Julho
2001
Ano III - nº 35 |
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- QUER MARCAR?
Era um petiz de doze anos talvez. A roupa em frangalhos, os pés nus, as mãos pouco
limpas e um certo ar de dignidade na pergunta. O interlocutor, um rapazola loiro, com uma
doirada carne de adolescente, sentado à uma porta, indagou.
- Por quanto?
- É conforme, continuou o petiz. É inicial ou coroa?
- É um coração!
- Com nome dentro?
O rapaz hesitou. Depois:
- Sim, com nome: Maria Josefina.
- Fica tudo por uns seis mil-réis.
Houve um momento em que se discutiu o preço, e o petiz estava inflexível, quando vindo
de quiosque da esquina um outro se acercou.
- Ó moço, faço eu; não escute embromações!
- Pagará; o que quiser, moço.
O rapazola sorria. Afinal resignou-se, arregaçou a manga da camisa de meia, pondo em
relevo a musculatura do braço. O petiz tirou do bolso três agulhas amarradas, um pé de
cálice com fuligem e começou o trabalho. Era na rua Clapp, perto do cais, no século
XX... A tatuagem! Será então verdade a frase de Gautier: "o mais bruto homem sente
que o ornamento traça uma linha indelével de separação entre ele e o animal, e quando
não pode enfeitar as próprias roupas recama a pele"?
... Da tatuagem no Rio faz-se o mais variado estudo da crendice. Por ele se reconstrói a
vida amorosa e social de toda a classe humilde, a classe dos ganhadores, dos viciados, das
fúfias de porta aberta, cuja alegria e cujas dores se desdobram no estreito espaço das
alfurjas e das xumbergas, cujas tragédias de amor morrem nos cochicholos, sem ar, numa
praga que se faz de lágrimas. A tatuagem é a inviolabilidade do corpo e a história das
paixões. Esses riscos nas peles dos homens e das mulheres dizem as suas aspirações, as
suas horas de ócio e a fantasia da sua arte e a crença na eternidade dos sentimentos -
são a exteriorização da alma de quem os traz.
Há três casos de tatuagem no Rio, completamente diversos na sua significação moral: os
negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos
humildes, que se marcam por crime ou por ociosidade. Os negros guardam a forma fetiche;
além dos golpes sarados com o pó preservativo do mau-olhado, usam figuras complicadas.
Alguns, como o Romão da rua do Hospício, têm tatuagens feitas há cerca de vinte anos,
que se conservam nítidas, apesar da sua cor - com que se confunde a tinta empregada.
Quase todos os negros têm um crucificado. O feiticeiro Ononenê, morador à rua do
Alcântara, tem do lado esquerdo do peito as armas de Xangô, e Felismina de Oxum a figura
complicada da santa de água doce. Esses negros explicam ingenuamente a razão das
tatuagens. Na coroa imperial hesitam, coçam a carapinha e murmuram, num arranco de toda a
raça, num arranco mil vezes secular de servilismo inconsciente:
- Eh! Eh! Pedro II não era o dono?
E não se fotografam, com um pavor surdo, como se fosse crime usar essas marcas
simbólicas.
Os turcos são muçulmanos, maronitas, cismáticos, judeus, e nestas religiões diversas
não há gente mais cheia de abusões, de receios, de medos. Nas casas da rua da
Alfândega, Núncio e Senhor dos Passos, existem, sob o soalho, feitiçarias estranhas, e
a tatuagem forra a pele dos homens como amuletos. Os maronitas pintam iniciais,
corações; os cismáticos têm verdadeiros ícones primitivos nos peitos e nos braços;
os outros trazem para o corpo pedaços de paramentos sagrados. É por exemplo uso muito
comum turco com as mãos franjadas de azul, cinco franjas nas costas da mão,
correspondendo aos cinco dedos. Essas cinco franjas são a simbolização das franjas da taleth,
vestimenta dos Khasan, nas quais está entrançado a fio de ouro o grande nome de Ihaveh.
A outra camada é a mais numerosa, é toda a classe baixa do Rio - os vendedores
ambulantes, os operários, os soldados, os criminosos, os rufiões, as meretrizes. Para
marcar tanta gente a tatuagem tornou-se uma indústria com chefes, subchefes e
praticantes.
Quase sempre as primeiras lições vieram das horas de inatividade na cadeia, na
penitenciária e nos quartéis; mas eu contei só na rua Barão de São Félix, perto do
Arsenal de Marinha, e nas ruelas da Saúde, cerca de trinta marcadores. Há pequenos de
dez, doze anos, que saem de manhã para o trabalho, encontram os carregadores, os doceiros
sentados nos portais.
