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Julho 2001
Ano III - nº 35

OS CURANDEIROS INDÍGENAS
Ritual e curiosos métodos de cura. Medicamentos empregados.
Plantas venenosas e tóxicos de outras procedências.
Pelo doutor Otto Willi Ulrich.

Os curandeiros gozaram e ainda gozam, entre as tribos indígenas, um prestígio espantoso. Suas funções – com ligeiras exceções, entre os indígenas da América do Norte – se resumem em funções religiosas e práticas médicas, sendo que, essas últimas, acompanhadas com danças, juramentos e cerimônias cabalísticas.

Os segredos e o ritual das cerimônias transmitiam de geração a geração com o maior sigilo.

Conhecem um sem número de tóxicos, de várias origens: animal, vegetal e mesmo mineral, cujo emprego escondem ciosamente.

Não é de causar assombro o prestígio que desfrutavam entre seus semelhantes. Esse prestígio que chegava, em certos casos, a verdadeiro pavor, justifica-se plenamente, pois eles sabiam preparar misturas, com certas ervas, que produziam os efeitos mais deploráveis: loucura, idiotia, paralisia, impotência, cegueira, etc. Como não temer um homem que podia, a seu talante, espalhar males tão horríveis? Esse o segredo, a obediência cega que obtinham de toda a tribo.

Durante as cerimônias empregavam os objetos mais variados, tais como matracas, maças, taboinhas (semelhantes às castanholas) e vários amuletos, cada qual para um determinado fim. Com a matraca – para danças ou para magia – pretendiam tirar o "espírito mau" de dentro do corpo do paciente, por meio de exorcismo e danças, ao redor desse, que podiam durar horas a fio. Às vezes costumavam, além dessas práticas, acompanhar com flautas – de chifres ou de tíbias humanas, perfuradas convenientemente – ou então com verdadeiras "flautas de Pan", secundadas por um canto monótono, inexpressivo.

Por meio dessas manobras, de verdadeira magia, sugestionavam com habilidade o doente e conseguiam, em diversos casos, obter resultados satisfatórios que, de outro modo, resultariam ineficientes. Afim de impressionar o paciente começavam a saltar e se agitar de modo frenético ante esses, pronunciando uma série de palavras e gritos sem significação, na língua deles próprios. Costumavam alguns curandeiros tomar, eles mesmos, medicamentos em vez de dá-los aos doentes: eram nesses casos, quase sempre constituídos por narcóticos que os embriagavam totalmente.

O tabaco era a substância de maior emprego e servia para a cura de quase todas as moléstias. A região do corpo, em que se encontrava localizado o mal, defumavam, com grandes baforadas. Utilizavam-se para tal fim cachimbos rústicos ou então de rolos de folhas trituradas de tabaco, envoltas por uma folha ainda verde, cujo conjunto pouco diferenciava dos modernos charutos... Com esses, sopravam fumaça nos ouvidos, quando se tratava de dores nesse órgão, o mesmo fazendo com as queimaduras, dores de ventre, olhos inflamados, abcessos e todas regiões, em geral, onde surgia alguma dor. Sopravam tanto fumo sobre os pacientes que, por fim, estes adormeciam em verdadeiro torpor.

Com as mãos, era hábito fazerem movimentos diversos, em alguns dos quais simulavam segurar uma arma que pretendiam atirar sobre o corpo do doente. Feito isso, começa o curandeiro a fazer mil trejeitos e caretas, simulando apanhar, no ar, coisa invisíveis, que tenta empurrar, pelos olhos a dentro, dos pacientes. Começa então a última parte da cerimônia que consiste em libações, na maior parte dos casos, alcoólicas. Ora, como é notório o álcool em pequenas porções é estimulante, pelo que, o estado geral do paciente recebe um estímulo e apresenta melhora, embora temporária. Isto é causa de assombro, pois os indígenas vêem nisso a manifestação do poder da magia dos feiticeiros que, não raro, devido à maior ou menor habilidade, chegam a usufruir maior prestígio que os próprios caciques.

As tribos do Guaporé têm uma originalidade. Não se utilizavam de fumo, porém de rapé que obtinham pela moagem de folhas secas de tabaco e ministrado por um instrumento que consistia em um tubo terminado por um caroço, que escavavam e servia, como uma colher, para o depósito de rapé. Essa extremidade o curandeiro colocava dentro do nariz do doente e soprava pela outra. Isto trazia, em conseqüência, um acesso de tosse intenso. Na primeira consulta costumavam fazer cinco, ou mesmo seis, dessas aplicações que, via de regra, serviam para curar todo e qualquer mal.

