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Julho 2002
Ano IV - nº 47

O BARBEIRO - MÉDICO

Pode parecer exagero de cronista, mas é verdade histórica. Até quase os meados do século passado uma figura médica importante do velho Recife foi o barbeiro.

Em 1809, por exemplo, para uma população de doze mil habitantes, só havia entre nós seis médicos formados, vindos da corte, e entre eles apenas um cirurgião. De modo que a medicina imperante era a caseira, dos chás de ervas, folhas e raízes, dos clisteres, dos pós, dos lambedôs e assim por diante. Se a coisa tomava um aspecto mais sério, quando não era possível consultar-se o doutor da corte, (quase restrito ao serviço dos figurões da capitania, o remédio era recorrer-se ao barbeiro.

Ainda nos fins do século os versinhos populares registravam:

Vinde, vinde meu barbeiro,
Com passo bem diligente
Se vindes aparelhado,
Sangrai-me que estou doente...

Era ele uma figura curiosa, servindo para quase tudo: era informador de novidades, conselheiro, confidente, médico e até dentista, além da principal profissão de cortador de cabelo e fazedor de barba. Na profissão médica era essencialmente o sangrador e o colocador de bichas, as sanguessugas aplicadas como ventosas.

A 22 e a 28 de maio de 1857 anunciava-se no Diário de Pernambuco que os barbeiros estabelecidos na rua das Cruzes número 35 e rua Estreita do Rosário número 18 "sangravam, tiravam dentes, botavam ventosas e alugavam bichas", sendo que o último chegava a acrescentar haver "Um novo sortimento de sanguessugas diretamente de Hamburgo".

Segundo as notícias da época, a oficina do barbeiro quase sempre se localizava nas ruas mais centrais da cidade. Aparecendo um cliente de cara inchada, queixo amarrado, as sofredor, queixando-se que fazia noites não dormia com dor de dente, logo ele, olhando bem para a boca escancarada da vítima, sentenciava:

— Não tem jeito, não. Só arrancando...

Abria a gaveta tirando o boticão, uma espécie de torquês já enferrujada, que se encontrava junto ao pente e à navalha de fazer barba, e ordenava:

— Vamos, abra bem a boca!

O cliente medroso obedecia. Ele se curvava por sobre o outro, metia o boticão na boca, remexia e zás! Um berro de dor e o molar era atirado em um balde.

— Agora bocheche...

A vítima bochechava água fria da moringa de barro. A hemorragia ia cedendo aos poucos. Sentia-se aliviado. Pagava uma pataca pelo serviço e saía agradecendo.

Logo surgia outro cliente. Mas era para aparar o cabelo ou ajeitar a barba, apontar as suíças. Tomava assento, comentava-se a chegada da família real, a invasão de Portugal pelos franceses, a fuga de escravo do barão de Pinhal, a safra de açúcar, e assim por diante, quando entrava assustada uma negrinha. Ia chamar o barbeiro para acudir a sinhazinha do sobrado de azulejo, da esquina da rua do Sebo, que tivera um desmaio.

O barbeiro atendia logo. Era caso de urgência. Punha numa bolsa a lanceta, a bacia, os chumaços de algodão queimado, todo o instrumental para uma operação de sangria. Deixava o aprendiz terminando os serviços da barbearia e saía presto. No sobrado do Comendador todos estavam aflitos e ansiosos, preocupados: pais, irmãos, tios, os negros escravos. Ele chegava calmo, brincalhão:

— Cadê a moça. Como está ela?

A sinhazinha estava deitada em um banco de madeira na sala da frente. Vermelha, imóvel, afogueada, respiração opressa. Intervinha rápido o barbeiro-sangrador com habilidade. Esticava o braço da moça e dava com a lanceta um corte rápido na veia. O sangue começava a correr grosso, depois ia afinando até se tornar fluido, borboteante. Ele exclamava a certa altura:

— Basta!

Comprimia e dedo sobre o talho e pedia uma tira de pano. Aplicava o chumaço de algodão queimado e amarrava a atadura. A moça agora pálida abria os olhos:

Está melhorzinha?

— Sim...

E o barbeiro, confidente e conselheiro para o comendador: — foi somente um faniquito... Talvez seja melhor casar logo ela...


(Guerra, Flávio. Crônicas do velho Recife, p.99-100)

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