para estômago inchado, chá de erva cidreira ou três goles d'água morna, antes de dormir. Para vermes, chá de hortelã; lavar bem uma mão cheia de folhas de hortelã e cozinhá-las em um canecão d’água; tomar frio e sem açúcar.

Pessoa resfriada não pode tomar sol, lavar-se, passar água e chupar frutas. Para fazer um calmante de maracujá, cozinhar doze folhas de maracujá num litro d’água; quando a água começar a ferver, juntar três punhados de açúcar; deixar numa garrafa bem fechada, durante uma semana; tomar meia caneca, após as refeições. Para dor dos rins, cozinhar quebra-pedra junto com um punhado de cabelos de milho e uma folha de lima; fervida a água, deixar esfriar, conservando os ingredientes dentro. Tomar até desaparecer a dor.

Para anemia e tosse, chá de beterraba, cortada em rodelinhas bem fininhas, põe-se a beterraba numa panela com um litro d’água e dois punhados de açúcar. Deixa-se ferver até transformar-se num xarope; tomar duas colheres de sopa ao dia. Para dor de dentes colocar alho, pedacinho de fumo ou pedrinhas de sal no dente dolorido.

Para prevenir infecções, cortar o umbigo ou cordão umbilical do recém-nascido com uma tesoura virgem e enterrá-lo, imediatamente, debaixo de uma moita, onde ninguém passe. Para acalmar as dores do parto, é bom tomar banho bem quente, continuamente até que nasça a criança.

Para descer a menstruação com atraso de um a três meses, colocar numa garrafa de vinho tinto umas seis orelhas de pau, alguns ramos de arruda, um raminha de hortelã, quatro pedaços de canela e alguns cravos. Fechar a garrafa e enterrá-la num lugar que não tome sol, por um mês. Depois de um mês, abrir a garrafa e tomar todos os dias um cálice desse vinho até que apareça a menstruação.

Para tosse e rouquidão, chá de hortelã bem verdinha, meia caneca de açúcar. Colocam-se numa panela essas ervas com um pouquinho d’água e o açúcar, deixar cozinhar até virar um melado. Quando estiver frio, por num vidro e tampá-lo bem quente. Tomar uma colher das de sopa todas as noites enquanto tiver tosse.

A mulher de Manoel Gordo faz, para si, a seguinte medicação: prepara um banho de corpo inteiro, bem quente, e com álcool; serve para dor do corpo, mau olhado e gripe. Ela ferve duas panelas de água que tempera para ficar tépida numa bacia e, ao entrar no banho, despeja sobre si uma boa caneca de álcool. Banha todo o corpo, inclusive a cabeça e sai da água, antes que ela esfrie. Este banho deve ser feito à noite, para que o doente vá diretamente para cama, a fim de não tomar frio.

Pevide é uma doença que dá nas galinhas, deixando-as fracas, (é uma película que aparece na língua de algumas aves, e que, impedindo-as de beber, pode causar-lhe a morte). É fácil saber, pois elas ficam deitadas, à sombra, o dia todo. Maria, faz o diagnóstico: "quando a galinha tem pevide fica com a língua branquinha". Para curá-la precisa passar-lhe cinza, na língua, até que a pevide caia. Quando um homem faz trabalho considerado impróprio para seu sexo, diz-se que tem pevide, significando que é fraco e de pouca resistência.

Para galinha entalada com pedaço de batata, há que encher-lhe o bico com milho e empurrá-lo com o dedo até que a galinha consiga escapar das mãos.

Para curar ferida em lombo de cavalo, deve-se lavá-la com água morna e colocar bastante cinza na ferida, e cobri-la imediatamente com um pano limpo. Fazer esse tratamento durante uma semana.

Segundo Maria, "na noite de Natal, o gado fala. Ninguém porém, pode entrar no curral, pois quem ouvir suas conversas morre na hora. Há muito tempo atrás, um homem fez uma aposta que iria até o curral, à noite, para ouvir a conversa do gado. Prometeu que voltaria logo, para contar o que tinha ouvido. Muitas horas se passaram e o homem não voltou. Aí, os amigos e parentes dirigiram-se ao curral e encontraram o homem morto. O homem não tem o direito de saber de conhecer o segredo que existe entre os animais e Deus."

Acredita-se que não se pode comer frutas ácidas, no exemplo do abacaxi, após a ingestão do leite; também não se pode comer mais de uma fruta ao mesmo tempo. Ao argumentar de que na cidade se usa fazer salada de fruta, a reação não se faz esperar: "Credo em cruz, vocês não tem juízo. Gente da cidade tem cada mania boba".

Quando uma mulher penteia os cabelos, não deve tirar os cabelos que ficam no pente e jogá-los fora. Precisa fazer uma bolinha com os cabelos e enterrá-los, para que não voem, caso contrário, a mulher fica avoada.

Acredita-se na cobra que mama. Diz-se que a jararaca gosta de leite materno. Por isso, quando uma mulher tem criança pequena, todas as noites, antes de ir para a cama, olha debaixo dos travesseiros e das roupas da rede da criança, para verificar se a jararaca não está lá. Embora ela não faça mal algum à criança, pode roubar-lhe o leite durante à noite, mamando na mãe.

Não se deve ter em casa roupa preta, pois é agouro e traz desgraça para a família.

Se o cachorro uiva à noite, é porque alguém da família ou da vizinhança vai morrer.

Se o galo cantar quando for para o poleiro, é porque algo ruim vai acontecer à família.

Não se põe galinha para chocar na época das chuvas, pois os ovos poderão gorar. Para evitar que gorem, quando há trovoada, colocar três pedaços de carvão no ninho da galinha ou fazer três cruzes, com carvão, sobre cada ovo.

A mulher menstruada não pode atravessar água nem tomar sereno na cabeça e sobretudo, tomar banho de corpo inteiro.

Para evitar mordida de cachorro, virar a roupa pelo avesso quando o cachorro está se aproximando.

Contra mau olhado e inveja na casa e na plantação, colocar uma ferradura de animal ou chifre de gado pendurados num esteio da casa.

Para desengasgar com espinha de peixe, chamar São Brás três vezes dizendo "São Brás do altar, me faz desengasgar". Pronunciada a frase, jogar um punhado de farinha na boca e engolir sem mastigar.

No Açu diz-se que, quando o homem bebe cachaça, fica com paludismo, branco, e à noite, se transforma em lobisomem. O lobisomem de Açu não é ruim.

Tamanduá é um homem ruim, que se transforma. Abraça as pessoas e luta com elas, rasgando-lhes as roupas. Quem vira tamanduá, pela manhã, apresenta pedaços de roupas nos dentes. Não pode ser espantado quando está lutando com suas vítimas, para evitar que ele as persiga até a morte.


(Lubatti, Maria Rita da Silva. O folclore na vivência atual de Açu, Marreca e Quixaba, Campos. p.55-58)

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