| Os curandeiros gozaram e ainda
gozam, entre as tribos indígenas, um prestígio espantoso. Suas funções com
ligeiras exceções, entre os indígenas da América do Norte se resumem em
funções religiosas e práticas médicas, sendo que, essas últimas, acompanhadas com
danças, juramentos e cerimônias cabalísticas. Os
segredos e o ritual das cerimônias transmitiam de geração a geração com o maior
sigilo.
Conhecem um sem número de tóxicos, de várias origens:
animal, vegetal e mesmo mineral, cujo emprego escondem ciosamente.
Não é de causar assombro o prestígio que desfrutavam
entre seus semelhantes. Esse prestígio que chegava, em certos casos, a verdadeiro pavor,
justifica-se plenamente, pois eles sabiam preparar misturas, com certas ervas, que
produziam os efeitos mais deploráveis: loucura, idiotia, paralisia, impotência,
cegueira, etc. Como não temer um homem que podia, a seu talante, espalhar males tão
horríveis? Esse o segredo, a obediência cega que obtinham
de toda a tribo.
Durante as cerimônias empregavam os objetos mais
variados, tais como matracas, maças, taboinhas (semelhantes às castanholas) e vários
amuletos, cada qual para um determinado fim. Com a matraca para danças ou para
magia pretendiam tirar o "espírito mau" de dentro do corpo do paciente,
por meio de exorcismo e danças, ao redor desse, que podiam durar horas a fio. Às vezes
costumavam, além dessas práticas, acompanhar com flautas de chifres ou de tíbias
humanas, perfuradas convenientemente ou então com verdadeiras "flautas de
Pan", secundadas por um canto monótono, inexpressivo.
Por meio dessas manobras, de verdadeira magia,
sugestionavam com habilidade o doente e conseguiam, em diversos casos, obter resultados
satisfatórios que, de outro modo, resultariam ineficientes. Afim de impressionar o
paciente começavam a saltar e se agitar de modo frenético ante esses, pronunciando uma
série de palavras e gritos sem significação, na língua deles próprios. Costumavam
alguns curandeiros tomar, eles mesmos, medicamentos em vez de dá-los aos doentes: eram
nesses casos, quase sempre constituídos por narcóticos que os embriagavam totalmente.
O tabaco era a substância de maior emprego e servia para
a cura de quase todas as moléstias. A região do corpo, em que se encontrava localizado o
mal, defumavam, com grandes baforadas. Utilizavam-se para tal fim cachimbos rústicos ou
então de rolos de folhas trituradas de tabaco, envoltas por uma folha ainda verde, cujo
conjunto pouco diferenciava dos modernos charutos... Com esses, sopravam fumaça nos
ouvidos, quando se tratava de dores nesse órgão, o mesmo fazendo com as queimaduras,
dores de ventre, olhos inflamados, abcessos e todas regiões, em geral, onde surgia alguma
dor. Sopravam tanto fumo sobre os pacientes que, por fim, estes adormeciam em verdadeiro
torpor.
Com as mãos, era hábito fazerem movimentos diversos, em
alguns dos quais simulavam segurar uma arma que pretendiam atirar sobre o corpo do doente.
Feito isso, começa o curandeiro a fazer mil trejeitos e caretas, simulando apanhar, no
ar, coisa invisíveis, que tenta empurrar, pelos olhos a dentro, dos pacientes. Começa
então a última parte da cerimônia que consiste em libações, na maior parte dos casos,
alcoólicas. Ora, como é notório o álcool em pequenas porções é estimulante, pelo
que, o estado geral do paciente recebe um estímulo e apresenta melhora, embora
temporária. Isto é causa de assombro, pois os indígenas vêem nisso a manifestação do
poder da magia dos feiticeiros que, não raro, devido à maior ou menor habilidade, chegam
a usufruir maior prestígio que os próprios caciques.
As tribos do Guaporé têm uma originalidade. Não se
utilizavam de fumo, porém de rapé que obtinham pela moagem de folhas secas de tabaco e
ministrado por um instrumento que consistia em um tubo terminado por um caroço, que
escavavam e servia, como uma colher, para o depósito de rapé. Essa extremidade o
curandeiro colocava dentro do nariz do doente e soprava pela outra. Isto trazia, em conseqüência, um acesso de tosse intenso. Na primeira consulta
costumavam fazer cinco, ou mesmo seis, dessas aplicações que, via de regra, serviam para
curar todo e qualquer mal.
