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O JOGO DO BICHO, INEXTINGUÍVEL
Anônimo
O jogo do bicho, a bem dizer,
começou com as flores. Isso foi mais ou menos no início do governo de Floriano, cuja
austeridade e energia transigiam com os jogadores a fim de que daí houvesse mais sossego
para uma administração preocupada, antes de tudo, com a ordem pública.
Floriano entendia que enquanto se jogava, não se conspirava.
Certo Manuel Ismael Zevala, cidadão mexicano, aqui apareceu em 1892 com um jogo de
flores. Ele mesmo bancava, num sobrado da rua do Ouvidor. Parece que o êxito não foi
grande. Zevala, que conhecia o barão de Drummond, procurou-o. O barão João
Batista Viana Drummond -, amigo de dom Pedro II, criara aqui o Jardim Zoológico, em
terrenos de sua propriedade no bairro de Vila Isabel. O monarca dava-lhe uma subvenção,
visto que o Jardim era desde 1888 franqueado ao público. O auxílio imperial era de 10
contos, por ano. Mas em 1889 veio a Republica e a subvenção foi cortada. O barão, com a
sua fortuna pessoal empregada na bicharada do Jardim, viu-se em crise financeira das mais
difíceis. Foi quando Zevala lhe disse da conveniência de substituir o jogo das flores,
então de movimento precário, pelo jogo dos bichos. No começo de 1893, iniciou-se a
temporada. Cada visitante do Jardim, ao comprar a entrada, recebia o ingresso com a
indicação de um animal, que significava a possibilidade de um prêmio vinte vezes maior
do que a soma despendida com o bilhete. Cada ticket, mil-réis, e o visitante se achava em
condições de ganhar vinte mil-réis.
O jogo era simples. Havia um quadro enorme içado a um mastro fincado ao pé do portão do
Jardim. Nesse quadro, em figura e nome, o bicho desenhado e colorido que era o vencedor,
rigorosamente coberto por um tapa-vista. Assim era durante o dia. O tapa-vista era fechado
a chave. A honradez, em primeiro lugar. O quadro da surpresa era inviolável. À tarde,
perante a multidão de curiosos e jogadores, revelava-se o segredo. Em poucas horas, a
engenhosa invenção canalizava dinheiro a rodo para os bolsos do barão e do mexicano. O
jogo foi durando, cada vez mais rendoso, até que a polícia decidiu proibi-lo. Como
divertimento, ia bem. Como exploração do vício urgia acabar. Mas, não acabou. Teve as
suas férias. No limiar deste século, com o surto audacioso das loterias, a estas o jogo
do bicho se associou. Não é mais o quadro do barão, nem a fauna de seu parque o que
atrai. O jogo empolga a cidade. Joga o rico, o remediado, o pobre, jogando patrões e
empregados. O bicho é plebeu, mas é também mundano no mecanismo social. Toda a gente
dá palpites. Há os mais absurdos e incríveis. Os jornais mantêm seções
especializadas. Usa-se de recursos os mais extravagantes. O bicho dominou a sociedade. A
Mascote, folha diária, noticiosa e literária, era o seu órgão oficial.
No enterro de José do Patrocínio, ao entardecer, houve grande acompanhamento e muitos
oradores falaram à beira do túmulo do jornalista-tribuno da Abolição. Entre os
presentes, achava-se o poeta Guimarães Passos, amigo íntimo do morto, seu antigo
auxiliar na Cidade do Rio. Patrocínio costumava atrasar-se no pagamento de seus redatores
e repórteres. Guimarães Passos, um deles, viu-se reduzido a credor do extinto, de
dezenas de contos de réis. Foi o último a sair do cemitério, não sem tomar boa nota do
número da sepultura. No dia seguinte pela manhã, Guimarães Passos jogou no milhar, na
centena, na dezena e no grupo. Cercou o bicho por todos os lados. Ganhou. Para ele,
boêmio inveterado sempre roído de dívidas e necessidades, o que recebia era uma pequena
fortuna. Com os bolsos cheios de dinheiro, já embriagado, correu ao cartório de José
Mariano e foi dizer ao parlamentar ilustre, chefe liberal e líder abolicionista, que
também estivera no enterro, como se operara a sua felicidade. Deserto o cemitério, ele
se aproximara do túmulo de Patrocínio e a este fizera uma invocação. "Oh! Zé do
Pato, meu amigo! Tu, que durante tantos anos me pediste trabalho sem mo pagar, dá-me o
palpite do bicho de amanhã. Tem pena de mim, que nunca te faltei!".