- Quer marcar? perguntam; e tiram logo do bolso um vidro de tinta e três agulhas.
Muitos portugueses, cujos braços musculosos guardam coroas da sua terra e o seu nome por
extenso, deixaram-se marcar porque não tinham que fazer.
- Que quer V. S.ª? O pequeno estava a arreliar. Marca, moço, marca! E tanto pediu que
pôs pra aí os risquinhos.
Os pequenos, os outros marcadores ambulantes, têm um chefe, o Madruga, que só no mês de
abril deste ano fez 319 marcações. Madruga é o exemplo da versatilidade e da
significação miriônimo, da tatuagem. Tem estado na cadeia várias vezes por questões e
barulhos, vive nas ruas da Conceição e São Jorge, tem amantes, compõe modinhas
satíricas e é poeta. É dele este primor, que julga verso:
Venha quanto antes dona Elisa
Enquanto o Chico Passos não atiça
Fogo na cidade...
Homem tão interessante guarda no corpo a síntese dos emblemas das marcações: um Cristo
no peito, uma cobra na perna, o signo de Salomão, as cinco chagas, a sereia, e no braço
esquerdo a campa das próprias conquistas. Esse braço é o prolongamento ideográfico do
seu monte de Vênus onde a quiromancia vê as batalhas do amor. Quando a mulher lhe
desagrada e acaba com a chelpa, Madruga emprega leite de mulher e sal de azedas, fura de
novo a pele, fica com o braço inchado, mas arranca de lá a cor do nome.
Enquanto andou a fornecer-me o seu profundo saber, Madruga teve três dessas senhoras - a
Jandira, a Josefa e a Maria. A primeira a figurar debaixo de um coração foi a Jandira.
Um belo dia a Jandira desaparecia, dando lugar à Josefa, que triunfava em cima, entre as
chamas. Um mês depois a letra J sumira-se e um M dominava no meio do coração.
Os marcadores têm uma tabela especial, o preço fixo do trabalho. As cinco chagas custam
1$000, uma rosa 2$000, o signo de Salomão, o mais comum e o menos compreendido porque nem
um só dos que interroguei o soube explicar, 3$000, as armas da Monarquia e da República
6$ a 8$, e há Cristos para todos os preços.
Os tatuadores têm várias maneiras de tatuar: por picadas, por incisão, por queimadura
subepidérmica. As conhecidas entre nós são as incisivas nos negros que trouxeram a
tradição da África e, principalmente, as por picadas que se fazem com três agulhas
amarradas e embebidas em graxa, tinta, anil ou fuligem, pólvora, acompanhando o desenho
prévio. O marcador trabalha como as senhoras bordam.
Lombroso diz que a religião, a imitação, o ócio, a vontade, o espírito de corpo ou de
seita, as paixães nobres, as paixões eróticas e o atavismo são as causas mantenedoras
dessa usança. Há uma outra - a sugestão do ambiente. Hoje toda a classe baixa da cidade
é tatuada - tatuam-se marinheiros, e em alguns corpos há o romance imageográfico de
inversões dramáticas; tatuam-se soldados, vagabundos, criminosos, barregãs, mas também
portugueses chegados da aldeia com a pele sem mancha, que a influência do meio obriga a
incrustar no braço coroas do seu país.
Andei com o Madruga três longos meses pelos meios mais primitivos, entre os atrasados
morais, e nesses atrasados a camada que trabalha braçalmente, os carroceiros, os
carregadores, os filhos dos carroceiros, deixaram-se tatuar porque era bonito, e são no
fundo incapazes de ir parar na cadeia por qualquer crime. A outra, a perdida, a maior, o
oceano da malandragem e da prostituição, é que me proporcionou o ensejo de estudar ao
ar livre o que se pode estudar na abafada atmosfera das prisões. A tatuagem tem nesse
meio a significação do amor, do desprezo, do amuleto, da posse, do preservativo, das
idéias patrióticas do indivíduo, da sua qualiddade primordial.
Quase todos os rufiões e os rufistas do Rio têm na mão direita, entre o polegar e o
indicador, cinco sinais que significam as chagas. Não há nenhum que não acredite
derrubar o adversário dando-lhe uma bofetada com a mão assim marcada. O marinheiro
Joaquim tem um Senhor Crucificado no peito e uma cruz negra nas costas. Mandou fazer esse
símbolo por esperteza. Quando sofre castigos, os guardiões sentem-se apavorados e sem
coragem de sová-lo.
- Parece que estão dando em Jesus!
A sereia dá lábia, a cobra atração, o peixe significa ligeireza na água, a âncora e
a estrela o homem do mar, as armas da. República ou da Monarquia a sua compreensão
política. Pelo número de coroas da monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é
monarquista.