Os curandeiros, na pequena cirurgia, serviam-se dos dentes de piranha e de outros peixes para as sangrias e a abertura de abcessos. Os dentes de peixe, bem afiados e fixados em uma casca de abóbora, serviam como lancetas, para a incisão da pele, provocando hemorragias locais com o intuito de descongestionamento das inflamações. Quando a hemorragia começava a ceder, o curandeiro aplicava sobre o local barro, fuligem, cinza ou então o suco de ervas bravas.

A sangria não é praticada apenas em indivíduos doentes, como também nos sãos, pois dizem ter a faculdade de "despertar a vitalidade". Entre as tribos do Xingu é hábito o curandeiro sangrar o rosto e os braços dos jovens que vão para a caça, para que possam atirar com firmeza e com bom golpe de vista.

É verdade que grande parte da terapêutica, usada entre os indígenas, não passa de charlatanismo, porém, não tudo. Algumas tribos, notadamente as do sertão brasileiro, conhecem o emprego exato das diversas plantas medicinais que se encontram em quase todas as regiões do sertão.

Em certos pontos os curandeiros chegaram a aperfeiçoamento tal, que os próprios civilizados hão de pasmar com certos metódos que empregam. Citarei um, para exemplo: Certa vez tive oportunidade de avistar-me com o curandeiro dos índios Macás. Do Chaco Paraguaio, perto do rio Pilcomayo, e que se chamava Vitatk-Lati.  Trouxeram, para que examinasse, um indígena, já velho, sobre uma padiola de bambu. Pelo aspecto, parecia muito combalido. Vitak-Lati mandou que o pussesem à sombra, sob a fronde de uma bela chuihui e, durante bastante tempo, não fez o menor caso do doente. Por fim, exasperado por aquela indiferença, resolvi perguntar a Vitak-Lati sobre a causa que a motivava. Este, depois de algum tempo disse: "Quando um doente é levado à consulta, a primeira coisa que faço é chegar junto de seu nariz, um punhado de pimenta moída de fresco. Se o paciente espirrar, há esperança de cura e, se não espirrar, todas as tentativas para salva-lo serão baldadas". Assim fez, com o doente, que não espirrou... entregando-o à própria sorte e a fatalidade.

Alguns curandeiros tinham hábitos originais: podiam predizer a hora exata em que um doente gravemente iria falecer! Se acontecia, não morrer nesse dia, era então estrangulado com uma fina corda de palmeira ou sufocado com cobertas, para que seu presságio não pudesse falhar...

Entre algumas tribos é comum o uso de brincos, cabendo aos curandeiros a tarefa de furar as orelhas, as narinas e os lábios. As tribos do Xingu usam como adorno, nos lábios e nariz, pedaços de quartzo e mesmo pederneira, ao passo que as do norte empregam, de preferência, pedaços de bambu e penas de araras, o que é quase regra entre os Nhambiquaras.

Os curandeiros costumam perfurar os lábios das crianças ainda em tenra idade, não raro recém-nascidos, e se utilizavam, para tal fim, de estiletes de osso, ricamente ornados com penas de garça ou de araras.

Antes de ser iniciada a operação, o curandeiro se põe a dançar e saltar, de um lado para outro, ou mesmo em torno do lactante, com trejeitos e, em uma das voltas em torno do paciente, perfura o lábio, com uma picada certeira.

O curandeiro possui, além dos conhecimentos médicos, outros sobre as almas do outro mundo e é a única pessoa capaz de anular seu efeito maléfico. Somente ele vê e governa o espírito dos mortos que podem perambular, fazendo o mal ou então entrar no corpo dos animais.

Os indígenas acreditam que a alma abandona o corpo, durante o sono, voltando novamente ao despertar. Era vigorosamente proibido despertar os adormecidos, pois acreditavam não poder o espírito voltar ao corpo, não voltando a vida o adormecido, pois acreditavam que logo ao dormir, a alma abandonava-o, para deitar-se em um local, às vezes distante, onde pudesse ficar à vontade.

Acreditam os indígenas que o curandeiro morre temporariamente quando, após os exorcismos, caem em profundo sono, efeito de narcóticos ou bebidas alcóolicas. Julgam que sua alma separando-se do corpo, perambula por todas as regiões, tudo vendo e observando, como se fosse em sonho. Os indígenas acreditavam, como verdade insofismável, em tudo aquilo que o curandeiro declarava ter visto em sonho, o que era o segredo de seu grande prestígio.

