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Julho 2002
Ano IV - nº 47

O PREGUIÇOSO

O assunto-chave desse romance é bastante explorado em histórias de trancoso e contos populares, encontradiços em todas as latitudes. A figura interessante do preguiçoso tem despertado a curiosidade dos humildes, envolvendo-a em situações chistosas, sem no entanto torná-la desprezível. Incontáveis são os textos em prosa, incluídos sempre nas coleções luso-brasileiras, sob forma de conto.

A única lição que conhecemos foi coletado na cidade mineira de Januária, nos anos de 1959 e 1960, por Firmino Alves de Melo e José Vitor Júnior, sob o nome de Aroeira é pau pesado, e divulgada, com a respectiva solfa, por Joaquim Ribeiro em 1970. Consta o texto de quatro estrofes, distribuídas entre o preguiçoso e sua mulher, constituindo, embora, simples fragmento, guarda o essencial de sua temática burlesca.

Em verso e nos moldes do romanceiro, coligimos vários textos em Aracaju, procedentes dos municípios sergipanos de Aquidabã, Maruim e Buquim, sem falar na versão alagoana de Traipu. Em alguns desses textos (versões de Maruim e Traipu), intercalam-se trechos cantados e recitados, ditos esses com humor e sugestiva dicção.

O preguiçoso
(versão de dona Perolina – Aquibadã)

- Levanta, meu bom marido,
Vamos fazer uma rocinha...
– É verdade, minha velha,
Uma roça é coisa boa,
Mas precisa o homem se dispor,
Roçar, plantar e limpar...
É verdade minha velha,
Já ‘tou com as costas raladas,
Eu não posso me levantar.

– Levanta, meu bom marido,
Meu pai mandou lhe chamar...
É verdade, minha velha,
Seu pai mandou me chamar,
Mas a lonjura que tem
Daqui pra lá, minha velha,
Também tem de lá pra cá,
Já ‘tou com as costas raladas,
Eu não posso me levantar.

Aracaju, 30/12/1970


O preguiçoso
(versão de dona Esmeralda – Traipu)

- Ó marido, ó marido,
Tenha dó dos seus filhinhos,
Vá ali naquela casa
Me robe ao menos um pintinho....
– Ora, mulher, sempre vejo
Os mais velhos dizer:
Antes ladrão de cavalo
Do que um ladrão de galinha.

–Ó marido,ó marido,
É tempo de arapuá,
Você assobe no pau
Eu lhe levo um facho lá...
– Ora, mulher, sempre vejo
Os mais velhos dizer
Que as abelhas de hoje em dia
Só tem "fio" e saburá.

– Ó marido, ó marido,
Vamos fazer um roçado,
Depois dela cercada
Dou conta dela tratado...
– Ora, mulher, daqui que anoiteça
E que amanheça o dia,
Vem uma cobra, me morde
E lá morre um pai de "famia".

– Ó marido, ó marido,
Já é tempo de macuca,
Vamos ali naquela baixa,
Armamos quatro arapucas...
– Ora, mulher, depois que eu cortar os paus
E raspar bem raspadinhos,
Assim mesmo não sou malvado
Pra judiar com os bichinhos.

– Ó marido, ó marido,
Meu pai lhe mandou chamar
Que amanhã você cedinho
Você aparecesse por lá.
– Ora, mulher, tanto faz
Daqui lá como de lá pra cá,
Estou com os quadris ralados
E não posso me levantar.

– Ó marido, ó marido,
Mas que vida esta tua,
Há dez anos de casada
Que eu vivo com fome e nua...
– Ora, mulher, eu não te iludi,
Eu não te enganei,
Assim mesmo você não achava
Um maridinho como eu.

Aracaju, 14/03/1971


O preguiçoso
(versão de dona Caçula – Maruim)

- Ô marido, ô marido,
Meu pai mandou lhe dizer
Lá em casa tem u’a gente
Com vontade de lhe ver.

– Diabo besta!...sou boneco de presépio, o que!

- Ô marido, ô marido
Meu pai mandou lhe chamar
Se não fosse tão pesado
Desse um passeio por lá.

– Diabo besta!... teu pai tem muitos filhos homens pra mandar me matar. Tão longe é daqui pra lá como de lá pra cá.

Ô marido, ô marido,
Já é tempo de roçar,
Roça, roça e coivare
Muito bem posso plantar.

– Diabo besta!... pegar foice e machado para cortar tanto pau grosso.

– Ô marido, ô marido,
Pela alma de tua avó,
Se atrepe naquela serra,
Vamos pegar um mocó.

– Diabo besta!... uma serra tão alta daquela... pra eu cair de lá de cima e quebrar o pescoço. Vou lá o que!

