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Julho 2002
Ano IV - nº 47

A FAZENDA JACOBINA

Às duas horas da manhã de 1º de setembro, reencetamos a marcha e, antes de despontar o sol, já demos conta de três novas léguas, e isto é dupla vantagem, porquanto nos poupamos à soalheira natural nas horas diurnas e não se enfraquecem tanto nossos cavalos. Fresca é a manhã e bela a paisagem, esta, uma planície de seis léguas. As montanhas ontem avistadas erguem-se, agora, à nossa direita. Invadindo, por vezes, matas de guacuris e carandás, deixadas logo atrás aquelas montanhas, pudemos vê-las ao longe, olhando-as entre as hastes vigorosamente sombreadas de tais palmeiras, chamando-nos a atenção o tom violáceo e vaporoso dos agigantados montes de base extensa que assim se afastavam.

O ribeirão das Flechas, de águas límpidas, embora por demais salobras, foi por nós transposto, antes de irmos ter a uma das propriedades do tenente-coronel João Pereira Leite, de milícias, dono da fazenda Jacobina, situada seis léguas mais adiante e sede de sua residência.

Salobras são todas as águas que correm desde o ribeirão das Flechas até a Jacobina, pois os terrenos das montanhas de onde elas escorrem contêm salitre à farta, por causa do cobre e de outros metais que entram em sua composição.

Idêntica miséria de víveres aqui se nota, em confronto com a desanimadora situação que padecemos na véspera, ao penetrar na fazendola do padre Manoel Alves. Galinhas, no entanto, há-as por aqui: o decepcionante é que o guarda da fazenda tem ordem de não vender nenhuma.

Montanhas compridas e paralelas, vistas em 2 de setembro, distribuídas por planície que, se se inundasse, daria azo à formação de um arquipélago de ilhas alongadas, tal como o da llíria. Este é, portanto, novo aspecto que a região nos oferece.

Cumpridas três léguas em meio a essas montanhas, o que fazemos em caminho plano, igual ao preparado para estrada de ferro, léguas percorridas sempre no sentido de seu comprimento, detemo-nos ao pé da montanha conhecida por Criminosa, que é íngreme como raras, acrescendo a esse sério inconveniente a extrema imprestabilidade da via de acesso, de tal modo perigosa que, mesmo tentado a pé, pode o acesso expor um mais temerário a quebrar as pernas entre pesados e cortantes penhascos.

Antes de principiarmos a escalada da Criminosa, paramos ao lado de um arroio chamado Guacurizal, porque corre dentro de privativo matagal de guacuris. Nele, matamos um jacaré, presença esta que nunca me passou pela cabeça registrar nas mediações de córrego parco em água. E detestabilíssimo, quase repugnante, é o gosto da que flui no Guacurizal. A salvação está em outro regato, que passa pertinho e cuja água, doce, sabe a contento.

Conseguimos alçar-nos até o pico da Criminosa e, em seguida, percorremos légua e meia, baixando suavissimamente, até concluirmos na Fazenda da Jacobina a derradeira etapa da jornada. Atingimos, afinal, o objeto de nossos mais ardentes desejos, quer pelas comodidades que na Jacobina esperamos desfrutar e que sabemos generosas no tocante a todas as espécies de viajantes, quer, ainda, pela importância da fazenda, progressivamente exaltada por estas bandas, à medida que da Jacobina nos aproximamos.

Se se comparasse a fazenda a outros estabelecimentos do gênero em diferentes províncias do Brasil, o aspecto dela constituíria um desmentido às informações correntes a respeito de sua categoria. A Jacobina, porém, é a mais rica fazenda da província e, conseguintemente, não estamos habilitados a julgar exagerado o que dela nos disseram.

Atravessamos espaçoso pátio e paramos diante de um sobrado, aguardando que nos convidem a apear, tudo segundo o costume brasileiro. Apressa-se o convite e fazem-nos subir ao alpendre, já na parte superior da construção Ai, o tenente-coronel recebe-nos como hóspedes, que, por esse único título, nos recomendamos com suficiência. Trocadas amabilidades, assentamo-nos entre outras pessoas já ali acolhidas, algumas delas nossas conhecidas de Cuiabá.

