[1] só no estado de São Paulo, sem falar
das que registramos nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e Mato Grosso.
Função medicinal
A dança atual de moçambique, além de se prestar para que devotos prestem um culto
coletivo e ao mesmo tempo individual em louvor a São Benedito, assume também caráter de
dança medicinal, curativa. Quando um menino ou moço, fica doente das pernas, uma das
promessas mais comuns é a de dançar moçambique.
Outras funções da dança poderíamos apontar, porque embora tenha o caráter
profundamente religioso, os moçambiqueiros e mesmo as autoridades não percebem que ela
é uma forma de recreação sadia para se aproveitar eficiente e beneficamente as horas de
lazer. É musical, coreográfica, ginástica, social e... seletiva. Sim, seletiva, os
próprios moçambiqueiros afirmam: "quando ficar velho vou ser congueiro, porque
moçambique é dança de moço, não se pode ter as juntas enferrujadas e...
velhice." Não encontramos algo que evidencie o "caráter mágico" do
moçambique, o religioso sim.
Função religiosa
O fato de ter um estandarte aponta-nos, como já nos referimos, de estar intimamente
ligado a uma instituição religiosa, nesse caso a uma confraria. Aliás, hoje algumas
companhias ou ternos de moçambiqueiros pertencem à "Conferência de São
Benedito". Os vínculos religiosos, pretéritos ou não deste bailado, estão
presentes no simbolismo do estandarte. Ali está a efígie de São Benedito que pertence
ao fios sanctorum católico romano. Prestam reverência ao símbolo, beijam-no,
descobrem-se em sua presença. É o rei quem o conduz e ao visitar uma casa, o dono o
recebe nos umbrais de sua porta. No local onde está o estandarte não fumam nem falam
alto, não proferem dichotes ou palavras obscenas. Não usam estandarte sem que tenha sido
benzido pelo padre. Os que, por velhos, ficaram fora de uso, são guardados na capela.
Traços reveladores da concepção de que há entre eles uma hierarquia, de objetos
sagrados, pontilhados desse culto rústico a São Benedito.
Outro vínculo entre o bailado do moçambique e a religião reside no fato de o
moçambiqueiro sentir que está desempenhando um serviço ao santo. E por ser "dança
de riligião", como dizem, não recebem pagamento para executá-la, bem como se
esforçam para comprar todo o uniforme para "agradar o santo", isto revela
também o caráter religioso das funções do bailado.
O grau de institucionalização destas companhias de moçambique pode ser avaliado pelos
elementos recolhidos em 1944, em Cunha, com o senhor Benedito Domiciano da Silva, do
bairro de Capivara: "Os moçambiqueiros têm que fazer matrícula e pagar um imposto
anual para São Benedito. Esse dinheiro é pago à Diocese de Taubaté.
A dança dentro da capela
Como a consideram "dança de religião", dançam-na dentro das capelas
rurais, principalmente por ocasião dos ensaios da companhia.
Dentro da capela não dançam com bastão, somente cantam e dançam batendo os pés. O
bastão é arma, e esta deve ficar fora do lugar sagrado. Entretanto, pode ser colocado no
chão para se pular, e tão-somente; o que não pode é bater um contra o outro como se
estivesse esgrimindo.
Coroação
De modo geral a cerimônia da coroação do rei e da rainha se passa dentro da capela
ou no pátio fronteiro e assim se processa: sentam-se ao centro da roda que os
moçambiqueiros formam. Em pé ficam os príncipes e princesas que porventura façam parte
do séqüito real. O rei é o guardador. quem empunha o estandarte.
Os moçambiqueiros vão cantando e rodando, batendo os bastões acima da cabeça dos que
estão ao centro da roda. Cruzam os bastões, dois a dois, e os colocam sobre a cabeça do
rei, depois da rainha. Aumentam o raio do círculo e diminuem, quando então colocam os
bastões, coroando. Giram tanto no sentido lunar como no solar. Primeiramente no lunar, e
a um apito do mestre, começam a girar no sentido solar, isto é, no sentido dos ponteiros
do relógio.