Os curandeiros, na pequena cirurgia, serviam-se dos
dentes de piranha e de outros peixes para as sangrias e a abertura de abcessos. Os dentes
de peixe, bem afiados e fixados em uma casca de abóbora, serviam como lancetas, para a
incisão da pele, provocando hemorragias locais com o intuito de descongestionamento das
inflamações. Quando a hemorragia começava a ceder, o curandeiro aplicava sobre o local
barro, fuligem, cinza ou então o suco de ervas bravas.
A sangria não é praticada apenas em indivíduos
doentes, como também nos sãos, pois dizem ter a faculdade de "despertar a
vitalidade". Entre as tribos do Xingu é hábito o curandeiro sangrar o rosto e os
braços dos jovens que vão para a caça, para que possam atirar com firmeza e com bom
golpe de vista.
É verdade que grande parte da terapêutica, usada entre os indígenas, não passa de
charlatanismo, porém, não tudo. Algumas tribos, notadamente as do sertão brasileiro,
conhecem o emprego exato das diversas plantas medicinais que se encontram em quase todas
as regiões do sertão.
Em certos pontos os curandeiros chegaram a
aperfeiçoamento tal, que os próprios civilizados hão de pasmar com certos metódos que
empregam. Citarei um, para exemplo: Certa vez tive oportunidade de avistar-me com o
curandeiro dos índios Macás. Do Chaco Paraguaio, perto do rio Pilcomayo, e que se
chamava Vitatk-Lati. Trouxeram, para que examinasse, um indígena, já velho, sobre
uma padiola de bambu. Pelo aspecto, parecia muito combalido. Vitak-Lati mandou que o
pussesem à sombra, sob a fronde de uma bela chuihui e, durante bastante tempo, não fez o
menor caso do doente. Por fim, exasperado por aquela indiferença, resolvi perguntar a
Vitak-Lati sobre a causa que a motivava. Este, depois de algum tempo disse: "Quando
um doente é levado à consulta, a primeira coisa que faço é chegar junto de seu nariz,
um punhado de pimenta moída de fresco. Se o paciente espirrar, há esperança de cura e,
se não espirrar, todas as tentativas para salva-lo serão baldadas". Assim fez, com
o doente, que não espirrou... entregando-o à própria sorte e a fatalidade.
Alguns curandeiros tinham hábitos originais: podiam
predizer a hora exata em que um doente gravemente iria falecer! Se acontecia, não morrer
nesse dia, era então estrangulado com uma fina corda de palmeira ou sufocado com
cobertas, para que seu presságio não pudesse falhar...
Entre algumas tribos é comum o uso de brincos, cabendo
aos curandeiros a tarefa de furar as orelhas, as narinas e os lábios. As tribos do Xingu
usam como adorno, nos lábios e nariz, pedaços de quartzo e mesmo pederneira, ao passo
que as do norte empregam, de preferência, pedaços de bambu e penas de araras, o que é
quase regra entre os Nhambiquaras.
Os curandeiros costumam perfurar os lábios das crianças
ainda em tenra idade, não raro recém-nascidos, e se utilizavam, para tal fim, de
estiletes de osso, ricamente ornados com penas de garça ou de araras.
Antes de ser iniciada a operação, o curandeiro se põe
a dançar e saltar, de um lado para outro, ou mesmo em torno do lactante, com trejeitos e,
em uma das voltas em torno do paciente, perfura o lábio, com uma picada certeira.
O curandeiro possui, além dos conhecimentos médicos,
outros sobre as almas do outro mundo e é a única pessoa capaz de anular seu efeito
maléfico. Somente ele vê e governa o espírito dos mortos que podem perambular, fazendo
o mal ou então entrar no corpo dos animais.
Os indígenas acreditam que a alma abandona o corpo,
durante o sono, voltando novamente ao despertar. Era vigorosamente proibido despertar os
adormecidos, pois acreditavam não poder o espírito voltar ao corpo, não voltando a vida
o adormecido, pois acreditavam que logo ao dormir, a alma abandonava-o, para deitar-se em
um local, às vezes distante, onde pudesse ficar à vontade.
Acreditam os indígenas que o curandeiro morre
temporariamente quando, após os exorcismos, caem em profundo sono, efeito de narcóticos
ou bebidas alcóolicas. Julgam que sua alma separando-se do corpo, perambula por todas as
regiões, tudo vendo e observando, como se fosse em sonho. Os indígenas acreditavam, como
verdade insofismável, em tudo aquilo que o curandeiro declarava ter visto em sonho, o que
era o segredo de seu grande prestígio.
