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Julho 2001
Ano III - nº 35

"CASOS" NARRADOS POR NHÔ ROQUE


Criação do macaco
[1]

Ilustração de Marcos Jardim

A gente não deve de comer macaco porque é nosso parente. Foi feito deste jeito: Uma vez Jesus andava no mundo com São Pedro; chegaram à oficina dum ferreiro e perguntaram se sabia ferrar. Ele disse que sim e começou a se gabar, dizendo que era mestre, e coisa e tal. Jesus então mandou São Pedro tocar a forja, bateu uma ferradura e, quando ela estava vermelha, pegou na mão e pôs na pata de um cavalo. O ferrador ficou pensando que aquilo era força do inferno.

Outro dia, Jesus e São Pedro voltaram à mesma oficina e mandaram chamar um casal de velhinhos que moravam perto. Quando eles chegaram, Jesus pegou no velho, pôs ele na forja, esquentou até ficar vermelho, pôs na bigorna e malhou até o velho ficar novinho em folha, moço e forte. Isso, foi só sair dali e as moças pegaram a mexer e dar em cima dele, cobiçando porque tinha ficado um moço e tanto. Jesus quis fazer a mesma coisa com a velha, mas ela ficou com medo e não quis arriscar. Mas depois que eles foram embora, o ferrador quis mostrar que também era capaz de fazer aquilo. Pegou na velha, pôs ela na forja, esquentou até ficar vermelha, pôs na bigorna, malhou, malhou com toda a força. Aí saiu pulando em vez de gente um macaco, ganindo com barulho igual ao assobio da forja: uuuuuu... Foi castigo de Deus porque a velha não teve confiança em Jesus e o ferreiro quis ser igual a ele. Desde aí existem os macacos, que são raça de gente, e por isso a gente não deve de comer.


Criação da formiga


Saúva é bicho da Tentação. Foi feito por Deus, que já tinha feito também a Tentação, que tem a mesma força que ele. A Tentação vive pelejando para entrar em tudo. Lá uma vez um casal tem um encontro de palavra; é ela que esta entrando. Quando ela domina, vai, o marido mata a mulher e suicida. Mas mesmo quando não faz tanto estrago, está sempre fazendo das suas. Assim é que manda as formigas estragarem a plantação e dar um trabalho para a gente matar. Antes a gente punha palha no formigueiro e acendia fogo. Hoje tem formicida.

A formiga taçuíra morde doído, mas uma vez só. Quando foi criada ela pediu a Deus o poder de matar quem mordesse; mas Deus pensou e achou que era demais, porque desse jeito morria toda gente. Aí resolveu conceder só uma parte do pedido e deixou a dor forte.


Ilustração de Marcos JardimO milagre do diabo
[2]

Está chegando tempo que os velhos falavam, que tudo vai demudar, a terra perder a força, o povo da roça mudar para a cidade. Era assim que já falava o pai do meu avô. Depois há de vir o tempo do Anticristo, que há de fazer milagres, porque ele é o diabo. O diabo foi feito por Deus, tem uma parte de Deus e vive querendo fazer coisas para mostrar a sua força. Por isso é que também faz milagres. Aí vai o caso de um deles.

Era uma vez um homem que em toda capela de estrada punha um tostão para o santo e outro para o diabo. Sempre assim: um tostão para o santo, outro para o diabo; um tostão para o santo, outro para o diabo. Um dia brigou e matou outro homem. Foi processado e condenado a morar numa ilha, que ficava num rio, num braço de mar [sic]. A ilha era toda plantada de mandioca, e a sua pena era trabalhar para um patrão que dava tarefas tão pesadas, tão pesadas, que mesmo trabalhando o dia todo até quase morrer de cansado, inda sobrava uma parte para o outro dia. E assim ia vivendo, e sentindo que ia morrer logo, antes de acabar a limpa do mandiocal. Um dia não agüentou, pegou no sono e dormiu na sombra dum pé de mandioca. Acordou com uma voz que chamava ele pelo nome. Era um desconhecido que perguntou o que fazia ali. Ele contou a sua pena e o seu apuro, e o homem disse para continuar a dormir que ele ia dar um leito. Aí o condenado dormiu e o outro pegou na enxada, limpou o campo e ainda por cima arrancou todas as mandiocas e deixou elas de raiz para o ar. Quando o condenado acordou e viu aquilo, pegou a lamentar, dizendo que o patrão ia castigar ele; mas o outro disse que não ia acontecer nada disso e informou que a sua morte estava perto, perguntando se queria morrer ali ou em casa. O condenado respondeu que queria morrer em casa para poder ver os filhinhos. Aí o outro disse: "A vossa vontade há de ser feita como recompensa dos favores que eu devo para mecê, porque mecê sempre me ofereceu um tostão nas capelas." O homem era o diabo. Mandou ele fechar os olhos e agarrar no que sentisse com as mãos. O condenado fez o mandado e sentiu um cavalo de jeito. Montou nele e ele saiu na desfilada. Daí, a pouco o cavalo parou, ele estendeu a mão e sentiu uma coisa. Aí abraçou a coisa, abriu os olhos e viu que estava abraçado num cruzeiro de madeira que tinha em frente da sua casa.

Este é um milagre do diabo, que anda sempre querendo mostrar a sua força, e por isso faz até o bem.


Notas

[1]. É variante de um "caso" de Pedro Malasarte em que aparece o mesmo elemento do Evangelho popular.


[2]. São raríssimos os "casos" onde o diabo aparece como benfazejo. Em nosso folclore, tenho notícia de três ou quatro, e isto dá interesse ao narrado pelo velho Nhô Roque.


(Cândido, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito)

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