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Por esse tempo passara pelas proximidades da
povoação um bando de ciganos. E - fato curioso - sumiu-se o boi lavrado do padre Ruivo.
Por mais que se procurasse o animal fugido, os rastejadores não puderam atinar para onde
fora levado o mais formoso boi que os sertanejos já conheceram. Choviam os comentários.
- É aquele bicho que linha um mondrongo no espinhaço, tão alto que parecia uma
serra em riba de outra serra!...
Assim explicavam os curiosos aos que não se lembravam do animal. E logo voltava à mente
dos caboclos a feitura do nuvilho.
Passou-se o tempo, e com ele, a eperança de se encontrar o boi.
- Os ciganos o comeram!
Só o padre, não acreditando na balela de que os ciganos comeram o boi, não desanimava e
arquitetava um meio de reaver o seu touro.
Veio a época das santas missões.
- Agora é chegado (matutava padre Ruivo) o momento de achar o ladrão.
Depois de sucessivos sermões em que condenava o roubo, o vigário rematava sempre
lembrando que entre os vários ultrajes sofridos por Cristo, o único que o nosso Salvador
repeliu foi o de ladrão.
Todos os homens tinham de se confessar.
- Aquele que recusasse (concluía padre Ruivo) seria o ladrão do boi.
O carrancudo Aleixo consentiu em se confessar, mas iria pregar uma boa ao vigário.
Ajoelhado em frente ao confissionário improvisado Aleixo foi dizendo todos os seus
pecados. De repente, surpreso, o padre mestre ouviu:
- Fui eu quem roubou o boi lavrado.
Intimamente indignado mas sofreando o gênio, o reverendo disse fraternalmente:
- Meu filho esse pecado é tão feio que não pode ser entregue a juízo do Altissímo.
Só poderá ser redimido pela justiça dos homens. Como não posso revelar os segredos do
confissionário, aconselho ao irmão confessar a sua falta publicamente.
Aleixo, imperturbável, afirmou que assim o faria.
Ficou tudo combinado para a missa do dia seguinte.
Na hora do sermão, depois de dar a benção aos arrependidos, padre Ruivo, apresentando
Aleixo aos fiéis que enchiam literalmente a capela, assim falou:
- Minhas ovelhas, tudo que esse homem vai falar é a pura verdade - Tive ímpetos de falar
por ele publicamente, mas por um dever que me impõe a ética deixo que ele fale. Faço
minhas as suas palavras.
A atenção geral voltou-se para Aleixo.
- Meus senhores (disse com seriedade imperturbável o nosso herói), padre Ruivo pede-me
que confesse a toda a gente, que todos os meninos alvos e ruivos, que nascem neste lugar
são filhos dele...
 Em damanda do sítio Caracol, partira da vila o
nosso Aleixo, montado em seu cavalo preto andorinha que ia num trote cerrado pela estrada.
Na sua frente, Trigueiro e Rompe-nuvem - cães que sempre acompanhavam seu
dono nessas viagens - corriam de boca aberta e dentes à mostra, prontos a liquidar
qualquer inimigo que aparecesse.
Já a algumas léguas da vila, na volta da estrada, os dois cães latiam acuando algum
bicho, que lhes impedia a passagem. O cavalo preto andorinha quis desembestar para trás,
mas Aleixo, guapo cavaleiro, obrigou-o a seguir até a curva. E viu então uma cena feia:
uma onça pintada, entre dois pés de angico, enfrentava os dois cães, que a atacavam.
Em atitude de defesa, sentada nas patas trazeiras a fera dava cada uivo que fazia
arrepiaros cabelos.
A cada tentativa dos cachorros para agarrá-la, ouvia-se um ganido, e o braço da onça
passava no ar com tanta força, que fazia rodopiar as próprias folhas secas que vinham
caindo.
A pintada não fugia. As raízes lhe protegiam os flancos e as árvores a retaguarda.
O rabo do temeroso animal balançava, entre os angicos, como que demonstrando a sua
impaciência. Tão absorvida estava com os ataques dos cães que nem sequer percebeu a
presença de Aleixzo na beira da curva.
Foi então que o nosso herói teve uma idéia. Saltou do cavalo e, pé ante pé, veio se
colocar, atrás da onça.
Ao verem o dono do outro lado, reiniciaram os cães com mais intensidade os latidos e os
ataques.
Num pulo certeiro Aleixo agarrou o rabo da onça e apoiando os pés nos angicos puxou com
todas as forças.
