Depois que se firmou a
indústria açucareira em seu território, Minas Gerais foi sempre grande produtora de
rapadura, esse "melaço coalhado", como a definiu Antonil, particularmente nas
zonas do alto sertão.
Mas, nem só nessas regiões mais distantes do centro minerador se localizou de
preferência a produção de "tábuas" (assim se dizia em Pitangui e alhures).
São, entretanto, escassas as informações disponíveis, no que respeita aos tempos
coloniais, sobre a fabricação e consumo de rapadura.
Contudo dá bem uma idéia da sua importância na economia regional, na vida social da
Capitania, a observação de Vieira Couto, alinhando a rapadura, o milho, e o feijão,
como os principais artigos de consumo da população de Minas Gerais. É dessa maneira que
interpretamos a informação do cientista mineiro, segundo a qual os moradores de minas
quase só consumiam milho, feijão e "alguns efeitos" dos engenhos de cana. [1] Parece-nos evidente que, entre os
"efeitos" dos engenhos a que se referiu genericamente o escritor, devia figurar
em primeiro plano a rapadura.
Saint-Hilaire trouxe um reforço à nota de Vieira Couto, ao assinalar o singular apreço
ou gula das crianças, dos negros e dos tropeiros pela rapadura, "espécie de
açúcar" que era por eles consumida em quantidade prodigiosa.
Extraordinário observador (não fora ele um experimentado e percuciente homem de
ciência), tendo-se hospedado forçadamente em dezenas de ranchos daquela e de tantas
outras províncias do Império, o viajante francês registrou, entre outras observações
de cunho social, o seguinte, em uma de suas obras sobre o nosso país:
"Freqüentemente, quando os tropeiros chegam ao rancho e não têm paciência de
esperar que sejam cozidos seus feijões, aplacam sua fome comendo uma jacuba, mistura que
se faz a frio com água, farinha de milho e rapaduras". [2]
Em verdade, a rapadura vem exercendo uma funcão de relevo primacial na alimentação de
grande parte do povo brasileiro, desde a época da colônia e, em nosso tempo, ela e a
farinha de mandioca são alimentos capitais dos sertões, consoante observação de Silva
Melo, [3] aliás antecipada e
corroborada por muitos outros depoimentos.
Valemo-nos ainda daquele naturalista francês para relembrar com ele que muitos
proprietários de fazendas em Minas ao invés de fabricarem açúcar, aliás mascavado
("cassonade"), se contentavam em fazer rapaduras.
Ensinando ao leitor francês o que era rapadura, disse Saint-Hilaire: "São
quadriláteros que podem ter cinco ou seis polegadas e são muito espessos; sua cor, seu
gosto e seu odor são quase os do açúcar queimado de nossas refinarias, mas nelas se
sente mais o xarope. Para fazer rapadura, não se põe água alcalina no suco; cozem-no
bastante para que não lhe escape nenhum xarope, e lancam-no em moldes, dos quais se pode
retirar prontamente as rapaduras resfriadas". [4]
É de notar que Saint-Hilaire tomou como paradigma de
tais engenhos rapadureiros o do padre Anastácio, situado entre Barbacena e Lafaiete.
É possível respigar aqui e acolá algumas informações parciais sobre a produção
rapadureira da província.
As fábricas existentes no termo de Montes Claros eram em geral pequenas, quase sempre
simples engenhocas movidas por bois; produziam rapadura e "algum" açúcar;
poucas fabricavam aguardente para vender. Havia dificuldades na saída desses produtos;
por isso a maioria desses engenhos ora produzia aguardente ora rapadura. A sua produção
era tão pequena que o escorchante imposto de 20% sobre as "águas ardentes" só
rendeu no triênio 1834-1836 a quantia de Rs. 58$740, o que dá uma média de apenas
19$580 por ano, apesar de não ser pequeno o número de engenhocas. [5]
Só havia, diz Brant, um engenho movido por água, o de Pedro José Versiani.
Aí está o que era a indústria açucareira em uma vasta região do norte de Minas: um
só engenho de grande porte no meio de uma miuçalha de engenhocas que produziam, além de
rapadura e aguardente, ruim e pouco açúcar, e que em certos anos nada ou quase nada
produziam.
Januária, Pitangui, Rio Pardo, Monte Azul, Salgado etc. também produziam rapadura em
quantidade maior ou menor que dava para o consumo local e para exportar com destino a
regiões vizinhas de Minas e de outras capitanias.
Nesse capítulo, pode-se destacar Januária.
De uma Notícia acerca da indústria agrícola e fabril da província de Minas Gerais,
de 1871, extraímos alguns dados interessantes, a fim de mostrar a relativa importância
desse setor econômico do referido município, o que vale dizer numa larga região
norte-mineira.
Não havia outras atividades além da agrícola, à qual se dedicava grande parte da
população, sendo pequeno o número de escravos.
A cultura da cana era a predileta, fabricando-se de preferência a rapadura. Havia cerca
de cem engenhos, a maioria dos quais era movida por bois. A exportação dessas fábricas
oscilava do mínimo de cinco mil ao máximo de trinta mil rapaduras. Mas o açúcar e a
aguardente eram produzidos unicamente para o mercado januariense. [6]
No capítulo relativo à exportação transcrevemos vários dados estatísticos que
atestam de modo ncontestável a relativa importância das remessas de rapadura para fora
da província de Minas.
Mas, reservamos para este um confronto entre os valores de tal exportação do açúcar e
da rapadura já neste século.
Minas exportou 642.752 quilos de rapadura em 1903 e 671.651 no ano seguinte, no valor,
respectivamente, de Rs. 385:651$200 e Rs. 302:245$000.
Em 1906 e 1908, a exportação de açúcar atingiu, respectivamente, 256.607 quilos e
1.125.473 quilos, tendo sido computado em Rs. 405:170$000 o valor do açúcar exportado no
último ano. [7]
Notas
[1]. José Vieira Couto, Memórias sobre as
Minas da Capitania de Minas Gerais, 36 - A referência do memorialista à caça e ao
luxo notados nos meios abastados está a indicar que essa sobriedade alimentar só
acontecia nas camadas pobres da sociedade e entre os escravos. Os ricos, é ainda Couto
que o ensina, conservaram aqueles hábitos adquiridos nos melhores tempos das minas.
[2]. Voyage dans Les Provinces de Rio de
Janeiro et de Minas Geraes, I, 127.
[3]. Silva Melo, Nordeste Brasileiro, Livraria
José Olympio Editora, 1953, p. 151.
[4]. Ob. cit., I, 126.
[5]. Relatório de Gregório Caldeira Brant,
Biblioteca Nacional, Manuscritos, M.G. gav. 28.
[6]. Auxiliadora da Indústria Nacional, 1871,
p. 510.
[7]. Vier Staaten Brasilierns, 16, 20 e
61.
(COSTA FILHO, Miguel. A cana-de-açúcar em Minas Gerais)
|