Muitos negócios e mesmo pequenas iniciativas ficavam na dependência direta da interpretação desses sonhos, sem que houvesse um único indígena capaz de desobedecer às injunções desses curandeiros...

Em certas tribos há um costume singular que consiste em guardar, cuidadosamente e com o máximo conforto, indígenas de outras tribos, portadores de pertubações mentais e paralisias. Vi esse costume entre várias tribos, assim, entre os Barbados – indígenas que habitam o Alto-Paraguai – encontrei um esquizofrênico, um indígena dos Parecis. Entre os Guatos, no Lago Uberada, verifiquei a existência do índio Chiquito, portador de paralisia infantil e, entre os Morés nas margens do Guaporé, um índio mestiço, boliviano, com um estado de demência muito pronunciado.

Os indígenas tratavam esses doentes com o maior desvelo e atribuíam poderes milagrosos aos mesmos, pois achavam que os portadores de pertubações mentais, assim se achavam, devido a influência de um ou mais espíritos que entraram em seus corpos.

Os próprios curandeiros zelavam por eles de modo especial, reservando-lhes o melhor lugar em sua própria cabana, onde eram conservados, sob vigilância rigorosa, para que não fossem raptados por outras tribos, sendo essa guarda redobrada, quando migravam.

* * *

Uma das maiores fontes de prestígio dos curandeiros consistia na aplicação de tóxicos, principalmente de ervas, no que eram de habilidade notável. Vamos descrever algumas ervas de que costumam fazer uso os curandeiros.

Em minhas viagens pelo interior do Brasil tive ocasião de examinar diversas ervas e plantas utilizadas, pelos curandeiros, para fins terapêuticos. Há espécies, e mesmo gêneros ainda inteiramente desconhecidos pela ciência atual, interessante sendo o estudo da composição química dos extratos que, certamente, hão de conter alcalóides ainda não conhecidos.

Empregam plantas e ervas, em infusões, para uso nas cerimônias religiosas, como beberagem, provocando torpor completo ou então sono pronlogado, povoado de sonhos.

Analisei alguns espécimes dessas ervas, encontrando diversos alcalóides, cuja composição não pude determinar, por carência de meios, na ocasião. Presenciei casos espantosos de envenenamento, provocados em alguns animais, a título de demonstração, por curandeiros.

Descreverei, abaixo, algumas plantas utilizadas pelos curandeiros, bem como o efeito que produzem no organismo.

INAZÉ (MANDIOCA BRAVA)

A mandioca brava cresce em todo o interior do Brasil. É de aspecto delicado, quase herbáceo. Tudo é útil, nesse vegetal, desde as folhas às raízes. Estas servem, aos indígenas, como substituto do pão e da própria batata, ao passo que o caule e as folhas servem de forragem para os animais. As raízes necessitam um tratamento especial, pois possuem uma seiva altamente tóxica que deve ser espremida, o que requer um trabalho manual insano devido ao fato de ser desconhecida, nessas regiões, a prensa. A expressão fornece um líquido de alta toxicidade que, depois de fervido e fermentado, torna-se inócuo e é empregado como bebida, muito apreciada entre todos os indígenas da América. Costumam fabricá-la em larga escala. Os indígenas da tribo dos Morés, não se limitam a essa bebida simples, porém fabricam com essa uma verdadeira cerveja, tal como a que conhecemos feita de cevada. Esses indígenas, que habitam as margens do rio Guaporé, denominam essa "cerveja" de – chicha.

A intoxicação pelo suco não fermentado da mandioca não tarda em manifestar-se com o seguinte quadro: náuseas, vômitos, salivação abundante, diarréia, parestesia (pertubação da sensibilidade) da língua, tonteiras, calafrios. Podem surgir ainda outros sintomas, tais como midríase – dilatação das pupilas, bradyphygmia – pulso retardado, respiração estertorante, convulsões, bradypnéa – retardamento da respiração – e, por fim, sobrevém a morte, em poucos minutos.