Grande e oblonga peça, que acompanha a extensão da fachada do sobrado, é a que se designa por alpendre. O lado que dá para o pátio é aberto e só o guarnece o parapeito. O telhado, nesta parte, amima-se em dois esteios de madeira.

Vinte pés de comprimento tem a mesa que, cercada de pesados e maciços bancos se alonga no meio do alpendre, com muita sobra de lugares em derredor dela.

Servido nessa mesa o jantar, a ele não assiste a família do tenente-coronel. A vista simultânea do céu e do campo constitui-nos motivo de absoluto prazer.

Terminada a refeição, retira-se o tenente-coronel, do mesmo passo que o vigário, tio de sua mulher, nos conduz ao pavimento térreo, onde entramos em imenso edifício, cujas portas dão para o terreiro (pátio da frente). Uma azáfama de mais de cem pessoas, entre escravos e gente livre, mulheres em sua maioria, cada qual entretido em sua tarefa, movimentam o local.

Somos apresentados pelo vigário ao chefe dessa grande oficina, dirigente de tudo, atento vigia do trabalho, dos engenhos, das plantações, dos rebanhos, escravos, agregados, em suma, da fazenda inteira, incluídos no conjunto o tenente-coronel e sua família.

Atlético no corpo e no espírito, tal chefe é a sogra do tenente-coronel, irmã, do vigário, mulher de cinco pés e oito polegadas de altura, gorda e nutrida de carnes, sem desproporção com o talhe, muito embora o rosto, de queixo tríplice, pareça confundir-se com seu largo peito, para o qual descem diversas voltas de colares de grandes contas de ouro.

Quase incessante, sua voz estentórica abafa todos os barulhos, não me cabendo misturar com estes as vozes de quantos trabalham, já que estes últimos observam silêncio ou falam baixo, mas abafa os ruídos das máquinas, da água que as move, das grandes caldeiras onde a garapa ferve.

Notável, entretanto, é a agilidade de moça com que, desembaraçada, caminha e se agita tão corpulenta mulher, aparentando ter já cinqüenta anos.

Sua fisionomia, seu olhar e sua boca exprimem, a um só tempo, a energia, a franqueza e a bondade. A estima de todos os escravos e agregados, em relação a ela, está no mesmo nível do temor que ela lhes infunde.

A verdade é que ela é a mãe de toda essa gente, mormente pelo devotamento com que cuida dos enfermos e pelos socorros que prodigaliza aos infelizes.

"...Não quero que meu genro se ocupe da lavoura." - diz-nos dona Ana: "... Isto é bom para mim, que nasci e me criei na roça". João Pereira Leite, cuja estatura minguada e cujo aspecto suave, conquanto não lhe falte robustez, contrastam com as feições e o físico avantajados de sua sogra, tão consagrada a sua felicidade, só pensa, efetivamente, em, como um grão senhor, fazer figura e viver de suas rendas.

Tempo que desperta saudades, esse bom e velho tempo colonial (de que especialmente sentem saudades uns poucos obstinados, cujo número felizmente diminui cada vez mais), quando os portugueses chegados da Europa, só pelo fato de serem brancos, logo dispunham de ricas herdeiras para transformar em esposas! Sucede que o tenente-coronel, além daquela qualidade, era, ao pôr os pés nesta província, tenente da principal tropa de terra, e sabe-se que esse posto, na antiga monarquia, não estava ao alcance de todos.

A mais rica fazenda da província é a Jacobina. Quatro léguas quadradas lhe dimensionam a área, das quais não mais de meia légua está cultivada. O resto compreende matas virgens, terras de pousio, capoeiras e pastagens. Montanhosa é sua parte oriental, cortada de leste a oeste por um ribeirão farto em peixes, que vai lançar-se no Paraguai, distante apenas 4 léguas. E vários córregos, que desaguam no ribeirão ou no Paraguai, regam a fazenda.

Duzentos escravos de ambos os sexos, jungidos ao trabalho pesado, e sessenta crianças, formam a massa que em condição servil funciona no estabelecimento, contrabalançados por aproximadamente o mesmo número de elementos forros, entre agregados, crioulos, mulatos e índios, que mal e mal trabalham para si, ou a soldo do proprietário.