Assustada com aquele inesperado assalto, a onça, vendo-se perdida fez tal esforço que
estourou o couro, da testa ao traseiro, deixando inteirinha a bainha na mão de
Aleixo. E danou-se por esse mundo de meu Deus...

Por uma íngreme vereda, onde os galhos de jurema e as unhas de gato ameaçavam
com seus espinhos ponteagudos, todos os que por ali passavam, Aleixo se embarafustara à
procura de seu cavalo preto andorinha.
Desde que saíra de casa notara que alguém - não era ilusão - o seguia de forma
estranha. Ouvia perfeitamente um estalo fraco em sua frente, ora de um lado, ora do outro,
dando a impressão de um fantasma que o acompanhava. Com certeza devia ser o zumbi de
algum animal morto, ou a caipora.
- Quem sabe se o "guia da floresta" (raciocinava) não lhe vinha mostrar o
paradeiro de seu cavalo?
E por isso seguia as passadas invisíveis.
Nem percebeu sequer que chegàra ao fundo do vale, e nem tão pouco a beleza policrômica
das borboletas que esvoaçavam, e dos azulões que cantavam de cima dos frutos vermelhos
dos mandacarus.
Apenas notou, ou antes, recordou que no inverno passado, vira ali uma abóbora gigantesca.
Agora, entretanto, tudo era capoeira.
Justamente no boqueirão, formado por duas serras que aí se confinavam, deu com uma
estranha e desconhecida entrada, semelhante a um túnel.
Como os passos invisíveis se encaminhavam para lá, ele também não teve medo de se
meter naquele ermo.
Mal, porém, foi se afastando da bucana, a escuridão foi tal, que ele teve de
parar, afim de se familiarizar com o ambiente.
Distinguiu após alguns momentos, as paredes lisas, e uma espécie de abóbada igual à da
capela da vila.
E, mais do que isso, ouviu um som que já lhe era conhecido.
De fato não se enganara. Era o chocalho do boi lavrado, que fugira do curral do
padre Ruivo.
Quando o touro o avistou (relata o próprio Aleixo) deu três esturros e correu
como se tivesse visto o demônio.
Procurando localizar aquele esconderijo, para laçar o boi, saiu pela bucana e veio
ver como se tinha formado aquele túnel.
Subindo ao mais alto da encosta, percebeu então que a abóbora gigantesca que ele
avistara no inverno passado, tinha se decomposto e uma das suas sementes, se enganchando
na garganta da serra, rachara-se ao calor do sol, formando aquela bucana estranha e
desconhecida...
Sementes de tal tamanho somente as viu, no sertão o carrancudo Aleixo.
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 Naquele dia, Aleixo notou um certo
ar de desconfiança nos matutos. A história da semente de abóbora era, talvez, a causa
dessa falta de compostura dos roceiros, pois percebera que alguém quisera rir...
Estava em jogo seu prestígio. E aquela barba, cujos fios eram documentos de valor, tinha
que ser respeitada.
Pensou durante todo o caminho como justificar e encerrar o incidente quase consumado.
Aproveitou a oportunidade da reunião que se fez pelo seu regresso e contou:
- A seca era tremenda. Não se via uma nuvem no céu e cortava o coração, ver o
esqueleto das árvores sem flores e frutos.
De repente formou-se um ridimunho tão forte que levava para o alto qualquer corpo
que lhe oferecesse resistência. Aliás, esse fenômeno que se verifica com persistência,
prenúncio que é de grandes estiadas nunca fora tão calamitoso.
Até homens foram levados para o ar e lançados à distância. Em pouco, tudo ficou escuro
de "meter dedo no olho".
Três dias de eclipse total. Havia choro desesperado. O povo rezava por toda a parte
esperando o dia de juízo final.
O caso era grave e padre Ruivo o aproveitara para se reabilitar com os desconfiados
sertanejos.
Náo se queixava de mim mas fazia ver a todos a falta que lhe estava causando o boi
lavrado.
Tinha até feito o responso de Santo Antônio e o animal tinha de aparecer.
Os dias sucediam-se sempre com a ausência do sol. E nem sequer brilhava a lua - E muito
menos as estrelas...
Gritos sem conta encheram o espaço - É que começaram a aparecer. ao longe, reflexos -
de luzes caindo sobre a serra redonda. Um enorme corpo vinha descendo lentamente e a
sombra que se projetava na terra ia aos poucos diminuindo...
A curiosidade popular não tinha limites. Nem cabia aos corações tanta alegria...