Os lugares preferidos são as costas, as pernas as coxas, os braços, as mãos. Nos
braços estão em geral os nomes das amantes, frases inteiras, como por exemplo esta frase
de um soldado de um regimento de cavalaria: "Viva o marechal de ferro!..."
desenhos sensuais, corações. O tronco é guardado para as coisas importantes, de
saudade, de luxúria ou de religião. Hei de lembrar sempre o Madruga tatuando um funileiro,
desejoso de lhe deixar uma estréia no peito.
- No peito, não! cuspiu o mulato, no peito eu quero Nossa Senhora!
A sociedade, obedecendo à corrente das modernas idéias criminalistas, olha com
desconfiança a tatuagem. O curioso é que - e esses estranhos problemas de psicologia
talvez não sejam nunca explicados o curioso é que os que se deixam tatuar por
não terem que fazer, em geral, o elemento puro das aldeias portuguesas, o único quase
incontaminável da baixa. classe do Rio, mostram sem o menor receio os braços, enquanto
os criminosos, os assassinos que já deixaram a ficha no Gabinete de Antropometria, fazem
o possível para ocultá-los e escondem os desenhos do corpo como um crime. Por quê?
Receio de que sejam sinais por onde se faça o seu reconhecimento? Isso com os da polícia
talvez. Mas mesmo com pessoas cujos intentos conhecem, o receio persiste, porque decerto
eles consideram aquilo a marca de fogo da sociedade, de cuja. tentação foram incapazes
de fugir, levados pela inexorável fatalidade.
Há tatuagens religiosas, de amor, de nomes de vingança, de desprezo, de profissão, de
beleza, de raça e tatuagens obscenas.
A vida no seu feroz egoísmo é o que mais nitidamente ideografa a tatuagem.
As meretrizes e os criminosos nesse meio de becos e de facadas,têm indeléveis idéias de
perversidade e de amor. Um corpo desses, nu, é umestudo social. As mulheres mandam marcar
corações com o nome dos amantes, brigam, desmancham a tatuagem pelo processo do Madruga,
e marcam o mesmo nome no pé, no calcanhar.
- Olha, não venhas com presepadas, meu macacuano. Tenho-te aqui, desgraça! E
mostram ao malandro, batendo com o chinelo, o seu nome odiado.
É a maior das ofensas: nome no calcanhar, roçando a poeira, amassado por todo o peso da
mulher...
Há ainda a vaidade imitativa. As barregãs das vielas baratas têm sempre um sinalzinho
azul na face. É a pacholice, o grain de beauté, a gracinha, principalmente para
as mulatas e as negras fulas que o consideram o seu maior atrativo. Quando envelhecem, as
pobres mulheres mandam apagar os sinais - porque querem ir limpas para o outro mundo, e a
Florinda, há pouco falecida, que rolara quarenta anos nos bordéis de São Jorge e da
Conceição, dizia-me antes de morrer:
- Ai, meu senhor, isto é para os homens! Quando se fica velha. arranca-se, porque a terra
não vê e Deus não perdoa.
Grande parte desses homens e dessas mulheres têm o delírio mais sensual, fazem os nomes
queridos em partes melindrosas, marcam os membros delicados com punhais, lâmpadas e
outros simbolos. Neste caso eu tenho o Antônio Doceiro, um lindo rapazito que foi
bombeiro depois de ter rolado pelo mundo, e a Anita Pau. Ambos têm desenhos curiosos por
todo o corpo, e a pobre Anita mostra no calcanhar por extenso o nome do pai de seus filhos
e traz em cada seio a inicial dos dois pequenos como numa eterna oferenda - a sua única
oferenda de mãe aos desgraçados perdidos...
Num meio de tão fraca ilusão, onde as miçangas substituem os pendentifs de arte
e a vida ruge entre o Desejo e o Crime, depois de muito ver os pobres entes marcados como
uma cavalhada - a cavalhada da Luxúria e do Assassínio -, começa a gente a sentir uma
concentrada emoção e a imaginar com inveja o prazer humano, o prazer carnal, que eles
terão ao sentir um nome e uma figura debaixo da pele, inalteráveis e para todo o sempre.
Aquele pequeno impressionou-me de novo na profissão estranha. Indaguei.
- Quanto fizeste hoje?
- Hoje fiz doze mil-réis.
E eu compreendi que afinal tatuador deve ser uma profissão muito mais interessante que a
de amanuense de secretaria...
[1908]
(João do Rio [Paulo Barreto]. Em Bandeira, Manuel; Andrade, Carlos Drummond de. O Rio de
Janeiro em prosa e verso) |
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