Julho
2002
Ano IV - nº 47 |
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ELEIÇÃO DO REI
DO CONGO
(Pilar, Itamaracá, 1814) |
No mês de março tem lugar a festa anual
de Nossa Senhora do Rosário, dirigida pelos negros, e é nessa época em que elegem o rei
do Congo, se a pessoa que exerce essa função faleceu durante o ano, resignou por
qualquer motivo ou haja sido deposta pelos seus súditos. Aos negros do Congo permitiram a
eleição do rei e da rainha entre os indivíduos dessa nação. Os escolhidos para esses
cargos podem ser escravos ou negros livres. Esses soberanos exercem uma espécie de falsa
jurisdição sobre seus vassalos, da qual muito zombam os brancos, mas é nos dias de
festa em que exibem sua superioridade e poder sobre seus companheiros.
Os negros dessa nação mostram muito respeito para com seus soberanos. O homem que
desempenhava as funções de rei em Itamaracá (cada distrito possui um rei) durante
muitos anos, estava prestes a abdicar pela sua velhice e o novo chefe devia ser escolhido,
e a indicação recaiu sobre outro velho escravo da plantação do Amparo. A rainha antiga
não renunciara, continuando no posto. O negro velho que seria coroado nesse dia da festa
veio pela manhã cedo apresentar seus respeitos ao vigário, que lhe disse, em tom jovial:
"Perfeitamente, senhor, mas hoje estarei às suas ordens, devendo servir-lhe de
capelão!" Pelas onze horas fui para a igreja com o vigário. Ficamos parados à
porta, quando apareceu um numeroso grupo de negros e negras, vestidos de algodão branco e
de cor, com bandeiras ao vento e tambores soando. Quando se aproximaram, descobrimos, no
meio, o rei, a rainha e o secretário de estado. Cada um dos primeiros trazia na cabeça
uma coroa de papel colorido e dourado. O rei estava vestido com uma velha roupa de cores
diversas, vermelho, verde e amarelo, manto, jaleco e calções. Trazia na mão um cetro de
madeira, lindamente dourado. A rainha envergara um vestido de seda azul, da moda antiga. O
humilde secretário ostentava tantas cores quanto seu chefe, mas era evidente que sua
roupa provinha de várias partes, umas muito estreitas e outras demasiado amplas para ele.
As despesas com a sagrada cerimônia deviam ser pagas pelos negros e, por isso, no meio da
igreja, estava uma mesinha, com o tesoureiro dessa Irmandade preta e outros dignitários,
e sobre ela uma pequena caixa para receber o dinheiro. Tudo ia lentamente, muito mais
lentamente que o apetite do vigário que nada comera, embora fosse perto do meio-dia,
porque ele e outros padres assistentes deviam cantar a missa. Conseqüentemente,
aproximou-se da mesa e começou a falar aos diretores, declarando que não iria ao altar
antes que a despesa fosse paga. Divertia-me muito vê-lo cercado pelos negros e entediado
pela falta de pontualidade nas suas contribuições. Houve a seguir um rumor na igreja
entre os pretos. O vigário havia exprobrado alguns deles logo que este os deixou,
começaram a discutir uns com os outros, em voz alta e com palavras zangadas, sem respeito
pelo local. Foi uma cena muito interessante para mim e para outras pessoas, mas tudo se
passou rapidamente. Por fim, suas majestades ajoelharam-se ante a grade do altar-mor e a
missa começou. Terminada, o novo rei devia ser coroado, mas o vigário estava com fome e
desempenhou-se sem muitas cerimônias. Segurou a coroa, na porta da igreja, o novo
soberano apresentou-se e foi mandado ajoelhar, a insígnia lhe foi posta e o vigário
disse: "Agora, senhor rei, vai-te embora!"
Como o rei pertencia a Amparo, seria lá o local para comer, beber e dançar, e a seguir a
nossa povoação se tornou totalmente silenciosa e deserta...
(Koster, Henry. Viagens ao nordeste do Brasil. Em Carneiro, Edison. Antologia
do negro no Brasil, p;236-237) |
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