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Julho 2001
Ano III - nº 35

ABOIO DE ROÇA

Os aboios de roça são diferentes dos aboios de gado. O aboio de roça é em dueto e o de gado é sempre homófono. O aboio de roça é uma forma de canto de trabalho, tem letra e é em dueto. O outro aboio, o de tanger gado, é solo. Noutras regiões o aboio para orientar o gado na caatinga, na estrada, não tem letras, em Piaçabuçu, há porém o canto de uma quadra e a seguir o aboio, longo, triste, canto de urna sílaba só. Já o aboio de roça é menos triste e dá-nos a impressão de um desafio por meio de versos entremeados de prolongados "oi. ai, olá", cuja finalidade é excitar para maior produção de trabalho.

 

Aboio de roça
(D.M.N.º 52)

Té minhã, eu vô m’imbora,
Já hoje stô me arrumano. ô boi, ô
boi, tá, meu boi tá, ô tá
E o cavalo da viage tá no mato
se criano, ô boi, ô, tá

 

Outros aboios

Meu cavalo está selado,
foi o negro que selô,
morro na ponta da faca
mas carrego Lionô,
ô, ô, ô gado manso...
ê, ê gado manso, ô boi

* * *

O cantô da meia-noite
é um canto incelente,
acordai quem tá drumino,
alegrai quem tá doente
Eia, eia, ei boa guia,
olé, ô boi, olá

* * *

Minha mãe me deu de noite,
me mandô apanhá limão,
o que noite tão escura,
tenho medo de ladrão
Oi, oi, boi, a,
ô, ô, ô, boi, o lá, ô
gado manso. Ui, ui

* * *

Eu sô aquele boi preto
que briguei mais Azulão
eu tirei fogo das ponta
lá naquele solidão
oi, oi, gado manso,
oi, oi, vaca

* * *

Sobrancelha de pau preto,
raio de sol quando nasce,
boca pequena bem feita,
olhos que enganasse,
oi, oi, oi, boa guia, e lá ô boi

* * *

Cobra verde não me morda
que aqui não tem curadô,
curadô que tinha aqui,
água do monte levô...
ô boi, eia, ei, eia... gado manso

* * *

O rio de São Francisco
oi corre que desaparece,
oi no meio faz um remanso
oi onde meu bem padece,
ô, ô, ô, boi, olá, ô, ô gado manso

* * *

Eu já sei fazê cancela,
também sei fazê morão
onde este boi mete a perna
meu cavalo mete a mão
ê, ê, ê, ê, boi...

* * *

O mamãe cadê Celina,
oi Celina foi passiá,
os passeio de Celina, gado manso,
faz papai, mamãi chorá,
ei, ei..

* * *

Oi marcha boi, marcha boiada,
oi tamem marcha moreninha
do cabelo cacheado,
ô, ô, ô boi... ô boi, eta
já, já, já, ota

* * *

Oi minina me dê uma lima
da limêra de seu pai,
a limêra não é sua,
mais a lima sempre vai
E, oi, oi boa guia,
ê lá, ô boi, ê, ê, eta boi

 

Aboio

Cravo não me chame rosa
que meu tempo se acabô,
me chame laranja verde,
do lado que não vingô
Ô, ô, ô...

* * *

Deus salve casa santa,
onde Deus fez a morada,
Deus salve calix bento
e a hóstia consagrada,
ô, ô, ô

* * *

Ô lá de cima daqueles ares
caia ráio, curisco e trovão
em cima de quem paga firmeza
com ingratidão


(ARAÚJO, Alceu Maynard; ARICÓ JÚNIOR. Cem melodias folclóricas)

 

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