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A MEDICINA NA CAPITANIA

Ilustração de autor ignorado. In Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis.A medicina é praticada em qualquer parte: na grande cidade, e na roça, na vila e no povoado mais modesto.

A luta pela conservação da vida assim o tem determinado.

Por isso, achamos que não é fora de propósito dizermos a maneira por que se clinicava na capitania do Rio de Janeiro até os primórdios do século XVIII.

O castelhano, bacharel mestre Johanes, físico de dom Manuel, que fazia parte da frota de Pedro Álvares Cabral, desceu à terra no dia 27 de abril de 1500, a fim de, como entendido em astronomia, tomar a altura do sol ao meio dia, com o astrolábio e determinar a posição astronômica da região. Foi, portanto, o primeiro médico que pisou em terras brasileiras.

A medicina no Brasil começou, depois do seu descobrimento, a ser praticada pelos jesuítas, que aprendiam os processos da arte de curar dos índios, auxiliando-os com o que liam nos livros europeus.

"O padre José de Anchieta, em 1582, agasalhava doentes da armada de Diogo Baldez, que arribava no Rio de Janeiro, e na casa em que o recolheu funciona hoje o Hospital da Misericórdia".

Os fazendeiros também exerciam a arte de curar: - sangravam, empregavam ungüentos, etc. Os benzilhões eram procurados para, por meio de palavras, usar desta espécie de cura "que hoje se divisa magnética e sugestiva, a qual estava já reconhecida por D. João VI..."

As parteiras curiosas, ou comadres, apareceram com o seu contingente de mezinhas, não sendo difícil ainda encontrar-se vestígios delas no interior do país.

A Pernambuco chegava, acompanhando a expedição do conde Maurício de Nassau, seu médico e archiatra da mesma, Guilherme Pies ou Piso, como foi mais tarde latinizado.

É ele o mais antigo médico da colônia, sem silenciarmos, no governo de Duarte da Costa o licenciado Jorge Fernandes e o cirurgião Mestre Jorge Valadares, nomeados por dom João III em 1553, e o bacharel mestre Afonso Mendes, que acompanhou Mem de Sá. Escreveu, em 1648, a primeira edição da História Naturalis Brasilia, tendo apensos os trabalhos de Jorge Marcgrave, sob o título História, rerum Naturalis Brasilia. Este chegou a Recife depois de ter passado algum tempo na Bahia. Era médico e botânico, sendo perfeito conhecedor da astronomia e da arquitetura. A Marcgrave muito deve a História Natural Brasileira, da qual foi, por certo, o fundador.

O doutor João Ferreira da Rosa, português, clinicou em Pernambuco, e estudou a epidemia da febre amarela, que em 1686 grassou na referida capitania.

Finalmente, os principais médicos da capitania do Rio de Janeiro, sem falar nos práticos licenciados pelo Hospital da Misericórdia, foram, nos primórdios do século XVIII:

Rodrigues de Abreu, natural de Evora; veio para o Brasil, em 1705, acompanhando o governador da capitania, regressando em 1714; doutor Manoel Saraiva, chegou em 1713, como médico do presídio da Saúde e capitão-mor. Fez parte, mais tarde, da Academia dos Felizes, fundada por Gomes Freire, a exemplo da Academia dos Esquecidos, fundada na Bahia em 1724, pelo vice-rei Vasco Fernandes Cesar de Menezes. Clinicaram também, o doutor Francisco Corrêa Leal, de que os jesuítas diziam: - "depois de nós Francisco Corrêa Leal"; - José Pinto de Azevedo e João Antônio Mendes, cirurgião aprovado, comissário geral do cirurgião-mor em toda a América Portuguesa.

O anel simbólico é quase contemporâneo da criação do ensino médico no Brasil.

A primeira idéia partiu, em 1838, do doutor Thomaz Gomes dos Santos, que propunha o uso de um anel com o busto de Hipócrates. Em 1856, o doutor Dias da Cruz propôs, e foi aceito, na Faculdade de Medicina, desta capital, a adoção da pedra verde. Um pouco mais tarde, os professores das faculdades médicas do Rio e da Bahia foram distinguidos com os títulos honoríficos de desembargadores e de conselheiros, uma vez que tivessem mais de 25 anos de serviços. O decreto nº 2.579, de 21 de abril de 1860, aprova o "modelo para as vestimentas que os diretores, lentes catedráticos e substitutos, opositores, doutores e secretários das Faculdades de Medicina do Império devem usar".


(PASSOS, Alexandre. O Rio no tempo do Onça; século XVI ao XVIII.)

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