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Julho 2002
Ano IV - nº 47

PAJÉ

O médico, o padre, o oráculo, o depositário dos segredos do sobrenatural.

Exerce, cumulativamente, as funções mais variadas e delicadas. É ele que tem a chave dos mistérios do corpo. É ele quem sonda o mal, quem examina a moléstia, quem descobre a causa e combina a receita. Aos seus olhos, experimentados e argutos, as menores coisas se revelam. Até mesmo as inexistentes criam proporções colossais, avolumam-se, enchem de espanto o paciente, a família, a maloca, a tribo. Onde ele cisma, o mal aparece. Cria evidência.

É prodigioso e terrível na persuasão. Tão grande como o seu poder inventivo, só o poder curativo. A seu serviço estão todos os elementos da flora, da avifauna, a natureza toda combinando-se em pussangas, mezinhas, garrafadas, banhos, amuletos. Inspirado e atuado por entidades estranhas, que lhe emprestam uma autoridade incontrastável, irrecorrível, absoluta, o pajé é uma necessidade imperiosa nos núcleos primitivos, o manipulador de uma tradição que sobrevive nos "passes", nas "rezas" e em tudo o que a crendice popular herdou dos nossos antepassados indígenas. Mistura de mago, de charlatão, de adivinho, de conselheiro, representa um poder indiscutível, ante o qual se inclinam homens e mulheres.

Tanto nas tribos selvagens, como nas vilas e cidade onde estende a sua influência, o que diz o pajé tem força de sentença. Não se discute. Obedece-se. Por mais absurdo, ridiculo, impossível, adquire um cunho de veracidade mórbida. Ainda há poucos meses, em certa região do Pará, na vila de Condeixa, apareceu grávida uma rapariga. O pai levou-a a um curandeiro da zona para examiná-la. Este, usando dos atributos de sua mística, chegou à conclusão de que a criança era filha de uma cobra e que, como tal, assim que nascesse deveria ser restituída à origem. Obrigou o pai da moça a sacrificar a criança, jogando-a no rio onde se indicava a presença da misteriosa paternidade.

O fato revoltou a população do lugar e moveu a justiça contra semelhante precedente. Nem por isso descreditou, perante os ingênuos fiéis da pajelança, a figura sinistra do responsável pelo infanticídio. Porque aquilo que diz um pajé tem força de lei.

Encontram-se, ainda hoje, em Belém e Manaus, tipos curiosos, que se propõem a exercer entre gente civilizada, o mesmo papel reservado nas malocas ao paié dos indígenas. Em um dos admiráveis contos de Pussanga, Peregrino Júnior fixa, com grande poder de observação, a figura de um desses tipos, levando-nos a um dos famosos "consultórios" em que, até poucos anos, se praticava em Belém e Manaus a pajelança, disfarçada com outros rótulos, para efeito de publicidade e reverencia a polícia. Procedendo com certa cautela e procurando imprimir outros ares à profissão, existem no interior e na capital muitos curandeiros.

Estes substituíram e adulteraram, a seu bel prazer, as atividades que consagraram, em tempo, a figura do pajé. A técnica indígena emprestava a esse ente sobrenatural qualidades especialissímas. E exigia dele, em troca de sua confiança ilimitada, atributos e provas excepcionais. Na mística dos selvagens, não era pajé quem queria ser; mas quem possuísse determinados requisitos para ocupar o posto.

Só os fortes de coração, os que sabiam superar as provas de iniciação podiam aspirar a essa honra, esclarece Stradelli: "com menos de cinco fôlegos não há pajé que possa afrontar impunemente as cobras venenosas; é preciso ter mais de cinco fôlegos para cima, lêem claro no futuro, curam à distância, podem mudar-se à vontade no animal que lhes convém, tornar-se invisíveis e se transportar de um lugar para outro com o simples esforço do próprio querer"

(...)

Essa entidade, capaz de tais proezas, já não existe senão na longíngua tradição que nos aponta as suas características e possibilidades. Por isso dizia o velho Taracuá ao etnógrafo italiano: "Hoje não há mais paié; somos todos curandeiros".

E desta classe anda cheia a Amazônia prodigiosa e lendária.


(Orico, Osvaldo. Vocabulário de crendices amazônicas. p. 185-188)

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