De repente, como que movido por uma força oculta, fixou o olhar no número gravado na
sepultura. Nervoso, copiou-o. Toda a noite, sem dormir, esteve a pensar, a perambular
pelas ruas e a beber. Jogou na manhã seguinte. Acertou em cheio. Abraçava a José
Mariano, dançando de contente no cartório.
O bicho, próspero, opulento e radiante de prestígio, desdobrava-se. Multiplicava-se.
Dentro de um só sistema de jogo, os sistemas multiplicavam-se. Jogava-se no Antigo, no
Moderno, no Salteado, no Rio, no Agave Americano, no Buraco, no Caridade, no Popular, no
Elefante, no Moderno Loto, no Nascente, no Ocidente, no Carioca, no Garantia, no Ajuda de
Nossa Senhora, no Talismã, etc. etc.
A polícia tinha épocas de tolerância absoluta e de perseguição encarniçada. As
épocas de tolerância eram de vacas magras. A polícia aborrecia-se. As de perseguição,
porém, eram de vacas gordas. A perseguição era um meio seguro, infalível, de se
extorquir dinheiro dos bicheiros.
Certa vez, era delegado do 14º Distrito Policial o doutor Parreiras Horta, homem pobre,
algo filósofo, eternamente metido no seu fraque preto e surrado. O Chefe de Polícia era
Leôni Ramos, que mais tarde seria ministro do Supremo Tribunal Federal. Parreiras Horta,
autoridade sisuda, a quem um cavanhaque de espana-injúria ainda dava mais sisudez, tinha
lavrado em cartório um flagrante pela contravenção do jogo do bicho. Horas depois, era
chamado ao gabinete do chefe. Foi. Leôni Ramos fez-lhe ver que o contraventor autuado era
amigo e compadre de um deputado parente do futuro Presidente da República, já eleito.
Esse deputado, pessoa a quem não desejava desgostar, empenhava-se para que se tornasse o
flagrante sem efeito.
Parreiras Horta não se perturbou, concordando:
- É fácil a V. Exª mandar rasgar o flagrante. Designe agora mesmo o meu substituto,
porque já não sou mais delegado.
Leôni Ramos assustou-se. Não esperava por aquela. E acudiu cortes, procurando conciliar:
- Não, não é caso disso. Ao contrário. O senhor merece toda a confiança.
- Sim, resumiu tranqüilamente Parreiras Horta, para se despedir e sair. Bem sei. Mas o
senhor é que já não merece mais a minha confiança.
Abandonou o cargo.
Banqueiros de bicho houve que lograram notável situação. Enriqueceram. Trocaram o bicho
por outros negócios. Tornaram-se alguns até cavalheiros opulentos e de respeitabilidade
social.
Em 1915 ou 1916, o senador Érico Coelho, homem de talento e de originalidade, quis
legalizar o bicho. Estudou o problema a fundo. Descobriu as origens desse jogo em
Cambodge. Apresentou ao Senado um projeto a respeito. Érico argumentou que se se podia
apostar sob as patas de um só dos vinte e cinco bichos, o cavalo, era natural e coerente
que se apostasse nos demais vinte e quatro, visto que o cavalo não era mais nobre, nem
mais útil ao homem do que, por exemplo, o cachorro, o burro, o touro, o carneiro, o
porco, o galo, o peru e a vaca.
O projeto de Erico encalhou no Senado. Quando ele tempos antes era deputado tinha
apresentado outro para estabelecer o divórcio. Também ficou arquivado na Câmara.
Não tinham sorte os projetos do deputado. E o jogo do bicho está na mesma. Vamos
descobrir qual era o número do projeto?
(1951)
(BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso) |
Veja também:
- Dois calangos
sobre o jogo de bicho |
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