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Julho 2002
Ano IV - nº 47

O QUE SE COMIA NUMA CIDADE DO INTERIOR, HÁ CINQÜENTA ANOS

Não havendo noites indormidas por falta de diversões e no intuito de tirar o máximo proveito da frescura das manhãs, levantava-se muito cedo. Ainda escuro e já a senhora desperta, dirigia as mucamas no preparativo do café matinal. O leite recebido das fazendas limítrofes com a cidade, era imediatamente fervido, para que não azedasse. Uma infinidade de guloseimas vinha recobrir o centro da mesa da sala de jantar: biscoito de polvilho, broa de milho, pão de queijo, rosca trançada, bolão de fubá e pão da padaria. Isto era o diário, quando não havia hóspede. Devorava-se um pouco de cada destas coisas com o café com leite, que alguns preferiam adoçado com açúcar branco refinado e outros com açúcar mulatinho. Esclareça-se que todo açúcar era mascavo. Refinava-se em casa, em grandes tachos, escumando-se impurezas até clareá-lo. Acrescente-se a estas comesainas algum bolo extra de receita nova: bolo de jacareí, inglês, brevidade, piquenique.

Este café era tomado ao romper do dia. Às dez horas almoçava-se, lautamente ou por outra abundantemente, com muitas frituras, uma vez que a conservação da carne era difícil. No trivial entrava sempre a carne assada, o frango, os tubérculos, o arroz, o feijão, os ovos e sobre isto tudo, a sobremesa que se multiplicava em compoteiras. Era imprescindível várias qualidades de doces e do queijo mineiro. Rematando servia-se então leite com farinha de milho, coalhada, ou café com leite com rosca e outros quitutes.

Às duas horas, servia-se o café a duas mãos, que não passava de uma repetição do café matinal, sempre com alguma invenção doceira, uma vez que para este repasto era comum terem-se visitas.

Entre quatro e cinco horas jantava-se, com mais cerimônia e um pouco mais de abundância que no almoço, uma vez que a sopa, substancial, gordurosa, era o prato de abertura.

Às nove horas da noite, servia-se o chá, que não era chá, porque o uso desta infusão não estava generalizado. Tomar chá, significava empanturrar-se de café com leite, várias broas, coalhada com goiabada e para as crianças, chocolate.

Na roça, este quadro se repetia, porém, em horários diferentes. Quem por exemplo, chegasse à fazenda do tio Zeca depois das duas horas da tarde, não jantava mais. É preciso saber-se porém, que ali o dia começava às quatro horas da manhã.

Não sei se o leitor reparou que nesta refeições cotidianas, não entrava o pescado, pela impossibilidade de trazê-lo fresco do mar.

Havia o peixe de água doce, sendo os mais apreciados o dourado e a piracanjuba, mas que necessitavam ser comidos logo depois de pescados, pela sua impossível conservação sem o gelo.

O preparo dos alimentos mobilizava muita gente e exigia a supervisão contínua da dona da casa, uma vez que ali se manipulavam todos os manjares.

Para se cozinhar, o primeiro condimento é a gordura. Não era hábito o uso da gordura vegetal. O único óleo que se conhecia era o de oliva importado, reservado para as bacalhoadas, uma vez que salada não se comia, por não existirem hortas. Verduras só cozidas e nativas: serralha, caruru, beldroega e almeirão. A estas verduras, dava-se o nome de ervas. Eram comidas cozidas, misturadas com farinha de milho e feijão, ou em forma de sopa, com fubá. A couve mais comum era difícil de ser cultivada, facilmente atacada por pulgões.

Nelson Palma Travassos


(Martins, Luís. Brasil, terra & alma. p.164-165)

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