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Julho 2002
Ano IV - nº 47

DO MODO PELO QUAL OS SELVAGENS FAZEM INCISÕES EM SEUS CORPOS

Para os selvagens americanos, não lhes basta andarem inteiramente nus, pintarem o corpo de várias cores e arrancarem seus pêlos. A fim de se tornarem mais disformes, perfuram os lábios, utilizando para tanto um certo espinho agudíssimo. Fazem isto enquanto são jovens; assim, o orifício vai aumentando à proporção que o corpo cresce. Os americanos enfiam nele uma espécie de mexilhão, pequeno marisco comprido que possui uma conchinha dura semelhante às contas de um rosário. Quando o marisco sai da concha, colhem-na os selvagens, introduzindo-a depois neste orifício feito no lábio inferior do mesmo modo que se faz com as rolhas ou os espichos, a fim de tapar os barris de vinho, ficando a ponta mais grossa para dentro e a mais fina para fora.

Quando os indígenas crescem à idade núbil, trocam as conchas por certas pedras de cor tirante à de esmeralda, pelas quais têm um tal apreço que não é fácil conseguir-se uma com eles, a não ser dando-lhes em troca um presente realmente excepcional, já que elas são muito raras por aqui. São os índios de uma tribo vizinha que as trazem de uma alta montanha situada na terra dos canibais. Antes de usá-las, os selvagens pulem estas pedras com uma outra apropriada para tal fim. O polimento é tão perfeito que o mais hábil joalheiro não o faria melhor. Acredito que nesta montanha podem ser encontradas esmeraldas verdadeiras, pois penso ter uma entre as pedras de um dos selvagens.

Em conseqüência do uso de tais pedras nos orifícios dos seus lábios, os americanos ficam com o rosto totalmente deformado. Nessa deformação, entretanto, encontram tão grande prazer quanto o que sente um civilizado rico exibindo suas preciosas correntes. Assim sendo, quanto mais numerosas as deformações, maior será o prestígio daquele que as possui, o qual, em virtude delas, será alçado à condição de ilustre personagem, quando não de chefe da tribo. E estas desfigurações incluem, além dos lábios e da boca, as bochechas.

As pedras que os homens trazem nos lábios têm por vezes o diâmetro de um duplo ducado, havendo mesmo algumas ainda mais largas. Sua grossura é a de um dedo médio. Chegam a quase impedir quem as usa de falar, ficando bastante difícil compreendê-los quando dizem algo, dando a impressão de que estão com a boca cheia de farinha. Quando trazem a pedra no orifício do beiço inferior, este cresce até ficar do tamanho de um punho. A grossura do ornamento permite que estimemos a capacidade de resistência desta parte situada entre a boca e o queixo. Mas quando tiram a pedra para poder falar, vê-se a saliva escorrendo pelo orifício, num espetáculo deveras repugnante. Quando algum desses patifes quer fazer zombarias com os outros, faz a língua passar por esta abertura.

As mulheres e moças não se deformam tanto quantos os homens. Trazem, no entanto, certos penduricalhos nas orelhas, feitos com as conchas de alguns mariscos grandes, do comprimento e grossura de uma vela de um tostão. Os homens ainda trazem pendurados no pescoço umas meias-luas de um pé de comprimento. Até as crianças de dois ou três anos andam com este enfeite. Os adultos também usam colares brancos, feitos com um outro tipo de conchinhas ainda menores que aquelas outras. Colhem-nas no mar e têm por estes colares excepcional estima. Estes rosários de contas brancas que parecem marfim – e que ultimamente têm sido vendidos em França – são feitos destas conchinhas pelos próprios selvagens. Os marinheiro que os trazem, compram-nos por uma ninharia. Quando chegaram os primeiros rosários deste tipo, quiseram fazer crer que fossem feitos de coral branco. Mais tarde, alguns passaram a afirmar que as contas eram de porcelana... Quem quiser, pode mandar benzer estes rosários.

Outro adorno que os selvagens usam é uma espécie de braçadeira, feita de osso de peixe, semelhante às que usam os nossos milicianos. Eles também apreciam sobremaneira as pequenas contas de vidro que são trazidas da Europa.

Para cúmulo da deformação, estes homens e mulheres ficam às vezes inteiramente negros, por se pintarem com certas tinturas que extraem dos frutos, como há pouco começamos a explicar. O interessante é que eles se pintam e se enfeitam uns aos outros. As mulheres pintam o corpo dos homens, desenhando mil motivos diferentes, como figuras, linhas onduladas, etc, tudo tão miúdo que não seria possível que alguém fizesse desenhos menores.

Não se mencionam nos livros outros povos que tivessem tais costumes. Sabe-se que os citas, quando saíam para fazer visitas de pêsames aos amigos, pintavam o rosto de preto. As mulheres da Turquia, a fim de se embelezarem, pintam as unhas de vermelho ou de pérseio, mas não o resto do corpo.

Resta apenas lembrar que as mulheres da América não pintam o rosto e o corpo de seus filhos unicamente de negro, mas também de diversas outras cores, especialmente de uma semelhante ao boli armênio, que os selvagens fabricam a partir de uma terra pastosa como a argila. Esta tinta dura pelo espaço de quatro dias, e com ela as mulheres pintam as pernas, de maneira que, quando as vemos ao longe, chegamos a pensar que elas estariam metidas em belas calças de fina estamenha...


(Thevet, André. As singularidades da França Antártica, p.113-114)

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