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Julho 2001
Ano III - nº 35

RAPADURA

Ilustração de Luís Jardim, em A cana-de-açúcar em Minas Gerais, de Miguel da Costa Filho

Depois que se firmou a indústria açucareira em seu território, Minas Gerais foi sempre grande produtora de rapadura, esse "melaço coalhado", como a definiu Antonil, particularmente nas zonas do alto sertão.

Mas, nem só nessas regiões mais distantes do centro minerador se localizou de preferência a produção de "tábuas" (assim se dizia em Pitangui e alhures).

São, entretanto, escassas as informações disponíveis, no que respeita aos tempos coloniais, sobre a fabricação e consumo de rapadura.

Contudo dá bem uma idéia da sua importância na economia regional, na vida social da Capitania, a observação de Vieira Couto, alinhando a rapadura, o milho, e o feijão, como os principais artigos de consumo da população de Minas Gerais. É dessa maneira que interpretamos a informação do cientista mineiro, segundo a qual os moradores de minas quase só consumiam milho, feijão e "alguns efeitos" dos engenhos de cana.
[1] Parece-nos evidente que, entre os "efeitos" dos engenhos a que se referiu genericamente o escritor, devia figurar em primeiro plano a rapadura.

Saint-Hilaire trouxe um reforço à nota de Vieira Couto, ao assinalar o singular apreço ou gula das crianças, dos negros e dos tropeiros pela rapadura, "espécie de açúcar" que era por eles consumida em quantidade prodigiosa.

Extraordinário observador (não fora ele um experimentado e percuciente homem de ciência), tendo-se hospedado forçadamente em dezenas de ranchos daquela e de tantas outras províncias do Império, o viajante francês registrou, entre outras observações de cunho social, o seguinte, em uma de suas obras sobre o nosso país: "Freqüentemente, quando os tropeiros chegam ao rancho e não têm paciência de esperar que sejam cozidos seus feijões, aplacam sua fome comendo uma jacuba, mistura que se faz a frio com água, farinha de milho e rapaduras".
[2]

Em verdade, a rapadura vem exercendo uma funcão de relevo primacial na alimentação de grande parte do povo brasileiro, desde a época da colônia e, em nosso tempo, ela e a farinha de mandioca são alimentos capitais dos sertões, consoante observação de Silva Melo,
[3] aliás antecipada e corroborada por muitos outros depoimentos.

Valemo-nos ainda daquele naturalista francês para relembrar com ele que muitos proprietários de fazendas em Minas ao invés de fabricarem açúcar, aliás mascavado ("cassonade"), se contentavam em fazer rapaduras.

Ensinando ao leitor francês o que era rapadura, disse Saint-Hilaire: "São quadriláteros que podem ter cinco ou seis polegadas e são muito espessos; sua cor, seu gosto e seu odor são quase os do açúcar queimado de nossas refinarias, mas nelas se sente mais o xarope. Para fazer rapadura, não se põe água alcalina no suco; cozem-no bastante para que não lhe escape nenhum xarope, e lancam-no em moldes, dos quais se pode retirar prontamente as rapaduras resfriadas".
[4]

É de notar que Saint-Hilaire tomou como paradigma de tais engenhos rapadureiros o do padre Anastácio, situado entre Barbacena e Lafaiete.

É possível respigar aqui e acolá algumas informações parciais sobre a produção rapadureira da província.

As fábricas existentes no termo de Montes Claros eram em geral pequenas, quase sempre simples engenhocas movidas por bois; produziam rapadura e "algum" açúcar; poucas fabricavam aguardente para vender. Havia dificuldades na saída desses produtos; por isso a maioria desses engenhos ora produzia aguardente ora rapadura. A sua produção era tão pequena que o escorchante imposto de 20% sobre as "águas ardentes" só rendeu no triênio 1834-1836 a quantia de Rs. 58$740, o que dá uma média de apenas 19$580 por ano, apesar de não ser pequeno o número de engenhocas.
[5]

Só havia, diz Brant, um engenho movido por água, o de Pedro José Versiani.

Aí está o que era a indústria açucareira em uma vasta região do norte de Minas: um só engenho de grande porte no meio de uma miuçalha de engenhocas que produziam, além de rapadura e aguardente, ruim e pouco açúcar, e que em certos anos nada ou quase nada produziam.

Januária, Pitangui, Rio Pardo, Monte Azul, Salgado etc. também produziam rapadura em quantidade maior ou menor que dava para o consumo local e para exportar com destino a regiões vizinhas de Minas e de outras capitanias.

Nesse capítulo, pode-se destacar Januária.

De uma Notícia acerca da indústria agrícola e fabril da província de Minas Gerais, de 1871, extraímos alguns dados interessantes, a fim de mostrar a relativa importância desse setor econômico do referido município, o que vale dizer numa larga região norte-mineira.

Não havia outras atividades além da agrícola, à qual se dedicava grande parte da população, sendo pequeno o número de escravos.

A cultura da cana era a predileta, fabricando-se de preferência a rapadura. Havia cerca de cem engenhos, a maioria dos quais era movida por bois. A exportação dessas fábricas oscilava do mínimo de cinco mil ao máximo de trinta mil rapaduras. Mas o açúcar e a aguardente eram produzidos unicamente para o mercado januariense.
[6]

No capítulo relativo à exportação transcrevemos vários dados estatísticos que atestam de modo ncontestável a relativa importância das remessas de rapadura para fora da província de Minas.

Mas, reservamos para este um confronto entre os valores de tal exportação do açúcar e da rapadura já neste século.

Minas exportou 642.752 quilos de rapadura em 1903 e 671.651 no ano seguinte, no valor, respectivamente, de Rs. 385:651$200 e Rs. 302:245$000.

Em 1906 e 1908, a exportação de açúcar atingiu, respectivamente, 256.607 quilos e 1.125.473 quilos, tendo sido computado em Rs. 405:170$000 o valor do açúcar exportado no último ano.
[7]


Notas

[1]. José Vieira Couto, Memórias sobre as Minas da Capitania de Minas Gerais, 36 - A referência do memorialista à caça e ao luxo notados nos meios abastados está a indicar que essa sobriedade alimentar só acontecia nas camadas pobres da sociedade e entre os escravos. Os ricos, é ainda Couto que o ensina, conservaram aqueles hábitos adquiridos nos melhores tempos das minas.

[2]. Voyage dans Les Provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes, I, 127.

[3]. Silva Melo, Nordeste Brasileiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, p. 151.

[4]. Ob. cit., I, 126.

[5]. Relatório de Gregório Caldeira Brant, Biblioteca Nacional, Manuscritos, M.G. gav. 28.

[6]. Auxiliadora da Indústria Nacional, 1871, p. 510.

[7]. Vier Staaten Brasilierns, 16, 20 e 61.



(COSTA FILHO, Miguel. A cana-de-açúcar em Minas Gerais)

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