Sentam-se rei e rainha, quando duas almofadas trazidas pelo capitão, uma verde e outra
amarela, são colocadas na frente destes, ajoelham-se e os dois menores moçambiqueiros da
companhia coroam o rei primeiramente e depois a rainha.
Organização
Uma companhia de moçambique compõe-se de no mínimo seis dançadores. Os maiores ternos
conhecidos são de trinta e dois, contando-se os instrumentistas. Há um rei, às vezes
uma rainha, príncipes e princesas, um mestre, um contramestre, dois capitães. Algumas
companhias têm um general, outras um marechal.
A figura mais importante de uma companhia é o Mestre que enfeixa em suas mãos a
disciplina e organização da companhia e a quem compete realizar os ensaios, combinar os
dias para a realização das danças nas festas comunitárias ou de bairro rural, as
viagens. A ele está afeta a parte musical. As cantorias são "puxadas" pelo
mestre que as improvisa segundo as necessidades saudando autoridades ou lugares onde vão
dançar. O mestre determina o início das danças, é o coreógrafo da companhia, dele
parte a ordem de preparar-se para a dança, o imperativo "amarrar paiá". Desta
ordem, já surgiu quem a denominasse erradamente de "dança do marrapaiá".
Uniforme
A uniformização é a mais simples possível: trajam-se geralmente de branco. Camisa,
calças, gorro brancos. Neste há diversos enfeites bordados com linhas de cores verde,
vermelha, azul, amarela ou fitas e lacinhos de cores pregados com alfinetes. A camisa é
branca, tendo algumas fitinhas pregadas nos ombros. Nos braços às vezes pregam também
alguns laços de fitas. Usam a tiracolo uma fita da cor adotada pela companhia de
moçambique a que pertence. Geralmente a cor preferida é a vermelha. A calça é branca,
nela não há enfeites. Somente é amarrada sob o joelho por um paiá, e pouco acima do
tornozelo por barbante, ficando aculotada para dar maior liberdade de movimentos ao
moçambiqueiro.
Com exceção do rei e de todos os tocadores de instrumentos, todos os moçambiqueiros
usam um bastão de madeira, preferivelmente de guatambu, de um metro e vinte centímetros,
mais ou menos, de comprimento, da grossura de um cabo de vassoura.
Instrumentos musicais
Variam de um terno para outro. Os mais ricos possuem violas, violões, cavaquinhos,
rabecas, caixa-de-guerra, caixa clara ou repique, adufes ou pandeiros, canzás, chocalhos
de lata, "pernengome", tamborins, reco-recos. As companhias mais modestas e de
recente formação, apenas uma caixa clara e um adufe ou chocalho.
O paiá, também chamado matungo ou conguinho ou coquinho, segundo sua função, pode ser
integrado entre os instrumentos musicais. O mesmo pode acontecer com o bastão, quando se
entrechoca para dar o ritmo. No entanto consideramo-lo um implemento, como implemento é o
apito usado pelo mestre para chamar a atenção dos dançadores; o próprio estandarte
também é um implemento, implemento sagrado.
Preparação - Os ensaios são feitos aos domingos pela manhã ou sábados à
tarde.
A duração dessa preparação hebdomadária é de mais ou menos seis horas. Não precisam
estar uniformizados para os ensaios.
Cantoria e dança - A qualquer ação precede o canto. Compete ao mestre improvisar
o verso e a música.
Podem-se dividir as cantorias de acordo com os ambientes em que se encontra a companhia: cantorias
de roça e cantorias da cidade.
Na roça é a visitação à capela ou casas onde pedem para ir cantar. Na cidade
se apresentam outras oportunidades como sejam as de acompanhar procissões, dançar
defronte à igreja, prestar homenagem às autoridades religiosas ou civis.
Nota