Julho
2002
Ano IV - nº 47 |
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No Brasil ainda encontramos duas maneiras
tradicionais de fiar: com roca e fuso ou mais rudimentarmente como fazem os índios,
colocando o algodão (ou outra fibra, por exemplo, o tucum) num varão perpendicular
encostado numa parede e ali a mecha de fibra presa para ser fiada.
Neste tipo de fiar, a fiandeira vai pegando as fibras finas, juntando-as e com uma
primeira torcida do polegar e indicador vai fazendo "crescer" o fio. À medida
que este vai crescendo, é enrolado num fuso, girado rapidamente pela fiandeira que usando
polegar, indicador e médio aplicados na ponta superior (do fuso), imprime-lhe rotação
da esquerda para direita, rodando-o como um pião preso ao fio que vai torcendo, cochando
e no corpo (haste do fuso) vai enrolando (o fio pronto), formando a maçaroca.
Da maçaroca o fio é tirado e enrolado, em novelo, pronto assim para o trabalho a ser
feito.
Esta maneira de fiar, sem roca, ainda é encontrada nas regiões mais desassistidas do
país, onde impera a miséria ou o estado de primitivismo a que foram relegadas essas
populações [1].
No Ceará a roca há muito foi relegada e constitui uma raridade encontrá-la funcionando.
Mas ainda existe, bem como aquela mais primitiva acima descrita, a qual, pode-se afirmar,
seja herança que o índio deixou.A outra maneira de fiar o algodão ou a lã com a
roca, enrolando o fio no fuso, formando a maçaroca é técnica que o povoador luso
ensinou. A existência das máquinas de fiar e tecer vem encostando a roca, em alguns
estados brasileiros mais depressa, noutros não, como acontece no de Minas Gerais e da
Bahia.
No Ceará é raridade a roca, mesmo nas regiões onde foi acentuada a presença do
povoador luso. Foram os portugueses que trouxeram a roca, a maçaroca.
Numa casa paupérrima da rua coronel João Viana, em Itapiuna, Ceará, na sala da frente
onde apenas se via um pote desbeiçado cheio dágua, num banco rústico estava
sentada Ceci, tendo ao lado um pequeno samburá cheio de algodão e segurando na mão
direita uma maça-roca.
Que é mãezinha? Já vou, estou acabando de fiar a última cesta de algodão.
Lá do quarto pobre, deitada numa rede surrada, uma cega chamava por sua filha Ceci.
A fiandeira, depois de enovelar o algodão da maçaroca, fiado naquele dia, foi atender
sua mãe. Ela estava com fome. Da farinha, da rapadura já escassa, pouco sobrou na cuia,
O fogo há dias que não é aceso naquela casa. E Ceci precisava providenciar algo para a
mãe cega se alimentar.
Mãezinha, já vou.
Tenho fome, filha.
Ambas tinham fome. A fiandeira acabou o serviço.
Felizmente nesse ínterim entra casa a dentro como que enviada pela Providência Divina,
uma vizinha com um prato ostensivamente cheiroso.
A fiandeira que vira na hora do almoço a cuia quase vazia, suspirou feliz. A mãezinha
poderia se alimentar, sustentar aquele corpo frágil, surrado pela adversidade. Há quanto
tempo a vida não lhe vinha negando a alegria, a felicidade, alimento e até a luz de seus
olhos? Um dia já distante, o marido, agricultor abastado, morador naquele município
cearense, por causa de séria moléstia, perdeu tudo em busca da saúde. Andou de médico
para médico. Morreu. A viuvez e a orfandade foram duras. Os filhos varões migraram para
o Sul e deles há muito que não tem notícia. Mãe e filha se puseram a fazer crochê e
com a ponta da agulha procuraram ganhar a vida, repetindo os modelos de trabalhos
aprendidos com a avó, os quais primeiramente faziam apenas para preencher as horas vagas,
agora tornou-se uma técnica de subsistência.
Um dia a viúva fica cega e todo o trabalho de sustento recaiu na fragilidade de Ceci,
moça bela, clara, bons dentes, sorriso meigo, olhos garços, mas que nem dinheiro tem
para adquirir a linha para fazer o seu crochê, daí comprar por pouco preço os capulhos
de algodão. Descaroça-os, faz as pastas e depois fia, enrolando no fuso rudimentar o fio
fino fiado, fazendo a maçaroca.
Faz redes de dormir de crochê, toalhas e outras peças. Cada ponto de seu trabalho
representa um anseio, uma expectativa de poder sustentar a mãe cega. Vende seus trabalhos
por um preço ínfimo que mal dá para comprar a farinha, a rapadura de Cariri. A caridade
de corações bem formados tem ajudado.
Mesmo nessa infelicidade, nessa luta ingrata, a beleza de sua face, o sorriso sempre
tristonho, jamais foram conspurcados pelos maus pensamentos que nessas horas de desamparo
têm transviado tantas e tantas jovens. Há uma aura de beleza que vem da alma a emoldurar
o seu rosto. Ela vive para sua mãe cega com uma dedicação ímpar. E quanta alegria não
há nisso, alegria que lhe dá mais forças para ficar até altas horas da noite naquele
trabalho tão mal remunerado, alegria que faz mais expressivo e cândido o olhar da
fiandeira de olhos garços.
Nota:
1. Araújo, Alceu Maynard. Populações ribeirinhas do Baixo São Francisco.
Edição do S. I. A. do Ministério da Agricultura, Rio de Janeiro, 1961 (ver capítulo 6,
Divisão de trabalho, foto Fiando o fio fino do tucum, p.64-65)
[1964]
(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional, v.3, p.252-254)
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