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Julho 2001
Ano III - nº 35

LOUVAÇAO AOS PITÉUS E FRUTAS DO NORTE

De que ocas, tocas, ou tapiris,
surgiu o Incriado? — esse gosto de patos
selvagens e folhas, essa maneira de comer
o que antas era planta virgem, intocada,
anta, molusco, caramujo fluvial,
tendo sabor a tudo, sem antes saber a nada.

Quem jogou pela primeira vez, com pontaria louca,
um pouco de pirão amassado na cuia,
descrevendo no ar uma elipse
para levá-lo ao paladar do céu da boca?

A mão morena e cobreada da avó tapuia
nos trouxe tudo. Provou o apetite
que estava oculto num caroço de tucumã.
E marcou o tempo em que um peixe prateado foi fisgado,
uma flor foi colhida e um fruto sem pecado
foi com um nome tapuia escrito e batizado.

Sucedeu, então, que da noite para o dia,
a terra se encheu de alguidares, caçambas e potes,
desenhados com traços firmes, fortes,
retos,
certos,
corretos.

E veio o momento de invenção do paladar daquela gente
de olhos oblíquos, um cardápio diferente,
que mudou em eternidade o que era instante.

Amassadas, as coisas viraram sumo de palmeiras,
que do alto das palmas, das plumas, das pencas,
deixaram cair no chão o vértice do verde que sobe das touceiras;
e se espreme com a mão no atrito das peneiras,
a partir de 2 horas,
quando o trópico dorme a sesta sob a chuva,
e tomar açaí é um regalo,
uma uva!

Quem foi ao Pará, parou.
Tomou açaí, flcou.


Não é a chuva da tarde que deixa a cidade sem sede:
- é aquele vinho grosso que sai da mão das amassadeiras nas peneiras.

Não é a carne que mata a fome das pessoas:
- é aquele peito de tartaruga estufado, dourado,
que guarda o aroma das mãos de fada que o fizeram vir à tona,
pondo-lhe nos seios empoados e empinados dois bicos de azeitonas.

Onde vais, minha infância?
- Vou ver as tartarugas buscando a areia quente para a desova na distância.
Vou ver muçuãs e aperemas passeando nos campos de Marajó,
longe dos olhos de minha avó.
E a paca saindo do mato pra entrar no caldo do tucupi.

Então, satisfeito, feliz,
compreendo, Mani,
por que desenterraram teu corpo branco de filha do cacique

(que tinha virado raiz)
e fizeram com ele um bruto piquenique,
regado a aluá, a liamba, mororó e caxiri.

E, depois, sacudiram as árvores,
pra fazer cair em nossa boca uma chuva de ginjas e pitangas
e colorir com elas o beiço roxo das caboclas.

E, por falar em pitangas,
por que não cai de novo, sobre mim, uma chuva de mangas?

Por aquela ardilosa e travessa
pimentlnha-de-cheiro,
que me sobe da língua até a cabeça
e não me sai do travesseiro.
Pela memória gustativa,
coreográfica e viva,
de um molho de cação adesivo e excitante,
o olfato encurta a um palmo as léguas do caminho
e traz-me ao paladar minha terra distante.


(ORICO, Osvaldo. Cozinha amazônica)

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