Muitos negócios e mesmo pequenas iniciativas ficavam na
dependência direta da interpretação desses sonhos, sem que houvesse um único indígena
capaz de desobedecer às injunções desses curandeiros...
Em certas tribos há um costume singular que consiste em
guardar, cuidadosamente e com o máximo conforto, indígenas de outras tribos, portadores
de pertubações mentais e paralisias. Vi esse costume entre várias tribos, assim, entre
os Barbados indígenas que habitam o Alto-Paraguai encontrei um
esquizofrênico, um indígena dos Parecis. Entre os Guatos, no Lago Uberada, verifiquei a
existência do índio Chiquito, portador de paralisia infantil e, entre os Morés nas
margens do Guaporé, um índio mestiço, boliviano, com um estado de demência muito
pronunciado.
Os indígenas tratavam esses doentes com o maior desvelo
e atribuíam poderes milagrosos aos mesmos, pois achavam que os portadores de
pertubações mentais, assim se achavam, devido a influência de um ou mais espíritos que
entraram em seus corpos.
Os próprios curandeiros zelavam por eles de modo
especial, reservando-lhes o melhor lugar em sua própria cabana, onde eram conservados,
sob vigilância rigorosa, para que não fossem raptados por outras tribos, sendo essa
guarda redobrada, quando migravam.
* * *
Uma das maiores fontes de prestígio dos curandeiros
consistia na aplicação de tóxicos, principalmente de ervas, no que eram de habilidade
notável. Vamos descrever algumas ervas de que costumam fazer uso os curandeiros.
Em minhas viagens pelo interior do Brasil tive ocasião
de examinar diversas ervas e plantas utilizadas, pelos curandeiros, para fins
terapêuticos. Há espécies, e mesmo gêneros ainda inteiramente desconhecidos pela
ciência atual, interessante sendo o estudo da composição química dos extratos que,
certamente, hão de conter alcalóides ainda não conhecidos.
Empregam plantas e ervas, em infusões, para uso nas
cerimônias religiosas, como beberagem, provocando torpor completo ou então sono
pronlogado, povoado de sonhos.
Analisei alguns espécimes dessas ervas, encontrando
diversos alcalóides, cuja composição não pude determinar, por carência de meios, na
ocasião. Presenciei casos espantosos de envenenamento, provocados em alguns animais, a
título de demonstração, por curandeiros.
Descreverei, abaixo, algumas plantas utilizadas pelos
curandeiros, bem como o efeito que produzem no organismo.
INAZÉ (MANDIOCA BRAVA)
A mandioca brava cresce em todo o interior do Brasil. É
de aspecto delicado, quase herbáceo. Tudo é útil, nesse vegetal, desde as folhas às
raízes. Estas servem, aos indígenas, como substituto do pão e da própria batata, ao
passo que o caule e as folhas servem de forragem para os animais. As raízes necessitam um
tratamento especial, pois possuem uma seiva altamente tóxica que deve ser espremida, o
que requer um trabalho manual insano devido ao fato de ser desconhecida, nessas regiões,
a prensa. A expressão fornece um líquido de alta toxicidade que, depois de fervido e
fermentado, torna-se inócuo e é empregado como bebida, muito apreciada entre todos os
indígenas da América. Costumam fabricá-la em larga escala. Os indígenas da tribo dos
Morés, não se limitam a essa bebida simples, porém fabricam com essa uma verdadeira
cerveja, tal como a que conhecemos feita de cevada. Esses indígenas, que habitam as
margens do rio Guaporé, denominam essa "cerveja" de chicha.
A intoxicação pelo suco não fermentado da mandioca
não tarda em manifestar-se com o seguinte quadro: náuseas, vômitos, salivação
abundante, diarréia, parestesia (pertubação da sensibilidade) da língua, tonteiras,
calafrios. Podem surgir ainda outros sintomas, tais como midríase dilatação das
pupilas, bradyphygmia pulso retardado, respiração estertorante,
convulsões, bradypnéa retardamento da respiração e, por fim,
sobrevém a morte, em poucos minutos.
MAIKÔA
A Maikôa, também denominada pelos indígenas
Perarêhêñandê (erva da morte) é uma planta venenosíssima, de efeito tóxico mais
enérgico que o ópio. A ingestão de uma dose mínima de seu suco provoca uma sensação
de torpor, análogo à embriaguez. Essa substância costumam tomar os indígenas em doses
mínimas, durante as festas da lua cheia. Se a dose mínima, tolerada, for ultrapassada,
surgem pertubações de lucidez, uma semi-inconsciência, podendo chegar, sem
dificuldades, ao coma (perda total do conhecimento e dos movimentos voluntários).
