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Julho 2001
Ano III - nº 35

CLUBE CONCÓRDIA (entre 1908 e 1915)

Houvera antigamente um Clube Concórdia onde se casaram as moças da geração de minha mãe: a filha de Cerqueira César com o Júlio Mesquita; a do Duarte Azevedo com o Aureliano Amaral; a do Benevides com o Gabriel Rezende; a do Melo Oliveira com o Arnaldo Vieira de Carvalho; a do Bernardino de Campos com o Ângelo Araújo; a do Diogo de Barros com o Rivadávia Correia; a irmã do Ramos de Azevedo com o Cardoso de Almeida; a filha do Martim Francisco com o Paulo de Sousa Queirós.

Acabara o Clube Concórdia fazia tempo; nascera agora um novo Clube Concórdia.

Não contando o baile de carnaval do Clube São Paulo, os do Concórdia eram os mais importantes da cidade e realizavam-se de três em três meses, no Salão Germânia, (depois Clube Pinheiros) à Rua Dom José de Barros.

No alto da escada de entrada ficava a comissão de recepção, de seis a dez rapazes, escalados, variando de baile para baile. Lá estavam desde nove e meia da noite, mas as famílias começavam a chegar às dez.

A cada família que chegava, destacava-se um dos membros da comissão de recepção, descia alguns degraus, fazia uma cortesia à senhora, oferecia-lhe braço, ela desprendia-se do marido e prendia-se ao novo braço, havia sorrisos de cumprimentos, e o rapaz conduzia a senhora e as filhas até o vestiário, onde deixavam as capas, olhavam-se ao espelho, abriam a carteira, tiravam o caderninho de folhas papel de seda borrifadas de pó de arroz, e esfregavam uma no nariz "para tirar o lustro". Era esse o maquillage.

O salão, de colunas brancas, entre o centro e as laterais, como nas igrejas, "estava deslumbrantemente ornamentado". Cada coluna era envolvida por um cordão espiralado, de folhas de pinheiro europeu, com uma flor espetada de ponta a ponta.

A iluminação consistia em quantidade de lustres de cristal, realmente bonitos e ricos, intensamente brilhantes de luz elétrica.

As senhoras sentavam em filas de cadeiras que formavam um quadrado, acompanhando a forma do salão. As filhas sentavam em outra fila mais à frente. Os pais, de pé, atrás das senhoras.

Os rapazes ficavam de pé, junto às colunas.

Tocavam duas ou três músicas, sem começar o baile. Na terceira ou quarta, de repente, um rapaz dos que hoje chamaríamos grã-finos, abandonava a coluna em que estava negligentemente encostado olhando na direção da namorada do lado oposto, atravessava o salão, curvava-se ligeiramente diante dela, e dizia: - "A senhora me dá o prazer desta valsa"? (Todos os rapazes e moças tratavam-se de "senhor" e "senhora"). A moça levantava-se sorrindo e dizia: - "Com muito prazer".

Ficava aquele par dançando sozinho, às vezes, até o fim da valsa. Outras vezes coincidia começarem vários ao mesmo tempo.

Também acontecia, no começo do baile, que dois rapazes, só dois, atravessando o salão, dirigiam-se à mesma moça. Cabia a ela resolver a situação. Se o preferido chegava antes, ela se levantava logo, e o outro desviava disfarçadamente para a moça vizinha, convidando-a, a contragosto. Se o preferido partira depois, e se aproximava atrás do outro, a moça pedia desculpas, porque "já estava comprometida para esta valsa" e o segundo chegava, abaixando ligeiramente a cabeça, enlaçavam os braços e partiam. O infeliz desprezado tinha que tomar uma atitude indiferente e distraída, escolher o primeiro vão entre cadeiras e passar para trás, a conversar com algum pai, ou então, sentar ao lado da mãe da própria moça, iniciando prosa: - "Como está quente esta noite! - Realmente, mas o baile está lindo. - Com que gosto ornamentaram o salão!"

Nenhum rapaz, em hipótese alguma, podia dançar sem ser apresentado à moça.

Pedia então a um amigo que a conhecia, que lhe fizesse esse favor.

Havia moças casadoiras, que ficavam durante longo tempo sentadas, sem par. A mãe falava ao marido que estava ali atrás, ou era chamado a pouca distância com um gesto de leque, indicando-lhe discretamente um rapaz conhecido e arisco.

O pai disfarçava, dava voltas, passava perto do rapaz e dizia: - "Sim senhor! O senhor está hoje! Por que não dança? Quero apresentar-lhe minha filha".

Se o rapaz era tímido, respondia: - "Já tive o prazer de conhecê-la, mas não tinha visto onde estava".

