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Julho 2001
Ano III - nº 35

AGRICULTURA EM SÃO PAULO

A fertilidade da região que circunda São Paulo pode ser avaliada pela quantidade de produtos com os quais, como afirmei, abarrotam o mercado. Há quase um século, este terreno era rico em ouro, e foi somente quando o exauriram, pela lavagem, que os habitantes pensaram em dedicar-se à lavoura. Como se viram compelidos a isto pela necessidade, e não por vontade própria, tardaram em empregar os melhoramentos introduzidos pelas demais nações, nesta nobre arte, e, pesarosos com o desaparecimento do precioso metal, consideram a nova ocupação vil e degradante. Na verdade, por todo o Brasil, o lavrador sempre foi considerado como pertencente a uma classe muito inferior, em comparação com a respeitabilidade dos mineiros; e, segundo parece, este preconceito subsistirá até que se esgotem as minas de ouro e de diamantes, e o povo se veja obrigado a procurar na agricultura uma fonte de riqueza constante e inexaurível.

Tentarei descrever o método adotado ultimamente na agricultura, nas circunvizinhanças de São Paulo. Observou-se que, neste imenso império, a terra é cedida em grandes lotes, para o devido cultivo; é fácil supor que o valor destes lotes depende, mais ou menos, da sua situação. Assim, o primeiro objetivo do lavrador é encontrar terreno disponível o mais próximo possível de uma grande cidade; em segundo lugar, de boas estradas e rios navegáveis. Uma vez fixado o local, recorre ao governador do distrito, que envia os funcionários competentes para demarcar o terreno. O lavrador então adquire o maior número de negros que puder e inicia o trabalho, construindo habitações para eles e para si próprio, que são, em geral, choupanas miseráveis apoiadas em quatro estacas, comumente chamada ranchos. Ordena aos negros que abatam as árvores e limpem o mato rasteiro que cobre o terreno, na área que julga necessária. Feito isto, queimam uma enorme fogueira, sobre o terreno, tudo quanto cortaram. Em grande parte, o êxito da colheita depende desta queimada; se tudo for reduzido a cinzas, espera-se uma boa colheita; se o tempo for mau, as árvores derrubadas ficarão apenas semi-queimadas, neste caso, as previsões são más. Limpo o solo, os negros abrem covas com enxadas, e nelas semeiam milho, feijão ou qualquer outra leguminosa; durante este trabalho, abatem tudo quanto encontram no caminho, mas não pensam nunca em preparar o terreno. Depois de plantarem a semente julgada necessária, preparam novo terreno, para o cultivo da cassava, aqui denominada mandioca, cuja raiz serve de alimento, indistintamente, a todas as classes do Brasil. O solo
[1], para este fim, é melhor preparado; limpam-no com ancinho, formando-se pequenos montes arredondados, parecidos com os montes feitos por toupeiras, com cerca de quatro pés cada um, nos quais enterram pequenos pedaços cortados dos galhos da planta, de uma polegada de diâmetro e seis a oito de comprimento; estas manivas não tardam a criar raízes, dar folhas, brotos e botões. Quando já plantada quantidade suficiente para o consumo da fazenda, o dono, se é bastante rico, arranja meios de cultivar a cana e preparar o açúcar. Primeiro, emprega um carpinteiro para aparelhar madeira, e constrói a moenda para espremer a cana, movendo-a a água, se existir corrente próxima, ou então, com o auxílio de mulas. Enquanto uns negros ajudam o carpinteiro, outros preparam o terreno, da mesma maneira que o fizeram para a mandioca. Pedaços de cana, com três ou quatro gomos, tendo de comprimento aproximadamente seis polegadas, cortados do caule maduro, são lançados às covas, em sentido quase horizontal, e cobertos por uma camada de terra com cerca de quatro polegadas de espessura. Brotam com rapidez, tomam o aspecto de um bosque que lembra espadanas; em doze ou quinze meses, estão em condições de serem cortadas. Em solo virgem, fértil, é comum encontrarem-se canas com doze pés de altura e de diâmetro surpreendente.

O milho e as leguminosas amadurecem em quatro meses ou oito semanas. A produção média é de duzentos por um; a colheita é má, quando esta produção não alcança cento e cinqüenta.

A mandioca raramente pode ser colhida em menos de dezoito ou vinte meses; se a terra é apropriada, a produção varia de seis a doze libras por pé
[2]. Plantam muito pouco anil e o que possuem é de qualidade inferior. As abóboras, enormes, às vezes são servidas como legumes, mas, com maior freqüência, dão-nas como alimento aos cavalos. Os melões quase não têm gosto.

Em nenhum ramo de trabalho rural os fazendeiros se descuidam tanto quanto no tratamento do gado. Não cultivam pastagens, não constroem cercados, nem armazéns de forragens para a época da escassez. As vacas não são ordenhadas com regularidade; consideram-nas mais como ônus do que como fonte de renda. Precisam de sal, de quando em quando, que lhes é dado de quinze em quinze dias, em pequenas porções. A indústria do leite, se assim a podemos qualificar, é conduzida com tão pouco asseio, que a pequena quantidade de manteiga fabricada fica rançosa em poucos dias, e o queijo nada vale. Neste ramo essencial estão deploravelmente atrasados; raramente vê-se uma fazenda com instalação que se possa olhar. Por falta de lugares apropriados onde conservar seus produtos, são forçados a colocá-los misturados, em montes, e não é raro encontrar-se café, algodão, milho e feijão atirados nos cantos de um celeiro úmido, coberto com couro cru. A metade se estraga, invariavelmente, devido ao mofo e à podridão e o restante fica muito deteriorado, em conseqüência desta negligência, preguiçosa e estúpida.

Alimentam os porcos com milho cru; o tempo de engorda é de oito a dez meses; e a quantidade gasta para este fim varia de oito a dez alqueires Winchester por cabeça. Depois de abatidos, cortada em pedaços a carne magra, o mais limpo possível, cura-se o toucinho com um pouco de sal e, em alguns dias, está em condições de ser enviado ao mercado. As costelas, o lombo e as partes magras conservam-se salgadas para o consumo caseiro.

[1812]


Notas

[1]. A mandioca exige terreno seco e quente, de natureza arenosa.

[2]. Esta raiz generosa exige pouco trabalho para substituir o pão. Depois de arrancada, lavam-na e rampam-na, a seguir passam-na num ralador de ferro ou cobre, extraem-lhe o suco e colocam-no sobre uma superfície quente, uma frigideira rasa, por exemplo, com quatro ou cinco pés de diâmetro, ou em uma da de barro, sobre fogo forte; a massa, até secar, é constantemente revolvida e quando se evapora toda a umidade, está pronta para ser comida. Se protegida da umidade, durará muito tempo. Em caldos e sopas, torna-se gelatinosa e constitui rico alimento; é muito gostosa comida com queijo. A mandioca brava ou a falsa mandioca, chamada aipim, um pouco inferior quando assada, é boa como castanha. Os portugueses introduziram-na à mesa, cozida e assada.


(MAWE, John. Viagem ao interior do Brasil principalmente aos distritos do ouro e dos diamantes)

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