Os primeiros sinais da intoxicação se manisfestam por
tonteiras, coceiras, exantemas, púrpuras e outras pertubações próprias da pele,
retenção urinária e sonolência. Nos casos mais graves, alucinações, delírio,
pertubação da palavra afasias angústia, excitação e, em seguida, perdas
das faculdades mentais idiotia.
CAA-TÁ-YÚ
Existe no Mato Grosso, um arbusto que produz pequenos
frutos negros, com o tamanho de uma cereja, e denominado Caa-tá-yú pelos indígenas.
Esses frutos são de ótimo paladar, bem como agradável aroma, mas, ai do imprudente que
tenta comê-los! Em poucos segundos vê-se atacado de cegueira, pois esse tóxico tem como
ponto eletivo o nervo ótico. Até mesmo nos animais que ingerem esses frutos traiçoeiros
surge a cegueira, em poucos minutos.
O mal se exterioriza pelos seguintes sinais: Diminuição
da salivação, que traz, em consequência, sensação de secura na boca e garganta,
grande sede, acompanhada de disfagia dificuldade de deglutir e taquicardia
aumento do número de batidas do coração. Seguem-se pertubações nervosas,
amaurose perta total da visão espasmo da pupila e dos músculos lisos em
geral esfíncteres.
TAROPÊ-Y
Uma outra planta, de caule herbáceo, que tem a
propriedade de cegar é a Taropê-y, por causa de um látex que escorre quando se parte um
ramo. Esta seiva esbranquiçada, em contato com os olhos, provoca séria inflamação
(conjutivite) que pode levar à cegueira.
Os indígenas servem-se dessa seiva, por ser viscosa,
para colar o veneno nas pontas das setas, pois dessa forma não há hipótese da pasta
venenosa se despregar das pontas.
A MAUDRAGORA-TUPI
A maudragora-tupi é uma solanácea com a qual os
indígenas fabricam uma aguardente que empregam freqüentemente nas festas religiosas.
Essa bebida provoca alucinações que se seguem por um período de completo torpor.
O abuso dessa bebida pode causar pertubações muito
graves, delírio, loucura furiosa, alteração da sensibilidade e do raciocínio, que pode
ir até a total confusão das coisas e objetos e incoordenação no emprego de palavras
com notável diminuição de inteligência paranóia.
TAPÊ-TAPÊ
Uma planta perigosa é a Tapê-Tapê, como a denominam os
indígenas, uma sorte de urtigas que, na parte inferior das folhas, possuem finos cílios.
O contato da língua com essas folhas pode trazer a morte em poucos minutos. Os indígenas
utilizam-se dessas folhas para o preparo de iscas com que apanham animais bravios, que,
ingerindo-as, morrem fatalmente, em poucos minutos.
O veneno desse cílios deixa manchas cinza-claro onde
tocam e, se na língua, provocam abundante salivação acompanhada de ardor insuportável.
Sobrevém então a tetania, seguida de paralisia que,
pouco depois, traz a morte.
COCA
A Coca é uma planta da família das erythroxileas,
muito comum no Peru. Suas folhas contêm um alcalóide de propriedades anestésicas
a cocaína. Os indígenas preparam um chá com essas folhas que ingerem em grandes
quantidades caindo em um estado de completo abandono, verdadeiro torpor.
O uso desse chá, com o tempo, provoca intoxicação do
organismo que se caracteriza pelo aparecimento de bolhas na pele, sensação de secura na
boca, tonteiras, midriase, contrações epilitiformes e colapso.
CAI-TAI
Ao contrário do que se dá com a Coca, que produz
sonolência e torpor pronunciados, a Cai-tai, espécie de Liana, traz alegria e
jovialidade, quando ingerida. A ingestão provoca até alucinações, em que o paciente se
sente compelido a movimentar-se, sem cessar. Faz esquecer toda a noção de espaço e de
tempo.
O preparo da bebida é feito unicamente pelo curandeiro
que a distribui só nos dias das cerimônias religiosas.
O abuso da bebida do Cai-Tai pode trazer tonteiras,
pertubações da audição e da visão, com o aumento das pupilas midriase
secundado por dores de cabeça e vômitos. Seguem-se dores precordiais e convulsões,
salivação intensa e, por fim, colapso.
