Julho
2002
Ano IV - nº 47 |
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Antigamente, Santo Aleixo, que se festeja a
17 de julho, era o padroeiro dos professores.
As memórias por ele deixadas em manuscrito revelam uma existência dedicada aos
ignorantes das letras e dos mistérios cristãos.
Santo Aleixo viveu na Idade Média. Filho de um poderoso senador romano, para evitar um
casamento imposto pela intransigência paterna, abandonou o lar. Peregrinou, pelo mundo
como um anacoreta, pregando fé e humildade.
Anos depois, um temporal arrastou-o às costas da Itália. Saudoso dos seus, dirigiu-se ao
palácio paterno. Ninguém o reconheceu, tanto lhe mudaram as feições as vicissitudes e
penitências. Como um mendigo, viveu longo tempo agasalhado no vão da grande escadaria da
entrada do palácio, comendo os restos que lhe atiravam os criados.
Passava o tempo ensinando às crianças das ruas o alfabeto e pregando a doutrina de
Cristo.
Um dia encontraram-no sem vida. Nas mãos havia um manuscrito. De sua leitura o senador
deduziu que, durante muito tempo, hospedara como mendigo o filho querido, que supunha
morto.
A igreja tornou-o padroeiro dos professores.
A única imagem que dele existe no Rio de Janeiro está sob a escada que fica à esquerda
de quem entra, na portaria do convento de Santo Antônio.
Antigamente, o culto de Santo Aleixo era obrigatório nos colégios da velha São
Sebastião do Rio de Janeiro.
Professores e alunos festejavam o santo com gasosa (feriado), doces e festanças.
Para essa festa era eleito o imperador da classe. A escolha era feita de um modo
original.
As escolas primárias daquela época distante (1816-1831) realizavam um concurso de
escrita. Os alunos que apresentavam melhor letra e escreviam mais depressa iam para a
porta da escola e pediam a opinião dos transeuntes. Os votos eram dados com furos de
alfinete. O professor conferia os votos. O aluno cuja prova apresentasse maior número de
furinhos era eleito imperador da classe, na festa de Santo Aleixo.
Mas isso era usança do tempo do Tico-Tico, o professor tacanho que ficou célebre na
história pitoresca do nosso magistério.
De fato, tivemos professores de grande competência (em geral sacerdotes), mas de vez em
quando aparecia cada fóssil, como se dizia então, que era uma lástima.
O carioca, sempre satírico, cantava um lundu, cujos versos refletiam essa acanhada
mentalidade do professor público em geral.
Pena é que só me fossem transmitidos estes retalhos:
Aprovado plenamente,
A minha carta tirei,
Venho escandalosamente
Ensinar o que não sei.
Chamo o verbo de advérbio,
Ao artigo, conjunção,
Ao substantivo, adjetivo,
Ao pronome, interjeição.
As sabatinas eram o terror dos alunos, muitos dos quais não tinham livros, raríssimos na
época.
Usavam-se então as sebentas, cópias manuscritas, que passavam de geração a geração,
cheias de erros e ensebadas pelo manuseio.
Não havia colegial que, cheio de fé, não fizesse promessas ou não marcasse a lição
com uma estampa de Santo Aleixo.
A sabatina não era, propriamente, o que preocupava as crianças; o que as apavorava era o
bolo, a palmatória, que o professor desancava nos alunos ou mandava o
vencedor da sabatina aplicar no vencido.
Mas no dia de Santo Aleixo não cantava o bolo. Folgavam as palmas das mãos dos
menos inteligentes, dos de memória fraca e, principalmente, dos vadios. Nessa data, em
honra de Santo Aleixo, o mestre-escola não praticava a obra misericordiosa de
castigar os que erram. A palmatória, enfeitada com flores e fitas, era levada ao
professor.
Esse instrumento abominável, espécie de malho de madeira pesada, com cinco
perfurações, cinco olhos, como diziam os colegiais do tempo, talvez por isso era
também chamado santa-luzia.