MAIKÔA

A Maikôa, também denominada pelos indígenas Perarêhêñandê (erva da morte) é uma planta venenosíssima, de efeito tóxico mais enérgico que o ópio. A ingestão de uma dose mínima de seu suco provoca uma sensação de torpor, análogo à embriaguez. Essa substância costumam tomar os indígenas em doses mínimas, durante as festas da lua cheia. Se a dose mínima, tolerada, for ultrapassada, surgem pertubações de lucidez, uma semi-inconsciência, podendo chegar, sem dificuldades, ao coma (perda total do conhecimento e dos movimentos voluntários).

Os primeiros sinais da intoxicação se manisfestam por tonteiras, coceiras, exantemas, púrpuras e outras pertubações próprias da pele, retenção urinária e sonolência. Nos casos mais graves, alucinações, delírio, pertubação da palavra – afasias – angústia, excitação e, em seguida, perdas das faculdades mentais – idiotia.

CAA-TÁ-YÚ

Existe no Mato Grosso, um arbusto que produz pequenos frutos negros, com o tamanho de uma cereja, e denominado Caa-tá-yú pelos indígenas. Esses frutos são de ótimo paladar, bem como agradável aroma, mas, ai do imprudente que tenta comê-los! Em poucos segundos vê-se atacado de cegueira, pois esse tóxico tem como ponto eletivo o nervo ótico. Até mesmo nos animais que ingerem esses frutos traiçoeiros surge a cegueira, em poucos minutos.

O mal se exterioriza pelos seguintes sinais: Diminuição da salivação, que traz, em consequência, sensação de secura na boca e garganta, grande sede, acompanhada de disfagia – dificuldade de deglutir – e taquicardia – aumento do número de batidas do coração. Seguem-se pertubações nervosas, amaurose – perta total da visão – espasmo da pupila e dos músculos lisos em geral – esfíncteres.

TAROPÊ-Y

Uma outra planta, de caule herbáceo, que tem a propriedade de cegar é a Taropê-y, por causa de um látex que escorre quando se parte um ramo. Esta seiva esbranquiçada, em contato com os olhos, provoca séria inflamação (conjutivite) que pode levar à cegueira.

Os indígenas servem-se dessa seiva, por ser viscosa, para colar o veneno nas pontas das setas, pois dessa forma não há hipótese da pasta venenosa se despregar das pontas.

A MAUDRAGORA-TUPI

A maudragora-tupi é uma solanácea com a qual os indígenas fabricam uma aguardente que empregam freqüentemente nas festas religiosas. Essa bebida provoca alucinações que se seguem por um período de completo torpor.

O abuso dessa bebida pode causar pertubações muito graves, delírio, loucura furiosa, alteração da sensibilidade e do raciocínio, que pode ir até a total confusão das coisas e objetos e incoordenação no emprego de palavras com notável diminuição de inteligência – paranóia.

TAPÊ-TAPÊ

Uma planta perigosa é a Tapê-Tapê, como a denominam os indígenas, uma sorte de urtigas que, na parte inferior das folhas, possuem finos cílios. O contato da língua com essas folhas pode trazer a morte em poucos minutos. Os indígenas utilizam-se dessas folhas para o preparo de iscas com que apanham animais bravios, que, ingerindo-as, morrem fatalmente, em poucos minutos.

O veneno desse cílios deixa manchas cinza-claro onde tocam e, se na língua, provocam abundante salivação acompanhada de ardor insuportável.

Sobrevém então a tetania, seguida de paralisia que, pouco depois, traz a morte.

COCA

A Coca é uma planta da família das erythroxileas, muito comum no Peru. Suas folhas contêm um alcalóide de propriedades anestésicas – a cocaína. Os indígenas preparam um chá com essas folhas que ingerem em grandes quantidades caindo em um estado de completo abandono, verdadeiro torpor.

O uso desse chá, com o tempo, provoca intoxicação do organismo que se caracteriza pelo aparecimento de bolhas na pele, sensação de secura na boca, tonteiras, midriase, contrações epilitiformes e colapso.

CAI-TAI

Ao contrário do que se dá com a Coca, que produz sonolência e torpor pronunciados, a Cai-tai, espécie de Liana, traz alegria e jovialidade, quando ingerida. A ingestão provoca até alucinações, em que o paciente se sente compelido a movimentar-se, sem cessar. Faz esquecer toda a noção de espaço e de tempo.

O preparo da bebida é feito unicamente pelo curandeiro que a distribui só nos dias das cerimônias religiosas.

O abuso da bebida do Cai-Tai pode trazer tonteiras, pertubações da audição e da visão, com o aumento das pupilas – midriase – secundado por dores de cabeça e vômitos. Seguem-se dores precordiais e convulsões, salivação intensa e, por fim, colapso.

