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ENCANTERIA

Espécie de pajelança no Piauí. Conheço apenas a informação de José Olimpo de Melo (Teresina), que assistiu a uma sessão de encanteria a 17/05/1938, dirigida pelo pai-de-terreiro Gonçalo José de Barros. Num salão amplo, há num canto o alô (oratório), pequena mesa com toalha branca, tendo as estampas de Santa Bárbara (a Virgem), Nossa Senhora do Monte Serrat e uma pombinha de metal, representando o Espirito Santo. Numa garrafa há um líquido de cheiro agradável, que serve para friccionar braços e cabeça dos indivíduos em transe. Há uma forquilha central (guna), em cuja a base fica uma laje com velas acesas. A sessão durou das 19:50 às 24 horas. Cantam em uníssono, dia do alô, a quadra: "Pede, pede, pecador/ pede de joelhos / Vem rezar este padre nosso / Vem rezar pela Mãe de Deus." Repetem doze vezes, substituindo o um do terceiro verso pelo número imediato. Depois, o pai-de-santo, acompanhado de todos, ficou no meio da sala, dançando ao redor da Guna. O pai-de-santo chama-se Gonçalo Civiliano (Silvano), informa não ser macumba nem espiritismo e sim encanteria. O movimento, da direita para a esquerda, em círculo, com o pai-de-santo no centro, era coletivo, e cada figurante girava sobre si mesmo. Cada doutrina (estrofe, canto) possui solfa especial. Provoca-se desta forma a manifestação do moço, espirito humano ou animal, existindo uma doutrina privativa de cada moço. O pai-de-santo entoa o primeiro verso, até que algum moço se aposse do aparelho e este cante sua doutrina, dançando e atuando. Na fase de possessão, a devota aproxima-se da Guna, deixando a roda onde a cantiga ficou mais acelerada e viva. Incensa-se a sala para afastar os espíritos maus e abrandar os fortes e turbulentos, como os do leão e do touro, mais assíduos nas manifestações. O pai-de-santo dirigiu-se ao alô, onde um iniciado, paramentado de vermelho e azul, com colares variegados, predominando o amarelo-ouro, curvou-se sobre a mesa e cantou, curvado, sendo acompanhado pelos ouvintes. Manifestou-se o espírito do caboclo, um dos mais fortes. O aparelho, dançando e contorcendo-se, agarrou-se à Guna (forquilha central). Recomeçaram os cantos e as danças. Findou a cerimônia com rezas cantadas ao pé do alô. Nesse terreiro manifestam-se o touro, o caboclo, o leão que, por vezes, atua com tal violência que o aparelho fica prostrado durante vários dias. Algumas doutrinas:

"Ô ilta, companheira, ilta,
Ô ilta, vamos trabalhar
É lá no mar...
Quem passa tem canoa,
Passarim avoa,
Passo voador
É lá no mar."

Outra:
"Eu venho de Passagem Franca
Lavandeira não deixou eu passar
Eu passo, lavandeira,
Eu passo,
Eu passo, lavandeira,
Eu passo..." (coro).

Outra:
"Eu sou reis tubarão,
Um homem só não me aguenta!
(coro) Eu sou reis tubarão,
Tubarão, Tubarão!"

Outra:
"No romper da madrugada,
Lá no mar deu-se o sinal;
Eu sou caboclo velho índio,
Sou da linha secular.
(coro) Ô, minha mãe, ô minha mãe,
Precisando, mande me chamar!
Eu sou irmão do Salvador,
Eu sou da linha secular."

Outra:
"Mas que força é esta
Que do mar chegou? (bis)
Foi o légua [Legba?] que nesta eira entrou?
Dan-din, dan-dô
Ô diga a légua que chegou!"
(repetidas muitas vezes)

Outra:
"Venho d’aldeia (bis)
Venho d’aldeia, caboclo,
Venho d’aldeia...
Tu não bambeia, tu não bambeia,
Tu não bembeia, caboclo,
"Tu não bambeia!..."

Outra:
"Cação do mar chegou,
Pra atuar..
Ora viva meu mestre,
Meu chefe e rei do mar!"

Outra:
"Eu caboclo Mariano,
Quem manda na linha sou eu;
Ô na morada do caboclo,
Só se vê encanteira,
Ô lá se vem os caboclo
Da serraria..."

Outra:
"Eu sou tombo, tombo,
Eu sou tombador...
(coro) Venho da Casa de Mina,
Vou pra casa de Nagô.

Boto, boto, boto do mar,
Eu venho brincar
Ao som da maracá!"

(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro)

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