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Julho 2001
Ano III - nº 35

PENTEADA POR CABELEREIRO

Outrora não havia festa nesta mui leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro a que as senhoras que se prezavam de elegantes, não comparecessem com um vestido novo e sobretudo penteadas por cabelereiros.

A que procurava fazer figura em um baile ou função popular com a toilette já usada, embora apenas uma vez, tornava-se alvo de severa crítica e dos mais amargos epigramas.

Quantas vezes o leitor não ouviu e não há de ter ouvido ainda nos salões e às portas das lojas:

- É o mesmo vestido, com que foi ao baile do Cassino.

- Santa Bárbara! Aquele vestido ainda dura! É mais velho, muito mais velho que o meu de popeline que mandei fazer para a festa da Glória...

- Ora, ora, sem comparação. Antes de ir ao Cassino, já ela tinha ido com ele àquele grande baile das Laranjeiras, onde por sinal a senhora fez sucesso com uma linda túnica de filó enfeitada de flores do campo.

- É verdade. Que excelente memória!

- A mim nada me escapa. Olhe, está vendo aquela sujeitinha que ali está...

- A de azul?

- Não, a de branco, muito magrinha e muito escorrida, que parece um cartucho de pimenta do reino.

- Ah!

- Vai a toda parte com aquele vestido; parece-me que é o único que tem.

- Também não há de ser tanto assim.

- É o que lhe digo. Já o conheço do baile do comendador F..., das partidas do J..., do S... e do clube de Botafogo, da festa do clube de Regatas.

- Tem durado.

- Ora, aquilo é só mudar as fitas, consertar os rasgões com uns pontarecos e está pronto.. Chegue-se para perto, e veja o estado em que ele está: - é um molambo!

- Há gente que tem cara para tudo.

Felizmente, porém, ou seja porque vão se infiltrando nossos hábitos às boas práticas dos países civilizados, ou porque a conquista do metal sonante vai se tornando dia por dia mais difícil, o belo sexo, com grande contentamento dos maridos e dos pais, começa a enxergar as cousas por prisma muito diverso do que via outrora.

A mulher sensata já não faz de um vestido novo questão de vida e de morte.

O cabelereiro começa também a perder a importância.

O pai de família ou o marido, fazendo o orçamento das despesas de um baile, não inclui mais nelas a verba – penteados.

Deve-se à moda esse grande melhoramento econômico.

À moda, sim, leitores, por que hoje o grande chique feminino é trazer os cabelos emaranhados, em desordem; de sorte que, quanto mais despenteada está uma moça, mais elegantemente penteada está. Há ainda entretanto, senhoras, que não dispensam para as grandes festas o cabelereiro.

Os leitores ainda não assistiram a um penteado por cabelereiro?

É uma cena importante.

No dia da função a penteada amanhece de trancinhas, as quais foram feitas à véspera, à noite, e que a impediram de dormir o sono calmo e tranqüilo de todos os dias.

As trancinhas têm por fim eriçar os cabelos, isto é, preparar o terreno onde o cabelereirohá de realizar as suas brilhaturas artísticas.

Não há mulher, por mais bela que seja, que não fique horrível sob a influência desta metamorfose preparatória.

Conheci certo sujeito que adorava uma interessante rapariga. Por ela estaria disposto até a dar a vida, como dizem os namorados no período febril da paixão aguda.

Viu-a um dia de trancinhas e... fugiu espavorido.

Às seis horas da tarde entra o cabelereiro.

Todas as criadas e mucamas da casa vêm para a porta do quarto, onde se passa a cena.

Uma empunha a toalha.

Outra traz os grampos.

Outra tem a caixa de pó de arroz.

Duas, uma de cada lado, com o castiçal e a competente vela acesa, iluminam o quadro do espelho, onde sorri afogueada a cabeça da penteanda.

Algumas vieram assistir ao ato por mera curiosidade.

Outras esperam ordens.

O artistas, com um maço de grampos entre dentes, o pente fincado na basta cabeleira ou nos caracóis da hírsula suíça, desempenha com o maior desembaraço as suas funções.

Pouco a pouco, como sob a influência de um fiat, o penteado começa a surgir do caos dos cabelos em desordem.

A comparsaria está extasiada.

A protagonista é que não se extasia por qualquer coisa, e tem sempre observações a fazer.

Ouçamos o diálogo:

- O senhor está me descobrindo muito a testa.

- Oh! non madame.

- Parece-me que este penteado não me vai bem.

- Non diz iste, madame, çá vous va tres bien.

- Negrinha, levanta mais a vela. Esta parte daqui da frente está tão estufada...

- C'est la mode, madame.

- Fico horrível.

- Non fica, senhorre.

- Fico, sim. Ó peste, levanta esta vela.

- Si a senhorre quer, pode mudarr.

- O que é que você diz, Catarina? Fica melhor assim ou com a testa toda coberta?

- Assim mesmo está bonito, sinhazinha.

- Ora dá-se? Ó ladrão, levanta esta vela. Devo ir com flores ou sem nada?

- Com flores, madame, c'est la dernière mode. Eu vai mostrarr à senhorre uma bonita grinalda de paquerettes que eu traz expressamente para senhorre.

- Deixe-me ver.

- Voilá.

- Não é feia.

- Ravissante!

- Ó negrinha, levanta esta vela. Eu perco a paciência. Ponha as flores.

- Madame, vai ver comme c'est folie.

Terminado o penteado, a protagonista tem sempre cousas a dizer em desabono do artista.

Ora é uma flor que ficou especada produzindo péssimo efeito.

Ora é a disposição dos cabelos, que não lhe agrada.

Ora chega ao espelho e diz:

- Não quero, não quero isto. Estou com cara de cachorro d'água.

Ou então:

- Vejam só que efeito produz esta camélia aqui ao lado. Parece uma lanterna de tílburi.

À noite, no baile, ao vê-la visivelmente contrariada, perguntam-lhe todas:

- Está doente?

- Não; um ligeiro incômodo moral.

E aquele mau humor é devido unicamente ao penteado.

Como é agradável!

[século XIX]


(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Folhetins)

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