O vulto, já agora, perfeitamente visivel e limitado caía com mais velocidade. Ouviu-se
um estrondo abafado que o povo só percebeu devido à grande preocupação anterior. Todos
viram que o corpo estranho caíra em cima da casa de padre Ruivo. Era um milagre!...
De fato nunca se viu tamanho!...
A multidão invadiu a casa do sacerdote e verificou com espanto que o boi lavrado, todo
inteirinho, estava ali, metido debaixo de um girau, com os olhos abuticados e o
"coração em tempo de pular".
Sem fala, mudos de espanto, consultavam-se por mímicas e gestos.
O boi tinha descido na semente de abóbora, justamente aquela que encontrei lá na bucana
da serra.
Padre Ruivo, palido de emoção disse:
- Não teremos mais mortandade do gado!... Boi lavrado quando pisa nos lugares das
lagoas secas, seu rastro vai deixando cacimba para os outros beber. Na serra, quebra os
galhos mais altos e vai jogando em baixo para matar a fome do gado miúdo...

Naqueles lugarejos sem diversões, os homens passam os dias no campo e as
mulheres fazem renda, rezando ou resmungando da vida alheia.
Sempre que siá Donara, de óculos a cavaleiro na ponta do nariz, fazia renda com
os bilros, não podia deixar de acompanhar o seu trabalho de uma rezinha fervorosa.
Certa vez até, sentada no chão da cozinha, em frente da almofada, vendo um menino subir
a prateleira, onde havia um prato de doce, o repreendeu, sem contudo, interromper a
oração:
- Pai nosso que estais no céu (desse daí safado) santificado seja vosso nome...
A delicadeza do tecido, cujas linhas simétricas, imitadas pelos espinhos de mandacarus,
iam aparecendo no papelão perfurado, constítuia verdadeiro constraste com os modos
rústicos da rendeira.
Siá Donara odiava de coração ao Tonico Jogador, e esse ódio vinha desde o dia,
em que ele amarrara galhos de malva de uma e outra margem do caminho, causando aquele
tropeção que a fizera esparramar, com a cabaça de colo cheia de mel de engenho.
No jogo, Tonico era um espertalhãó de marca. De parceria com Aleixo. ganhava dinheiro a
valer. O ferreiro João, mulato calmo, de fala arrastada e monótona, que perdera uma
orelha, não sei como, o que ganhava, na forja, de dia, perdia, no jogo, à noite. Um dia
zangado reclamou:
- Cum vocês num adianta jugá. Se perco, perco, se ganho não me dão?!...
Mais cedo do que se esperava houve uma desinteligência entre Tonico Jogador e Aleixo. O
motivo fora Biluca, filha única de Ginuveva, cinquentona gorda e chancuda que vivia de
lavar roupa.
Ambos andavam enfeitiçados pela beleza e simplicidade da menina. Leviana e orgulhosa do
partido que se lhe oferecia, Biluca dava de ombro quando alguém de bom aviso lhe dizia:
- Toma cuidado minina! Conhece teu lugá.
De família pobre e humilde a moça gostava, a um tempo, dos inxirimentos de Aleixo
e das prosa de Tonico.
A história desse amor corria de boca em boca e cada um dos pretendentes procurava contar
mais vantagem.
Uma tarde Aleixo chamou Ginuveva à parte e falou:
- A senhora precisa acabar com esse desaforo. Respeito a sua casa e acho que ela deve ser
respeitada pelos outros. Olhe, quando a senhora sai para o rio, o Tonico entra e fica de
pagodeira com a Biluca.
A velha não teve dúvida. Saiu dali e foi passar uma bruta descompostura no moço.
Ameaçando-o proibiu que fosse à sua casa. Nem ouviu as explicações do Tonico. E virou
as costas ao rapaz.
Este, por sua vez, pouco ligou às ameaças da velha Ginuveva.
Num dia, mal a viu descer para o rio, com uma enorme trouxa de roupa, correu a ver Biluca.
Não se fez de .rogado quando a menina quis mostrar o vestido encarnado que estava na
sala, pendurado no armador de rede.
Conta Aleixo que a velha Ginuveva simulara apenas uma saída, voltando inopinadamente.
Ao vê-la em cima da calçada, sem poder fugir, o Tonico procurou se meter detrás do
vestido que estava pendurado na sala, ficando no entanto, com as pernas de fora.
A velha, fula de raiva, foi logo puxando o vestido da cara do atrevido e bradando:
- Estás aí, heim, sem-vergonha?
Trêmulo, Tonico respondeu:
- Eu tava fazendo medo a ela...
(SIQUEIRA, Batista. Folclore
humorístico) |