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Julho 2002
Ano IV - nº 47

AS HISTÓRIAS CANTADAS DOS NEGROS DE MEXIANA

ilustração de Marcos JardimEnquanto eu estava na ilha, uma criança de poucos meses de idade deveria ser batizada.

O batismo é considerado ali como uma das importantes cerimônias.

Assim, o pai e a mãe, com os avôs e as avós, saíram em uma canoa, para irem a Chaves, na ilha de Marajó, o lugar mais próximo onde havia um sacerdote.

Gastaram três dias nessa viagem.

Na sua volta, trouxeram a notícia de que o padre estava doente, e não pôde, por isso, realizar-se a cerimônia. E, desta sorte, foram obrigados a trazer a pobre criança ainda pagã.

De conformidade com as suas idéias, se ela morresse, estaria na perdição eterna.

Na mesma noite, cantaram, durante umas três horas, com a sua música habitual, toda a história daquela jornada perdida.

Eu assim presumo, por ter apanhado alguns trechos, que eram aqui e acolá inteligíveis.

Sobre cada fato, entoam um verso, que é várias vezes repetido. Assim, um deles repentinamente prorrompia:

— O padre estava doente, e não podia vir, O padre estava doente, e não podia vir.

Daí, durante algum tempo, só a música é que continuava, sem as vozes, dando tempo, assim, para que econtrassem outro fato e fixassem sobre o mesmo mais um verso.

Afinal, lá um deles continuou o assunto:

— Ele disse para voltarmos no dia seguinte.

— Para vermos se ele estava melhor.

Daí o coro:

— Ele disse para voltarmos no dia seguinte.

— Para vermos se ele estava melhor.

E, assim por diante, até o fim da história, o que me causou impressão, como provavelmente muito semelhante às tradicionais canções dos antigos bardos, que tornavam conhecidos, por esse meio, interessantes fatos, os quais eram cantados ao som de música e de maneira entusiástica e bem apropriada.

Em uma nação belicosa, o que logo era mais necessário relatar eram os feitos de guerreiros arrojados, a derrota do inimigo, cantar os troféus da vitória, com o propósito de elevar ao mais alto nível o entusiasmo do auditório.

Algumas destas canções foram transmitidas de geração a geração, com a sua linguagem cada vez mais melhorada, reduzindo-se depois à escrita, e, por fim, juntando-se-lhe a rima.

E assim, afinal, construía-se um poema regular.

(Recolhido por Alfred Russel Wallace e publicado em Viagens pelo Amazonas e rio Negro. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1939. Coleção Brasiliana, 156)


(In: Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro, p.110-112)

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