Afirmavam os garotos que, enchendo um dos tais olhos com cera e atravessando-lhe um fio de
cabelo, ao estourar o bolo rachava-se a palmatória.
Razão tinha a criançada de apavorar-se com a idéia de ir para a escola.
A pedagogia antiga das lições de cor, a maldita tabuada cantada, as tarefas penosas, os
castigos incríveis, tornavam a escola uma casa de suplício, e o mestre, uma espécie de
carrasco.
Nada se perdoava aos petizes. Se falavam na classe, fugindo à monotonia das aulas,
era-lhes atada à boca uma grande língua de baeta vermelha, ou pregados às costas
cartazes com letreiros enormes: Tagarela, Vadio, Preguiçoso, conforme a falta
praticada.
Se não sabiam a lição na ponta da língua, grudavam-lhes às têmporas grandes
orelhas de burro. As travessuras eram castigadas com capacetes de papel, toucas de dormir,
privações de recreio, quarto escuro, permanência de joelhos (às vezes sobre grãos de
milho), cópias intermináveis, rosto para o canto, enfim, humilhações e torturas que
revoltavam as crianças.
Esses castigos foram introduzidos pelos jesuítas.
As escolas públicas datam de 1722. Foi a carta régia de 10 de novembro que as instituiu.
Os professores recebiam o "subsídio literário", provindo da cobrança de
"1 real pelo arrátel de carne vendida nos açougues e 10 réis pela carrada de
aguardente fabricada no Brasil".
Mas a escola pública de então só era freqüentada pelos filhos dos escravos, negros e
mulatos, ou gente de classe inferior.
As meninas não aprendiam a ler, para, quando moças, não se corresponderem com os
namorados. Os filhos de pais abastados iam estudar na Europa, eram internados nos
seminários ou tinham professores em casa.
Como foram lúgubres as primeiras escolas públicas do Brasil!
Casas feias, sujas, escuras, que se distinguiam das demais apenas pela pequena placa de
folha, pintada de verde, com letras brancas "Escola Pública nº..."
pregada à porta. Dentro, mobiliário horrível, bancos toscos, enfileirados tristemente.
A frente, sobre o estrado, a mesa do professor, quase sempre velho, barbudo, tomador de
rapé, de óculos, desdentado, de roupa de cor incerta. À parede, o quadro negro, às
vezes o relógio soturno, mas sempre a palmatória, dependurada por um cordão, a olhar
ameaçadora para a classe indefesa, com seus "cinco olhos".
Os vencimentos minguados do mestre predispunham-no mal para a classe; sem estímulo, não
procurava melhorar os métodos obscuros empregados na escola velha.
A nobreza decadente da Europa refugiava-se no Rio de Janeiro, fundando educandários.
Surgiram então os primeiros internatos para meninas.
Havia, na praia de Botafogo, o Colégio Inglês, dirigido pelo casal Hitchings, o da
baronesa de Gesselin, à rua do Príncipe, o de madameTaniére, à rua da Pedreira da
Candelária, hoje Bento Lisboa, onde está a Casa de Saúde São Sebastião, o de madame
Toulois, nas Laranjeiras, e os internatos das religiosas, mais ou menos afamados, quase
todos franceses.
Nestes não havia palmatória, mas os métodos, a severidade, os castigos eram os mesmos.
As crianças aceitavam tudo naturalmente e defendiam-se como podiam.
Sempre houve cola (cópia), gaitinhas, espírito-santo-de--orelha ou sopro
da lição, manhas engendradas como tábua de salvação.
Havia também superstições: colocar o livro sob o travesseiro, na hora de dormir, fazia
saber de cor a lição no dia seguinte. Riscar uma cruz no canto do caderno era ajuda
prodigiosa para acertar as contas. Mas que mau presságio era deixar cair um
borrão no caderno! Castigo na certa. Cigarra cantando, exame à porta. Flamboyants
florindo, férias próximas.