Acompanhava o pai dela, e saía dançando.

Se o rapaz era esperto, respondia: - "Já tive o prazer de a conhecer. Justamente agora estava pensando em tirá-la para dançar, se não fosse estar já comprometido no meu carnet. Mas logo em seguida terei o prazer de lhe pedir uma contradança".

Passava a noite inteira desviando o olhar, do lado em que estava a moça e a família.

* * *

A música tocava, os pares dançavam. A música parava, os rapazes ofereciam o braço às moças e iam rodando dois a dois, em carrossel, pelo centro do salão. Se a moça se aborrecia, pedia para descansar e o rapaz levava-a até o ponto de onde a tirara. Se quem se aborrecia era o rapaz, ele perguntava à moça se queria descansar.

Sobravam aqueles que não se faziam mutuamente a pergunta, e o carrossel continuava. Era a hora das declarações de amor, e das combinações de casamento.

Esses intervalos levavam, em regra, dez minutos, de música a música.

As senhoras comentavam: - "Fulano já dançou três vêzes com sicrana".

* * *

Ali pela uma hora parava o baile. Na parte do salão, exterior às colunas, havia mesas para a ceia, cujo preço estava compreendido na contribuição do sócio para o baile. Era "crème d’asperge" ou "canja à brasileira", sorvete e uma taça de champanha.

Passado o intervalo, continuava o baile.

Vejo, entre muitos pares, dançantes, Adelaide Galvão e Carlos Coelho, Maria José Cardoso de Melo e Antônio Rodrigues Alves, Maria Dulce Cardoso de Melo e Maércio Munhoz, Nízia Pupo e Ricardo Capote Valente, Sílvia Valadão e Noé Azevedo, Alice Barbosa e Olivério Pilar do Amaral, Sinhazinha Correia Dias e Leônidas Garcia Rosa, a irmã dela e Lauro Cardoso de Almeida, Tilinha Nogueira e Mário Cardoso de Almeida, Ruth Penteado e Paulo de Almeida Lima, Guiomar Seabra e Aarão Ferraz, Jeanne Conceição e Jorge Chaves, Antônio Mendonça e Sara Mesquita, Carolina Penteado e Gofredo Silva Teles, Alice Cavalcanti e Francisco Silva Teles, Berta Sales e Roberto Moreira, Nenê Botelho e Augusto Macedo Costa, Candinha Pinto e Guilherme Prates, Mariazinha França e Artur Pequeroby Whitaker, Belinha Rodrigues e Eurico Sodré, Lina Ribeiro e Léo Serva, Maria de Almeida Prado e Rubens Saies.

Talvez viesse a nascer dali algum casamento, segundo já se começava a segredar.

* * *

Os rapazes vestiam casaca, colete branco, calçavam scarpins, traziam cravo branco na lapela e luvas brancas.

No trajeto de casa até o Concórdia, vestiam sobretudo e cartola de seda lustrosa.

Os mais elegantes traziam claque, que era uma cartola de gorgorão de seda, sem brilho, tendo uma espécie de armação de guarda-chuva. Quando se tirava da cabeça, era amassada achatando-se como um prato, mas, na dobra do achatamento, podia prender uma das luvas, ficando vestida a outra, o que era muito elegante.

Quem usava claque conservava-o consigo durante todo o baile, ora segurando-o na mão, ora pondo-o debaixo do braço, ora abanando-se com ele, ora, até, com certo atrevimento, fazendo com que o movimento de ar chegasse até a moça com quem passeava entre uma dança e outra.

Quanto ao vestuário feminino os figurinos vinham da França. As famílias que iam à Europa todos os anos traziam "modelos" da Rue de La Paix e da Place Vendôme.

Os tecidos eram franceses: crepe da China ou cetim-liberty, bordados com pailletés, lantejoulas, missangas ou vidrilhos cintilantes, gaze chiffon.

Decotes razoáveis, silhuetas moldadas sem exagero; saias longas e estreitas, às vezes chanfradas, deixando ver um palmo de perna acima do tornozelo.

Os penteados, que no começo do século haviam sido avolumados de enchimentos, cachos e trancinhas postiças eram agora menores e sem postiços. Obtinha-se discretamente com henné um tom bronzeado. As mais ousadas já douravam o cabelo com água oxigenada.

Na maquilagem ainda estava longe de se fazer sentir a influência dos tons queimados. Quando muito, o pó de arroz "rachel" diminuía a alvura obtida com a água Pérola de Barcelona ou o Segredo da Beleza.


(AMERICANO, Jorge. São Paulo naquele tempo)

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