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Julho 2001
Ano III - nº 35

O BOATO, ESSA INSTITUIÇÃO

Um dos vícios mais antigos e mais terríveis do carioca é o boato. O carioca tem, ao lado do culto da anedota, que alimenta a sua malícia, o culto do boato, que lhe nutre a imaginação. O boato é, por isto, no Rio, uma instituição. Tem poder de ubiqüidade - e dá a ilusão de difundir-se com velocidade supersônica... E é, além de tudo, uma força: derruba situações políticas, inventa ministros, depõe governos, fomenta revoluções, cria candidaturas, forja celebridades, alimenta glórias e vaidades, vinga amarguras e castiga erros e crimes... O boato, entre nós, é uma arma todo-poderosa, diante de cuja ofensiva todas as resistências se debilitam e cedem... É em virtude do prestígio do boato que se instituiu entre nós esta fórmula singular e corrente de saudação social: "Então, que há de novo?" E todo carioca legítimo, ao ser interpelado nesses termos, se sente no dever de contar imediatamente uma "novidade"... E lá vem "palpite"! Esse "palpite" poderá ser um boato sobre a sucessão presidencial, como poderá ser um "plano" de salvação nacional, ou a "notícia" de um grande escândalo político. Lançado assim, em um simples encontro de acaso, esse boato rapidamente tomará vulto, ampliará suas proporções e importância, circulará pela cidade e pelo país - e dentro de alguns dias será um "acontecimento". Como nasce afinal o boato? De modo muito simples: pela divulgação de "informações confidenciais", transmitidas, em absoluto segredo, por pessoas bem informadas. A coisa acontece assim: uma pessoa deseja espalhar rapidamente um palpite, ou uma insinuação, e dispõe para isto de um meio eficientíssimo: o segredo. Encontra na rua um amigo que o fulmina com o clássico: "Então, que há de novo?", e imediatamente toma um ar grave e confidencial: "Você me dá a sua palavra de honra que não diz isto a ninguém? Posso confiar na sua discrição? Há pouco, encontrei uma pessoa muito ligada ao Palácio do Catete que me contou..." E lá vai o sensacional boato político começar a sua vertiginosa e triunfante viagem de circunavegação por todas as rodas da cidade. De palavra de honra em palavra de honra, o segredo transpõe a avenida, ganha o Palácio Tiradentes, sobe as escadarias do Monroe, atinge os bairros e os subúrbios - e não raro chega até ao próprio Palácio do Catete, onde é afinal examinado com misteriosa circunspeção... Conhecem o caso daquele sujeito que vindo de Ipanema para a cidade, ao passar na avenida Atlântica, saltou do ônibus, para fazer uma pilhéria? Pois bem: o rapaz saltou no posto 4, apontou para o mar, e informou:

- Olhe ali uma baleia!

Outros vieram, pararam, apontaram - e ficaram olhando para descobrir a baleia. Quando já era grande a multidão que olhava a baleia, o rapaz tomou o lotação - e foi para o trabalho. Ao voltar para o almoço, cerca de meio-dia, era tão compacta e inquieta a massa de curiosos estacionados na praia para ver a baleia, que o autor da pilhéria resolveu saltar do ônibus, com este secreto pensamento:

- Quer ver que há baleia mesmo na praia?!

É assim a força do boato: é assim que ele nasce, circula, cria corpo - e convence.

[1949]


(Sir I [Peregrino Júnior]. Em Bandeira, Manuel; Andrade, Carlos Drummond de. O Rio de Janeiro em prosa e verso)

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