E os apelidos, quanto humorismo havia neles!
A veia poética das crianças daria um capitulo interessante.
Que foi, hein? Quem muito quer saber, mexerico quer fazer.
Deixa ver...
Não tem vista, nem crista, nem nada que lhe assista.
Oh, pequena!
Pequena bico-de-pena, teu nariz tem uma postema. Quer que eu te esprema? Não
vale a pena...
Que é isso?
Carne de porco não tem biço (bicho).
No tempo da soletração, as crianças rimavam a cantilena a seu jeito.
B-a: bá chega pra cá.
B-e: bédá cá o pé.
B-i: bi passa praqui.
B-o: bôolha o cipô.
B-u: bu vamos dudu (dormir).
A tabuada também era glosada. Eis um fragmento que chegou até nós:
Um e um, dois uma junta de bois.
Três e três, seis vamos todos ver o reis.
Quatro e quatro, oito na padaria tem biscoito.
Cinco e cinco, dez vai na bica e lava os pés.
Ao glutão, diziam:
Quem come e não me convida, carrapato rói a vida.
A uma praga, respondeu logo:
Praga de urubu magro não mata cavalo gordo.
Uma animação:
Mãos à obra, lagartixa atrás da cobra, sabiá comendo abobra...
Saudação:
Saúde, bichas e lagartixas.
A uma acusação infundada:
Fama sem proveito faz dor de peito.
Os livros traziam sempre, na parte interna das capas, uma espécie de registo de
propriedade, os famosos ex-libris infantis.
Se este livro for perdido,
E por acaso for achado,
Para ser bem conhecido,
Leva o meu nome assinado.
O meu nome é...
Que na pia me foi dado,
Meu sobrenome é...
Que de meu pai foi tirado.
Outras formas há, mas registarei ainda esta, por seu feitio desabrido:
Quem este livro pegar,
Não causa admiração,
Mas quem com ele ficar,
Pega, pega!! que é ladrão!
Foi o doutor Abílio César Borges, barão de Macaúbas, quem revolucionou o
ensino no Brasil. Datam daí as grandes reformas nos métodos educacionais.
A criação da Escola Normal no Distrito Federal abriu novos horizontes ao nosso
magistério primário.
A primeira normalista que terminou o curso foi dona Olímpia Francisca Proença, mais
tarde dona Olímpia do Couto, esposa do professor Pedro do Couto. Só no ano seguinte
recebeu solenemente o diploma de professora primária, com dona Virgínia Pinto Cidade.
Os homens e senhoras de hoje recordam com saudade nomes queridos de professoras do
passado.
Dona Aline Fortunato de Brito, estimadíssima no largo do Machado, já aposentada e cega,
ainda escreveu, no alfabeto de Braille, uma cartilha para crianças. Dona Tadéia Fidelina
da Silva, magnífico exemplo de tenacidade: aos 17 anos analfabeta, aos 27 diretora da
escola da rua Frei Caneca.
E não é possível deixar de lembrar um professor do morro do Pinto, ali perto da favela,
verdadeiro precursor da escola ativa.
O nome foi esquecido, mas os métodos pitorescos empregados ficaram no registro popular.
Os alunos, filhos da gente pobre do morro, gozavam de inteira liberdade. A entrada na
classe podia ser até pelas janelas.
A contagem dos números, ele ensinava por meio de pedras, que os alunos atiravam à
parede. A tabuada era aprendida por troca de pedradas entre ele e os alunos.
Naquele tempo, tachavam-no de maluco, no entanto, à sua escola já era uma escola ativa.
Hoje, por proclamação do papa Pio XII, o padroeiro dos professores é São João Batista
de La Salle, grande pedagogo moderno.
[circa 1960]
(Lira, Mariza. Calendário folclórico do Distrito Federal,
p.257-263)
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