Afora a fazenda da Jacobina, possui João Pereira Leite mais dezoito sesmarias, tendo a menor delas nada menos do que três léguas quadradas. Praticamente incultas todas, apenas seis ou sete, em que se aponta um rancho em lastimável estado, um guarda com a família, um punhado de vaqueiros e gado, fazem jus, assim mesmo precaríssimo, à denominação de "fazendas".

Senhor de tantas sesmarias, o tenente-coronel atreveu-se certa vez a afirmar-me que era dono de quantidade de terras igual à das pertencentes ao rei de Portugal, o que prova sua pobreza de conhecimentos geográficos.

Rebanhos incalculáveis povoam, contudo, as ferazes pastagens da Jacobina e das demais fazendas. O tenente-coronel dizia-me que avaliava em 60.000 as suas reses e que se asselvajara a maior parte delas.

Os cavalos da Jacobina, cerca de duzentos a trezentos, da mesma raça dos do Paraguai, são crioulos. Vi cinco jumentos de raça miúda, para, nas fazendas, se cruzarem com éguas, visando-se a produção de mulos e mulas; vi abundância de cabras e uns tantos carneiros recentemente introduzidos, úteis tão só para o fornecimento de lã e para regalar o apetite do tenente-coronel, já que sua família e outras pessoas, nisto nada diferentes dos habitantes de Cuiabá e, não há muito tempo, de todos os brasileiros, sente repugnância à carne e ao leite do gado ovino. Para o transporte dos produtos da fazenda destinados a Cuiabá, Poconé, Diamantino ou Vila Bela de Mato Grosso, basta uma tropa de cem burros de carga. Tropas de fora, que vêm buscá-los na fazenda, levam razoável quantidade dos produtos.

O mais belo caminho do mundo é o que serve toda a região: o rio Paraguai. Comportaria ela excelentes estradas, mas aí o que prevalece ainda é o século da barbaria.

O principal gênero de cultura é a cana de açúcar, de que se extrai também aguardente. Mandioca, feijão, milho, etc., vêm depois, assim como o café, este, porém, só para o consumo, não para a exportação. Maravilhosa é a vitalidade com que o cacaueiro aí cresce, mas só se vêem contados pés. O pouco cacau consumido na região procede do Rio de Janeiro ou do Pará.

Há acentuada desproporção entre os meios de transporte e a produção da Jacobina, por isso que dona Ana, no ano antecedente, mandou seis grandes canoas a Nova Coimbra, junto ao rio Paraguai, carregadas de víveres, para o sustento da guarnição. "— Não sabia que fazer desses mantimentos;" — dizia-nos ela: "a perdê-los, preferi presentear com eles o governo".

A Jacobina, todavia, fica a 2 léguas do Paraguai, o rio mais navegável do mundo! Estamos em 1855 e, ainda hoje, no lombo de burros se fazem os transportes de Cuiabá ao Rio, Bahia e São Paulo, cidades distanciadas num raio de 300 léguas, enquanto o Paraguai, passando por Assunção, Santa Fé, Buenos Aires e Montevidéu, corre solitário para o mar! É imperioso confessar que os filhos da raça ibérica estão aquém dos provenientes da raça anglo-saxônia.

Soberbos cafeeiros e cacaueiros vi na Jacobina. Mas aí estavam somente para evidenciar que a bela província de Mato Grosso experimentaria extraordinário surto de progresso, se não o impedisse a política japonesa dos governos desta parte da América do Sul.

Assegurou-nos o vigário que fecunda mina de cobre havia na Criminosa, e exibiu-nos purssimo lingote do metal, extraído do lugar.

O salitre satura os campos.

Agradável é o local em que se ergue a habitação de João Pereira Leite. À parte a casa de residência e as oficinas adjacentes à direita, trinta ou quarenta outras casas, cobertas de telhas, cercam vasto pátio regular. Não falta a igrejinha, com seu campanário, levantada no meio do pátio. Espaçosos armazéns, quatro engenhos de açúcar, dois movidos a água e dois por bois, olaria, máquina de socar milho, ranchos, tudo contribui para que o estabelecimento assuma o aspecto de uma aldeia.

Profuso em peixes, modesto ribeirão passa pelo meio da área, embelezada por hortas e pomares. Perto se vêem largo açude e formosas matas. Lá ao longe, montanhas acrescentam o toque de pitoresco à paisagem.


(Florence, Hercule. Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas; pelas províncias brasileiras de São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará – 1825-1829.)

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