- Ô marido, ô marido,
Pelo bem dos seus filhinhos,
Pegue a mão a tarrafa,
Vá me pegar uns peixinhos.

– Diabo besta!... um amarelo como eu pra entrar dentro do rio pra morrer de sezão...vou lá o que!

- Ô marido, ô marido,
Não tem coragem de trabalhar,
Pegue a mão um cabresto
E saia ao mundo a roubar.

– Diabo besta!... um amarelo como eu, vou roubar... o soldado me prende, me dá uma surra de facão... eu morro... vou lá o que!

- No tempo que me alcançava
Minha goela retinia,
Eu cantava em Itabaiana
Em Simão Dias se ouvia:
Cobra verde, caninana,
Jaracuçu, "cascavé".
Matai-me esses homens todos
Que dá má vida a mulher.

E lau age...

Aracaju, 15/04/1971


O preguiçoso
(versão de dona Josefa de Jesus – Buquim)

- Marido, se alevante,
Deixe de ser preguiçoso,
O homem que não trabalha
Não pode comer gostoso.
– Trabalhar é coisa boa,
Não é minha velha,
Pegar na foice é estrouvo
Adeus, saudade...

– Marido, se alevanta,
Vá matar um jacu,
Pedaço maior é dos meninos
E o pequeno é pra tu.
– O jacu é carne boa,
Não é minha velha,
Na espécie de um urubu,
Adeus, saudade...

– Marido, se alevante,
Seu pai mandou chamar
Partido de arroz ‘tá maduro
E está fácil de ganhar.
– Trabalhar é coisa boa,
Não é minha velha,
O diabo é quem vai lá,
Adeus, saudade...

– Marido, se alevante,
Vá matar uma sariema,
Nós come a carne toda,
Faz a bassoura das penas.
– Quem me dera isso agora,
Não é minha velha,
No braço de uma morena,
Adeus, saudade...

– Marido, se alevante,
Vá matar um zabelê,
pedaço pequeno é dos meninos
E o maior é pra você.
– Zabelê é carne boa,
Não é minha velha,
É danada pra correr,
Adeus, saudade...

– Marido, se alevante,
Vá na casa do caxeirinho
Comprar um metro de pano
pra vestir nosso filhinho.
– Aí tem um colchão velho,
Não é minha velha,
Faz uma calça pra mim,
Adeus, saudade...

– Sujeito infeliz,
Não tem mais o que dizer,
Tomara que o trem te pegue
Pros urubus te comer.
– A fazenda Rio Branco,
Não é minha velha,
Fica aí pra tu vender!
Adeus, saudade...

Aracaju, 15/04/1972


O preguiçoso
(versão de dona Maria Maura – Buquim)

- Marido, tu te alevanta,
Deixa de ser preguiçoso;
O homem que não trabalha
Não pode comer gostoso
– Trabalhar é coisa boa,
Não é minha velha,
Pegar uma foi é estrouvo,
Adeus, saudade...

– Marido, tu te alevanta,
Teu pai manda te chamar,
O partido de arroz tá maduro,
Está fácil de ganhar.
– O arroz é coisa,
Não é minha velha,
Os meus pés não pisam lá,
Adeus, saudade...

– Marido, tu te alevanta,
Vai nas casa de tua avó,
Buscar uma lazarina
Para matar um mocó...
– Surucucu tá na rodia,
Não é minha velha,
Pegar no pé é pior,
Adeus, saudade...

– Marido, tu te alevanta,
Vai matar um jacu,
O pedaço pequeno é dos meninos
O mais maior é pra tu...
– O jacu é carne boa,
Não é minha velha,
É espécie de urubu,
Adeus, saudade...

Marido, tu te alevanta,
Vai matar um zabelê,
O pedaço pequeno é dos meninos
O mais maior é pra você...
– Zabelê é carne boa,
Não é minha velha,
É danada pra correr
Adeus, saudade...

– Marido, tu te alevanta,
Vai matar uma sariema,
Nós come a carne toda,
Faz vassoura das penas...
– Quem me dera estar agora,
Não é minha velha,
Nos braços de uma morena,
Adeus, saudade...

– Marido, tu te alevanta
Vai na casa do caxeirinho
Busca um metro de pano
Pra vestir nossos filhinhos
– Aí tem um colchão velho,
Não é minha velha,
Faz uma calça pra mim
Adeus, saudade...

– Sujeito infeliz
Não tem mais o que fazer;
O trem vai te partir no meio,
Os urubus vão te comer...
– A fazenda Rio Branco
Não é minha velha,
Fica aí pra tu vender
Adeus, saudade...

02/05/1972


(Lima, Jackson da Silva, O folclore em Sergipe, I: romanceiro. p. 422-430)

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