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Julho 2002
Ano IV - nº 47

DOS ALIMENTOS E BEBIDAS DOS SELVAGENS

Pode-se facilmente deduzir que a incivilidade dessa boa gente no que concerne aos seus hábitos alimentares é a mesma que demonstram em relação a tudo o mais. E como não possuem algum critério que lhes permita escolher o que é bom, separando-o daquilo que não presta, comem de todas as carnes, a qualquer dia e hora, sem moderação alguma. É verdade que, por uma temerosa e particular superstição, evitam comer carne de animais vagarosos, sejam terrestres ou aquáticos. Já as de animais que voam ou correm com ligeireza, tais como veados e corças por exemplo, comem-nas todas. Isto é devido à crença de que aquele alimento os tornaria muito pesados, estornando-lhes os movimentos quando se vissem atacados pelos inimigos.

Também não gostam de alimentos salgados, chegando a proibi-los às suas crianças. Quando vêem os cristãos comendo carnes salgadas, censuram-nos por seu desregramento, dizendo que elas irão encurtar-lhe a vida. Não obstante, consomem qualquer tipo de carne e de peixe, que assam de um modo típico. As carnes que mais apreciam são as de animais selvagens, roedores de diversas qualidades e tamanho, certas espécies de sapos maiores que os nossos, jacarés e outros bichos, levando-os inteiros ao fogo, peles e entranhas inclusive. Comem-nos em seguida, sem qualquer outro complemento ou acréscimo. Assim preparam todos os animais que comem, mesmo os jacarés, uma espécie de lagarto da grossura de um leitão de um mês, tendo o comprimento proporcional ao volume e a carne bastante apetitosa, conforme testemunham os que dela provaram. Estes lagartões são mansos que costumam aproximar-se das pessoas, comendo as coisas que estas lhe atiram, sem timidez ou receio. Os selvagens matam-nos a flechadas. Sua carne lembra a do frango.

Ostras e mariscos são os únicos alimentos que eles cozinham em água fervente. De resto, não têm hora certa de comer, fazendo-o sempre que estão com apetite. Se sentem fome à noite, depois do primeiro sono, levantam-se tranqüilamente, comem, depois voltam e dormem de novo.

Durante as refeições, mantêm-se admiravelmente em completo silêncio, costume mais louvável que o nosso de ficar à mesa tagarelando. Gostam da carne bem passada, comendo-a sempre pausadamente. Por isto, riem-se de nós, que devoramos os alimentos, ao invés de comê-los com o necessário vagar. Ademais, nunca comem carne senão depois que ela esteja suficientemente fria.

Um hábito deveras estranho que têm é o de nunca beberem quando estão comendo e vice-versa: quando se põem a beber, não comem coisa alguma – e olhe que suas bebedeiras podem durar até mesmo um dia inteiro! Isso acontece quando realizam grandes solenidades ou festins em comemoração à matança dos inimigos ou sob qualquer outro pretexto. Em tais festejos, outra coisa não fazem senão beber durante todo o dia, sem nada comer. A bebida que tomam é feita daquele milho graúdo branco ou preto que chamam de avati. E depois de terem bebido deste modo, apartam-se uns dos outros, comendo então indiferentemente de tudo o que houver.

O alimento mais comum desta pobre gente, mais consumido que a própria carne, são os peixes do mar, ostras e coisas semelhantes. Os que moram longe do mar, pescam nos rios. Os selvagens também dispõem da grande variedade de frutas que a natureza lhes proporciona. Nem por isso deixam de viver longamente, com saúde e boa disposição. A propósito, queremos lembrar que os antigos se alimentavam mais de peixes do que de carne. Heródoto, neste particular, afirma que os babilônios viviam apenas de peixe. As leis de Triptolemo, segundo Xenofonte, proibiam o uso da carne aos atenienses. Porquanto, não é de se estranhar o fato de que alguém possa viver só de peixe, sem comer carne. Mesmo no início do povoamento da Europa, antes de que se trabalhase e cultivasse a terra, viviam os homens de modo ainda mais austero, totalmente desabituados ao uso da carne ou do peixe. Entretanto, eram indivíduos robustos, que viviam longamente e nada tinham do efeminamento que caracteriza os homens de hoje em dia, os quais, quanto mais delicadamente são tratados, vão se tornando mais sujeitos às doenças e fraquezas a cada dia que passa!

Pois bem; conforme dissemos, os selvagens alimentam-se de carne e de peixes, fazendo-o do modo como está representado na gravura. Alguns comem deitados ou então sentados nas redes. O mais comum é ver o decano da família na rede e seus parentes ao redor, servindo-o, como se a própria natureza lhes houvesse ensinado a respeitar os mais velhos.

Outro bom costume deles é o seguinte: o primeiro que pegou alguma grande presa, seja terrestre ou aquática, distribuirá a mesma entre todos. Se houver cristão, estes também entrarão na partilha e serão liberalmente convidados a comer daquela dádiva do bom Deus. Eles consideram uma grave ofensa qualquer recusa de nossa parte.

Outra coisa é que quando alguém entra pela primeira vez em suas cabanas, logo os selvagens perguntam: "Marabicera" (Como é seu nome?). E pode a pessoa ficar certa de que eles nunca mais esquecerão seu nome depois que o escutam uma única vez, pois são dotados de excelente memória. (A propósito, outros homens de excepcional memória, de acordo com Plínio, foram Ciro, rei dos persas; Cinéias, legado do rei Pirro; Mitrídates e César). Só depois de conversar um pouco com os visitantes é que perguntam se ele deseja alguma coisa (- "Marapipô?"). Durante toda a visita, cumulam o hóspede com inúmeras gentilezas.


(Thevet, André. As singularidades da França Antártica, p.105-106)

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