O alcalóide dessa Liana assemelha-se ao da arruda das
Steppes (Peganus Harmala) conhecido por Harmin e, modernamente, por Banisterma.
Utilizada contra a rigidez, na "paralisia agitante" de Parkinson.
YSIÔ
Outra planta que possui a propriedade de embriagar é uma
espécie de cardo, denominado pelos indígenas Ysiô. Principalmente nas
cerimônias fúnebres, utilizavam-se da bebida feita pela seiva dessa planta, ou então de
pedaços do próprio vegetal.
A ingestão dessa bebida provoca curiosos efeitos sobre o
organismo. Provoca alucinações nas quais o paciente vê combinações de cores, em uma
espécie de sonambulismo, de tal beleza, impossível de ser descrita. O abuso dessa bebida
ocasiona a impotência.
O CURARE
O curare é o veneno utilizado, pelos indígenas, em suas
flechas. É tirado de diversos vegetais do gênero Strichnos, por decocção,
seguida de decantação e cozimento, até que adquira a consistência pastosa.
O Curare tem a cor negra, e é um veneno de efeito
ativíssimo, pois, pelo menor contato, às vezes um simples arranhão, provoca a morte em
alguns segundos.
Os sintomas de envenenamento por Curare podem ser locais
e gerais. Encontramos entre os locais: púrpuras e edemas que se transformam,
posteriormente, em equimoses. Entre os gerais, citemos: espasmos, movimentos convulsivos
tônicos ou clônicos, produzidos na musculatura dos membros, contrações tetânicas
trismo (imobilidade dos maxilares). Seguem-se contratura do tronco, com
queda para trás opisthotonos. Aumento dos reflexos e paralisia dos
músculos inspiradores, o que vem ocasionar a asfixia. O doente morre de modo bárbaro, em
plena posse de todos os sentidos.
Os índios Nhambiquaras usam uma mistura de Curare, muito
fraca, que não chega a matar, e empregam principalmente na caçada, em que queiram
aprisionar o animal, ainda com vida.
Pincelam as pontas das flechas, especialmente preparadas
para esse fim, com a mistura branda de Curare, que atiram sobre os animais, do mesmo modo
como fazem com as setas com peçonha de ofídios.
Apesar da ferida ser de tamanho mínimo, os animais caem
imediatamente como se tivessem recebido uma injeção, à distância, de tóxico.
Esse Curare, de efeito atenuado, não ultrapassa mais de
duas horas de ação, a qual, uma vez passada, não deixa pertubação alguma.
Os indígenas que habitam as margens do rio São Miguel,
região do Guaporé, da tribo dos Abitana-Huanyam, atiram pequenas flechas, enfiadas em
rolhas de Sumanna.
Essas flechas são embebidas em Curare e atiradas por
meio de um tubo, no qual sopram, denominado "Zarabatana". Empregam essas
setas envenenadas quase exclusivamente na caça de onça e macacos.
Esse veneno, de efeitos terríveis, tem sua utilidade,
para fins terapêuticos, principalmente como anti-tetânico, em soluções a 1% ou seja,
1:10,0 de água destilada, em injeções subcutâneas, com 0.002 até 0.005 desse
líquido.
* * *
Além das plantas que descrevemos, há uma infinidade de
outras de menor importância, porém também muito venenosas.
No gênero das gramíneas, há várias espécies de capim
altamente tóxicas, por conterem ácido cianídrico (ou prússico).
Podemos citar ainda o Mangrove, cujas flores,
entreabertas, espargem um perfume de doce fragância, que aspirado, durante algum tempo,
tem propriedades hipnóticas, entorpecentes.
* * *
Quase todos os indígenas do Brasil são admiráveis
conhecedores das propriedades de cada erva e cada planta venenosa que se encontra em seu
vasto hinterland. Seus "curandeiros" são de admirável mestria no
preparo de drogas narcóticas embriagadoras, no que podem medir forças com os
farmacêuticos, que têm, para seu auxílio, aparelhos sensíveis, ao passo que aqueles
contam apenas com os órgãos dos sentidos.
Não é impossível a descoberta de novos alcalóides,
certamente já do domínio dos curandeiros, mas, cujo segredo guardam ciosamente, não
revelando, mesmo em se empregando os mais ardilosos estratagemas...
(Um capítulo do livro Índios, história de uma
grande nação, pelo Dr. Otto Willi Ulrich, traduzido por Jorge Bräuniger)
(Em Intercâmbio,
janeiro/março de 1939)
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