O alcalóide dessa Liana assemelha-se ao da arruda das Steppes (Peganus Harmala) conhecido por Harmin e, modernamente, por Banisterma. Utilizada contra a rigidez, na "paralisia agitante" de Parkinson.

YSIÔ

Outra planta que possui a propriedade de embriagar é uma espécie de cardo, denominado pelos indígenas – Ysiô. Principalmente nas cerimônias fúnebres, utilizavam-se da bebida feita pela seiva dessa planta, ou então de pedaços do próprio vegetal.

A ingestão dessa bebida provoca curiosos efeitos sobre o organismo. Provoca alucinações nas quais o paciente vê combinações de cores, em uma espécie de sonambulismo, de tal beleza, impossível de ser descrita. O abuso dessa bebida ocasiona a impotência.

O CURARE

O curare é o veneno utilizado, pelos indígenas, em suas flechas. É tirado de diversos vegetais do gênero Strichnos, por decocção, seguida de decantação e cozimento, até que adquira a consistência pastosa.

O Curare tem a cor negra, e é um veneno de efeito ativíssimo, pois, pelo menor contato, às vezes um simples arranhão, provoca a morte em alguns segundos.

Os sintomas de envenenamento por Curare podem ser locais e gerais. Encontramos entre os locais: púrpuras e edemas que se transformam, posteriormente, em equimoses. Entre os gerais, citemos: espasmos, movimentos convulsivos tônicos ou clônicos, produzidos na musculatura dos membros, contrações tetânicas – trismo – (imobilidade dos maxilares). Seguem-se contratura do tronco, com queda para trás – opisthotonos. Aumento dos reflexos e paralisia dos músculos inspiradores, o que vem ocasionar a asfixia. O doente morre de modo bárbaro, em plena posse de todos os sentidos.

Os índios Nhambiquaras usam uma mistura de Curare, muito fraca, que não chega a matar, e empregam principalmente na caçada, em que queiram aprisionar o animal, ainda com vida.

Pincelam as pontas das flechas, especialmente preparadas para esse fim, com a mistura branda de Curare, que atiram sobre os animais, do mesmo modo como fazem com as setas com peçonha de ofídios.

Apesar da ferida ser de tamanho mínimo, os animais caem imediatamente como se tivessem recebido uma injeção, à distância, de tóxico.

Esse Curare, de efeito atenuado, não ultrapassa mais de duas horas de ação, a qual, uma vez passada, não deixa pertubação alguma.

Os indígenas que habitam as margens do rio São Miguel, região do Guaporé, da tribo dos Abitana-Huanyam, atiram pequenas flechas, enfiadas em rolhas de Sumanna.

Essas flechas são embebidas em Curare e atiradas por meio de um tubo, no qual sopram, denominado – "Zarabatana". Empregam essas setas envenenadas quase exclusivamente na caça de onça e macacos.

Esse veneno, de efeitos terríveis, tem sua utilidade, para fins terapêuticos, principalmente como anti-tetânico, em soluções a 1% ou seja, 1:10,0 de água destilada, em injeções subcutâneas, com 0.002 até 0.005 desse líquido.

* * *

Além das plantas que descrevemos, há uma infinidade de outras de menor importância, porém também muito venenosas.

No gênero das gramíneas, há várias espécies de capim altamente tóxicas, por conterem ácido cianídrico (ou prússico).

Podemos citar ainda o Mangrove, cujas flores, entreabertas, espargem um perfume de doce fragância, que aspirado, durante algum tempo, tem propriedades hipnóticas, entorpecentes.

* * *

Quase todos os indígenas do Brasil são admiráveis conhecedores das propriedades de cada erva e cada planta venenosa que se encontra em seu vasto hinterland. Seus "curandeiros" são de admirável mestria no preparo de drogas narcóticas embriagadoras, no que podem medir forças com os farmacêuticos, que têm, para seu auxílio, aparelhos sensíveis, ao passo que aqueles contam apenas com os órgãos dos sentidos.

Não é impossível a descoberta de novos alcalóides, certamente já do domínio dos curandeiros, mas, cujo segredo guardam ciosamente, não revelando, mesmo em se empregando os mais ardilosos estratagemas...

(Um capítulo do livro Índios, história de uma grande nação, pelo Dr. Otto Willi Ulrich, traduzido por Jorge Bräuniger)

(Em Intercâmbio, janeiro/março de 1939)

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