Julho
2002
Ano IV - nº 47 |
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A VELHA BIZUNGA
(versão de Maricá, Rio de Janeiro) |
Velha Bizunga,
Casai vossa filha,
Pra termos um dia
De grande alegria.
"Eu, minha filha,
Não quero casar;
Pois não tenho dote
Para a dotar.
Saiu a Preguiça,
De barriga lisa:
Case a menina,
Que eu dou a camisa.
"Quem dê a camisa
Decerto nós temos;
Mas a saia branca,
Donde a haveremos?
Saiu a cabrita
Do mato manca:
Case a menina,
Darei a saia branca.
"Quem dê saia brancaDe certo nós temos;
Mas o vestido.
Donde o haveremos?
Saiu o veado
Do mato corrido:
Case a menina,
Que eu dou o vestido.
"Quem dê o vestido
De certo nós temos;
Porém os brincos,
Donde os haveremos?
Saiu o cabrito
Dando dois trincos:
Case a menina,
Eu darei os brincos.
"Quem dê os brincos
De certo nós temos;
Mas falta o ouro,
Donde o haveremos?
Saiu do mato
Roncando o besouro
Case a menina,
Queu darei o ouro.
"Quem nos dê o ouro
De certo nós temos;
Mas a cozinheira,
Donde a haveremos?
Saiu a cachorra
Descendo a ladeira:
Casai a menina,
Serei cozinheira.
"Quem seja a cozinheira
É certo já temos;
Porém a mucama,
Donde a haveremos?
Saiu a traíra
De baixo da lama;
Casai a menina,
Serei a mucama.
"Quem seja a mucama
De certo nós temos,
Porém o toucado,
Donde o haveremos?
Saiu o coelho
Todo embandeirado:
Casai a menina,
Darei o toucado.
"Quem dê o toucado
É certo que temos;
Porém o cavalo,
Donde o haveremos?
Saiu do poleiro
Muito teso o galo
Casai a menina,
Que eu dou o cavalo.
"Quem dê o cavalo
De certo nós temos;
Porém o selim,
Donde o haveremos?
Saiu um burro
Comendo capim
Casai a menina,
Darei o selim.
"Quem dê o selim
É certo que temos;
Porém falta o freio,
Donde o haveremos?
Saiu uma vaca,
Pintada no meio:
Casai a menina,
Eu darei o freio.
"Quem nos dê o freio
Sim, senhores, temos;
Porém a manta,
Donde a haveremos?
Saiu a onça
Coa boca que espanta:
Casai a menina,
Que darei a manta.
"Quem nos dê a manta,
É verdade temos;
Mas quem será o noivo?
Donde o haveremos?
Saiu o tatu
Com o seu casco goivo:
Casai a menina,
Que eu serei o noivo.
"O noivo tratado
De certo nós temos;
Porém o padrinho,
Donde o haveremos?
Saiu o ratinho
Todo encolhidinho:
Casai a menina,
Serei o padrinho.
"Quem seja o padrinho
De certo nós temos;
Porém a madrinha.
Donde a teremos?
Saiu a cobrinha,
Toda pintadinha:
Casai a menina,
Serei a madrinha.
"Quem seja a madrinha
De certo nós temos;
Mas quem pague o padre,
Donde o haveremos?
Saiu a cobrinha,
Que era a comadre:
Casai a menina,
Pagarei ao padre.
Cada um dando o que pôde
Todos se arrumaram:
Chamado o padre,
Logo se casaram.
Caindo o sereno
Por cima da grama,
Debaixo da pedra
Fizeram a cama,
Se divertiram,
Cantaram, dançaram;
E diz o lagarto
Que também tocaram.
Se é verdade ou não,
Isso lá não sei;
O que me foi contado
Eu também contei.
O que sei só é
Que tanto brincaram,
Que todos também
Se embebedaram.
Até eu também
Me achei na função,
E pra casa truce
De doce um buião.
(Romero, Sílvio. Cantos populares do Brasil, p.264-269) |
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